Lisboa

Pelas constelações de Alvalade escreve-se história em Lisboa

Três percursos comentados e outras tantas conversas procuram deitar luz sobre períodos marcantes de Alvalade, da cidade e do país.
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Se por casa entendermos o sítio onde nos sentimos bem, nos encontramos com amigos e, quem sabe, somos felizes, então Alvalade é a casa de muito mais gente do que a nele habita actualmente. Igual coisa se poderia dizer sobre qualquer outro bairro lisboeta, mas quantos se podem gabar de terem sido inventados a meio do século passado e, poucos anos volvidos, estarem já à mesa da história da cidade e do país?

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Em Alvalade desenhou-se uma cidade nova, fervilhante de ideias que ajudaram a moldar a Lisboa pré e pós-25 de Abril – e muito disso passou pelos seus cafés e outras “constelações de encontros”, que a partir deste sábado, até ao último fim-de-semana de Setembro, motivam, inseridos no festival Lisboa na Rua, passeios comentados e tertúlias por espaços emblemáticos deste pedaço da cidade.

O primeiro itinerário, dedicado aos “Verdes Anos”, começa no Bairro das Estacas e termina no café Vá-vá, que é ponto comum aos três percursos propostos e onde, ao fim da tarde deste sábado (18h30), se juntarão Isabel Ruth, Alfredo Barroso, Ana Louro, Isabel Maria Mendes Ferreira e Lauro António para falar de quando o cinema português era novo.

É na esplanada do renovado Vá-vá, que agora se diz não só café mas também “steakhouse”, que Aquilino Machado, o cicerone destes passeios, lança luz sobre a evolução de Alvalade. Pensado pelo Estado Novo logo a seguir à Segunda Guerra, “o plano para o bairro é executado no espaço de algumas décadas e revela aspectos fascinantes”, diz o investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (IGOT). O “fascinante” é que “cada célula do bairro é pensada quase com uma identidade própria, com uma escola ao centro”, o que permite aos habitantes “viver pedonalmente a sua célula”.

Cada célula tem uma identidade arquitectónica e urbanística própria, como tem também uma população própria. Tome-se como exemplo o Bairro das Estacas, junto à linha de cintura, já no limite do original Plano de Urbanização da Zona a Sul da Avenida Alferes Malheiro, desenhado pelo arquitecto Faria da Costa. “Aqueles que para lá foram viver são os que alavancam o respirar, o fluir de novas ideias”, afirma Aquilino Machado, explicando que aquela zona é ocupada por pessoas com profissões liberais e mulheres independentes, o que “tem qualquer coisa de revolucionário”.

O geógrafo diz que esta mistura de gentes e arquitecturas está espelhada na toponímia. Rasgam-se as avenidas dos Estados Unidos da América, de Roma, do Brasil, do Rio de Janeiro e, já fora de Alvalade mas perto dele, as de Paris e Madrid, dando assim “uma imagem cosmopolita ao lugar, contrária ao Estado Novo”, indica. Ao mesmo tempo, aparecem as ruas Frei Armador Arrais, Frei Tomé de Jesus, Diogo Bernardes, Camilo Pessanha ou a avenida Frei Miguel Contreiras, dando corpo a “uma toponímia mais conservadora”.

Cafés, esses pólos agregadores

É neste “mapa-múndi desgovernado”, como Aquilino Machado lhe chama, que aparecem os cafés como pólos agregadores: o Vá-vá, o Luanda, a Suprema, o Trevi, o Tique-Taque, o Nova Iorque, a Granfina, todos ao longo das avenidas de Roma e dos Estados Unidos, os dois grandes eixos rodoviários de Alvalade. Aí se começam a desenvolver, no fim dos anos 1950, as tertúlias literárias, políticas, musicais e cinematográficas que queriam mudar o país – e conseguiram.

Não se pode esquecer, alerta Aquilino Machado, que “a linha de metro só é inaugurada em 1972” e que, por isso, “este é um bairro muito distante do centro de Lisboa e muito independente”. Quando o Natal se aproximava, recorda, “era uma festa” ir à Baixa ver as luzes, era “ir à cidade”.

Os cafés de Alvalade, que a par com outros da vizinhança (a Mexicana, o Londres, o Roma) eram “fascinantes repositórios de arquitectura” e também “repositórios de arte”, passam em dado momento a disputar público com outros locais que despontam. “A partir de 1965 começam a ganhar importância as traseiras, fora dos grandes eixos – as boîtes, discotecas, cervejarias”, diz Aquilino. O drugstore Tutti Mundi, onde hoje é o Centro Comercial Roma, inaugurado em 1968, foi “o percursor da ligação entre a Avenida de Roma e as traseiras” e “é a partir daí que as traseiras começam a aparecer e a consolidar-se”, explica.

O segundo itinerário, a palmilhar a 8 e 9 de Setembro, é dedicado ao “25 de Abril” e tem essas traseiras como protagonistas: inicia-se num logradouro da Estados Unidos, pára no café Luanda, segue pela Rua Conde de Sabugosa até à Cervejaria Alga. A par com, por exemplo, a já desaparecida cervejaria Nova América, a Alga “teve uma importância muito grande na geração do 25 de Abril”, que fez de Alvalade um “palco de festa ininterrupta”, afirma Aquilino Machado. Para o próximo sábado está marcada, também na esplanada do Vá-vá, ume tertúlia sobre esses tempos com Eduardo Boavida, Elísio Summavielle, Margarida Gil e Miguel Vale de Almeida.

O último percurso percorre os santuários da “Geração do Rock”, aquela de que Aquilino Machado teve um conhecimento mais directo. “Havia aqui qualquer coisa de efervescente”, diz, debitando o nome de bandas que marcaram a sua juventude alvaladense: Vodka Laranja, Sétima Legião, Faíscas, Croissant, Xutos e Pontapés e tantas outras.

Foi nos anos 1980 que o rock e o punk tomaram conta do bairro, num momento em que se dá “um sismo profundíssimo nos cafés e locais de encontro”. Desaparecem então locais importantes, como a pastelaria Suprema, o café Trevi ou o Tique-Taque, e floresce outra geografia. A 22 e 23 de Setembro, o passeio é entre a antiga Sul América (hoje um Burger King), o Vá-vá, os Coruchéus e o Popular de Alvalade. É nesse espaço relativamente recente do bairro (abriu em 2013) que haverá a última tertúlia (22 de Setembro, 22h30) deste ciclo, com Samuel Palitos, Manuel Wiborg, Pedro Oliveira e Pedro Lopes.

Ambas as conversas do Vá-vá serão acompanhadas por um projecto de realidade aumentada “que tenta recriar pequenos apontamentos” desse café e do bairro, diz Aquilino Machado. Que, apesar de recusar saudosismos, admite a sua “mágoa” por não se conhecerem registos fotográficos de alguns pontos desta constelação. O Trevi, por exemplo, era “um café lindíssimo” – pelo menos é o que lhe diz a sua memória. “Mas não há registo iconográfico absolutamente nenhum. E o mesmo acontece com a Pastelaria Suprema”, que ainda assim aparece num fotograma dos Verdes Anos, de Paulo Rocha. “A história do bairro é indissociável da intensidade da arquitectura e do urbanismo, mas essencialmente das pessoas que aqui vivem”, diz Aquilino Machado. É por elas, e para elas, que existe este programa.