Opinião

O Rato, o gosto do Ministério Público e a clausura da sinagoga

O Ministério Público quer mostrar a sinagoga de Lisboa à cidade e os líderes da comunidade querem que quem passa veja o seu templo religioso. Se assim é, porque mantêm a janela do portão tapada?

Declaração de interesses: vou falar sobre um amigo. Há anos que me incomodam os títulos das notícias sobre o “mono do Rato” porque, aos meus olhos, leio “mono do Manel” — e ninguém gosta de ver um amigo ser tratado assim.

Há pessoas que vêem no projecto para o Largo do Rato, em Lisboa, de Manuel Aires Mateus e Frederico Valsassina, “um “mono”, um “mamarracho” e até “um aborto” e uma “excrescência urbana”. Todos têm direito ao seu gosto e à sua opinião. E têm até direito a serem deselegantes. Isso é uma coisa. Outra bem diferente é usar a expressão “mono do Rato” nos títulos das notícias, porque “é assim que o edifício é conhecido”. Seguindo essa lógica, teríamos “aldrabão do Relvas” nos títulos sobre a forma como Miguel Relvas, ex-ministro de Pedro Passos Coelho, obteve a sua licenciatura em 2006.

Mas isto é um pormenor. Foi a argumentação do Ministério Público para processar a Câmara Municipal de Lisboa e tentar impedir a construção do projecto que me fez escrever sobre a polémica.

Não vou discutir questões jurídicas, muito menos de PDM. Compreendo até o argumento dos que defendem que o Ministério Público, embora não sabendo de arquitectura, pode ser proactivo na área dos direitos difusos (como o ambiente, os direitos do consumidor e a cidade), direitos que não são de ninguém em concreto mas de toda a comunidade. O Ministério Público pode até ser um pouco quixotesco.

É verdade que o espanto inicial começou aí. O que sabem de arquitectura os procuradores para escreverem que “ao nível da composição das fachadas e materiais utilizados” o projecto “representa uma clara rotura negativa com o espaço envolvente”? E que, “pelas suas dimensões, materiais ou estética”, não atende “às especificidades e pré-existências do sítio”, nem “preserva a imagem e ambiente urbanos do mesmo”?

Não sabe o Ministério Público que a pedra de lioz, proposta por Manuel Aires Mateus e Valsassina como pele da fachada do edifício do Rato, é a “pedra de Lisboa”, aquela na qual se vêem os fósseis marinhos do tempo em que havia na cidade mar em lugares onde hoje há terra? Sabendo isto — e sabendo que os arquitectos querem usar até, e apenas, lioz recuperado de outras obras — porque razão repete o arquitecto Luís Marques da Silva, um dos mentores da campanha Salvem o Largo do Rato, que o edifício é um “desencanto de betão”? Quereriam que a estrutura fosse de madeira? E a que propósito vai o Ministério Público atacar em tribunal o uso de lioz em Lisboa?

Sobre a “grande dimensão” — e olhando para a fotografia que circula e que foi tirada, claramente, para impressionar — imaginará o leitor que se trata dos 105 metros de altura das “torres do Siza” (e tão bonitas que eram). Já sabemos que os portugueses não gostam de arranha-céus e vivem presos à nostalgia do passado. Basta ver a imagem que abre a página de Facebook do Salvem o Largo do Rato: um burro de carga em frente ao chafariz. O espírito do “dantes é que era bom” domina o discurso público ao ponto de as pessoas se indignarem com a destruição de obras de Vhils nas paredes da cidade, como se o efémero não fosse a natureza da sua arte. Mas o facto é que, sendo maior do que os edifícios da praça, o projecto é da mesma altura da casa de Ventura Terra, ao lado, e talvez um terço do edifício da Fidelidade, abaixo.

De todos, o argumento mais extraordinário é o de que o projecto viola a Constituição. Diz o Ministério Público que o edifício do Rato “acentuará de modo especialmente gravoso o enclausuramento da sinagoga, escondendo-a e afastando-a ainda mais da cidade e dos cidadãos”. É esse “enclausuramento” que viola os princípios constitucionais da igualdade e da liberdade religiosa, diz o Ministério Público. Depois das férias, vou ouvir alguns constitucionalistas. Mas é curioso ver como esta preocupação contrasta com a postura da própria comunidade judaica, que nunca mostrou o mínimo interesse em abrir-se à cidade. O portão está sempre fechado e há uma rede de vários metros de altura em cima do muro. São questões de segurança. Mas porque está tapada a janela (com um vidro à prova de bala) que foi colocada no portão ao nível dos olhos de quem passa para, justamente, os lisboetas poderem espreitar e ver a fachada da sinagoga? Há 15 anos que lá está e há 15 anos que a vejo assim.