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Os meus advogados tristes: os que não deram o salto para a outra margem

Os advogados são, ainda, uma classe entre realidades e entre gerações. O gap geracional tarda a encontrar pontes lógicas de diálogo que consigam estabilizar a classe e, mais importante, que permita a integração de novos profissionais de uma forma prospectivamente sustentada.

A profissão de advogado é dura, não aceita desculpas e raramente dá segundas oportunidades. Longe da efabulação que parece subsistir numa espécie de memória colectiva, as dificuldades de acesso, a luta, palmo a palmo, pela conquista de espaço e, mais perniciosa, a competição quase autofágica entre membros da classe pela manutenção do patamar atingido, exigindo uma atenção e disponibilidade constantes, tornam esta profissão um pesado e tóxico  legado: não só para o profissional em si mas, sobretudo, para todos aqueles que o rodeiam. São poucos os profissionais que não sabem (não sentem) que o sucesso não é verdadeiramente seu. É, no fundo, conquistado em detrimento de todos os sentimentos, emotividade e afectos dos que acompanham a dura jornada em direcção ao tão almejado sucesso. 

Mas a essência do problema passa, fundamentalmente, por encontrar a medida deste sucesso. Reproduzo aqui um pensamento furtado a um estimado colega que, pela sua acuidade e simplicidade inteligente, sempre me pareceu ilustrar aquela medida. Surpreendia-lhe a expressão de um determinado profissional "não ter dado o salto para a outra margem". A simplicidade aparente esconde, no entanto, uma incontornável verdade. De facto, são poucos os Ilustres colegas que, debatendo-se com os desafios da profissão, conseguem alcançar a outra margem, entendendo-a eu como o alcançar do crescimento sustentado e estabilizado na profissão. E nem falo aqui em termos unicamente economicistas. Todos nós tentamos, é certo, alcançar a nossa própria “outra margem”, pelo que o brilhantismo da expressão se faz, precisamente, pela abertura e multiplicidade do seu preenchimento.

Esta parábola tornou-se novamente mais presente ao ler um texto de um ilustre colega que sentia já os primeiros dissabores aquando do acesso à profissão. Não deixando de tristemente denotar que um certo sentimento de descrença grassa nas mais novas gerações de advogados, parece-me, no entanto, que o problema é (ainda) mais profundo. O papel institucional da Ordem dos Advogados e as consequentes fragilidades denotadas num patamar formativo e de acesso à profissão, que ali era referido, são problemas profundos e marcadamente importantes, mas que têm que ser considerados, quase, como de fim de linha. De facto, sempre seria necessário constatar que a complexidade dos problemas e desafios da profissão se situa, desde logo, a montante.

E, aqui, tenho que considerar que existem várias achas que podem ser lançadas a esta fogueira do Direito que, infelizmente, parece queimar em lume brando os seus futuros tristes profissionais. O curso de Direito é, ainda e numa perspectiva global de consideração do espectro das humanidades, um curso de escolha residual, isto é, tido e percepcionado por muitos candidatos como “válvula de segurança”, a opção possível perante a não escolha de outro futuro ou perante a indefinição ou incerteza. Isto faz com que se crie um problema claro de vocação para o curso em si e, mais tarde, para o exercício das profissões jurídicas, a de advogado incluída, versus expectativas de realização e retorno profissional e económico que se traduz, também, e no caso da advocacia, nas dificuldades de início e implementação na profissão. Daí que seja importante realçar o papel das universidades na concepção de programas de cursos de qualidade, subindo a fasquia pedagógica e formativa, apostando na percepção de efectividade na colocação no mercado e nas saídas profissionais, atenta, até, a multiplicidade de caminhos que o curso proporciona.

Por outro lado, os advogados são, ainda, uma classe entre realidades e entre gerações. O gap geracional tarda a encontrar pontes lógicas de diálogo que consigam estabilizar a classe e, mais importante, que permita a integração de novos profissionais de uma forma prospectivamente sustentada. E aquele gap geracional existe, precisamente, porque, nuns, começa a germinar uma oposição expressa a um certo sentimento de casta, com consideração de uma veia e tradição histórica da profissão que continua a colocar obstáculos inacessíveis no acesso e sucesso na profissão. E, por parte de outros, porque vêem a multiplicação dos cursos, números e acesso como sinónimo de banalização da classe. Entre Settembrini e Naptha, o equilíbrio parece-me ser feito tendo no critério de qualidade a ponte ainda possível.

Mas o crescimento da própria classe faz-se, também, pela percepção que essa qualidade técnica e humana tem que fazer parte de um novo paradigma e ADN de advogado, sobretudo deixando de lado uma certa ideia de glamour vazio, consubstanciada na triste realidade do tão almejado título de “Dr.”, inerente à profissão que esconde vidas e percursos profissionais sofridos e no limiar da sobrevivência.

Voltando, novamente, àquela expressão, não consigo deixar de pincelar o presente quadro à laia e, por referência, à figura de Caronte. Quem consegue fazer a travessia? O que define o peso da moeda para pagar a viagem e alcançar a outra margem? Sorte, qualidade ou antecedentes na profissão? O problema, contudo, não se resume aos que deram o salto. O pesado requiem é feito por todos aqueles que não conseguiram dar o salto e vagueiam na margem por cem anos ou jazem no leito do rio. Nos dois lados do espectro. Os jovens que lutam por começar a profissão a montante e os muitos advogados maduros que se vêem, após anos de trabalho, sem opções, crescentemente burocratizados e tristemente conformados, a jusante. E, paradoxalmente, esse é também o peso da moeda dos que conseguiram fazer a travessia.