Opinião

A História na espuma dos dias

A avidez da espuma dos dias não nos deve impedir de analisar tendências e impõe um distanciamento crítico em relação a acontecimentos.

Como provavelmente muitos outros, as férias são um momento dilecto para colocar em dia literatura não técnica. Só agora tive oportunidade de ler Reflexões sobre a História, do grande historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014), figura destacada da chamada École des Annales, um dos precursores da “Nova História” e um dos maiores estudiosos da Idade Média. Em longa entrevista concedida em 1982 a Francesco Maiello, como é habitual em obras sobre a historiografia, reli o nosso tempo com os óculos da ciência que nos prova que pouco ou nada existe de novo “debaixo do sol”.

Le Goff avisa-nos para não sacralizarmos o momento e debate o modo como tal é possível com os mass media da década de 80. Imagine-se hoje. A avidez da espuma dos dias não nos deve impedir de analisar tendências e impõe um distanciamento crítico em relação a acontecimentos, em regra com o fito de diminuir a sua importância. Lembrei-me dos dados económicos que as instituições europeias e nacionais vão publicando. Uma legislatura, nesse domínio, só se analisa no fim, e tal juízo resulta muito mais da conjuntura que da estrutura. Infelizmente para Portugal. O “alavancar” (como agora se diz) pelo turismo não será sol de eterna dura e o país vai florescendo com tascos e quejandos, camas e mais camas e desocupação dos centros de Lisboa e Porto. Ambas vão perdendo a sua identidade. Por certo ninguém advoga uma espécie de muro à maneira de Trump, mas a desregulação no sector só terá, a médio prazo, efeitos perniciosos, para além dos já visíveis. "Não se deixar hipnotizar pelo acontecimento como criador da mudança".

O historiador afirma que "[o] único nacionalismo admissível é o que actua para tornar mais claro aos homens o funcionamento das sociedades dentro das quais vivem". Vou enviar um postal com esta frase a Orbán, a Salvini, aos governos polaco e austríaco, bem como a Macron, que se pretende afirmar como o moralista de serviço e não dá o exemplo. A Alemanha é igualmente destinatária, em especial com as últimas notícias do neofascismo vivo e actuante, numa Europa estilhaçada e incapaz de perceber que a crise dos migrantes exige um reforço de ajuda aos países de onde foge quem apenas clama por vida. Neste, como em outros pontos, permito-me discordar respeitosamente de Le Goff, quando diz: "(…) falar das dificuldades faz sempre parecer as coisas um pouco mais difíceis do que na realidade são". Se se falar pouco ou nada, as coisas não existem, em especial nestes dias hipervelozes.

Soluções? "(…) [O] método está em função do objecto". Inexistem receitas pré-elaboradas, formulários de campanha e qualquer solução ou seu arremedo, do que é verdadeiramente importante, passa por um diálogo multinacional, apesar de uma ONU quase em insolvência face ao boicote dos EUA e da circunstância de nunca se ter prestado grande atenção ao que diz qualquer Secretário-Geral daquela organização. Por muito bem-intencionado que seja, como é, o nosso Guterres, a única linguagem na real politik é a da força dos exércitos ou do poder económico. Aproximamo-nos, perigosamente, das condições que levaram ao logro da Sociedade das Nações.

Na verdade, bem vistas as coisas, vivemos uma nova Idade Média, com o regresso do sagrado, as guerras das religiões, a descrença no ser humano e a urgência em procurar abrigo no divino. Nada contra. Simplesmente, o divino é o humano exponenciado, levado ao limite das suas forças e a lei mais respeitada no mundo é a “do menor esforço”. Le Goff defende mesmo que os nossos tempos são de um retorno ao “amor cortês”, à limitação à célula familiar básica, à semelhança do culto pela Sagrada Família. E, com uma actualidade cortante, refere-se ao Papa coevo, João Paulo II, como «a Idade Média mais a televisão». Certo: o agora santo foi bastante conservador na mensagem da Igreja, mas era dotado de uma simpatia tocante e o seu exemplo de serviço até à morte, de que os velhos importam, deixaram marcas indeléveis. Francisco parece pretender entrar, pelo menos, na Idade Moderna, mas arrisca um cisma. Tem a Cúria quase toda em plena “grande noite”, a suspirar por papas em tronos e por tiaras encrustadas de pedras preciosas. Os “príncipes da Igreja” não querem perder privilégios e a recente carta do ex-núncio nos EUA é parte de uma manobra orquestrada pelas forças ultraconservadoras que têm, p. ex., no Opus Dei, um tentáculo muito forte, presente em todas as instituições da sociedade civil.

Pois é, meu caro Le Goff, a neo-Idade Média veio para ficar. Quando nos encontrarmos, dir-lhe-ei o que já sabe: em Portugal, como em tantos outros Estados, o seu sonho de unificar História, Sociologia e Antropologia permanece uma quimera. Com o pouco interesse que o sistema de ensino dedica à História, com a ausência de capacidade de atracção de um público jovem por muitos professores, com a prevalência do momento sobre a tendência, já não me admiro quando falo na queda do Muro de Berlim ou na Guerra Fria e a sala enche-se de um insuportável silêncio. E dou por mim, agora, a explicar apenas o essencial. Depois digo: “vejam no Youtube ou na RTP Memória”. E volta e meia lá aparece um/a que se confessa admirado/a como as coisas eram há poucas décadas atrás.