Lisboa 1960, Lisboa 2012: descubra as diferenças (e são muitas)

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O Saldanha, que tinha imensa vida, está hoje relegado a centro empresarial durante o dia e dormitório by night FIRMINO MARQUES DA MIRIAM LAGO COSTA/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA/ARQUIVO FOTOGRÁFICO

Em LX60 - A vida em Lisboa nunca mais foi a mesma, contam-se episódios de uma cidade ao longo de uma década de mudança. De Brigitte Bardot à Reboleira, passando pela PIDE e pela Guerra Colonial

Imagine-se que Lisboa é um jogo de tabuleiro. Já se sabe que o Rossio é zona nobre e cara, que há uma prisão (em Campolide) e que quem vive nas Avenidas Novas é gente com sorte. Há 50 anos era assim e hoje também. Mas também há muita coisa que mudou. O Bairro Alto simboliza hoje a vida nocturna e a boémia jovem; nos anos 1960, o Saldanha era isso tudo. Agora, as indústrias criativas têm como centros nevrálgicos o Chiado ou a LX Factory, em Alcântara. Há 50 anos, as Avenidas Novas eram o X no mapa criativo, da publicidade de Ary dos Santos ou Alves Redol na agência Êxito (na Alameda) ao Novo Cinema Português discutido no Vá-Vá, na Avenida de Roma. Lisboa é hoje a capital dos hipermercados. Em 1960, abria o primeiro supermercado, o Modelo, no Saldanha.

Esta é a cidade com que nos confrontamos em LX60 - A vida em Lisboa nunca mais foi a mesma (D. Quixote), um livro de Joana Stichini Vilela, jornalista freelancer, e Nick Mrozowski, designer gráfico norte-americano, que conta histórias de uma década em que houve uma praga de mosquitos na cidade, em que a cobertura da estação do Cais do Sodré desabou e matou 49 pessoas, em que nasce o metro com 11 estações - "e os alfacinhas se sentem por fim a viver numa capital europeia". Hoje, uma praga de escaravelhos mata palmeiras na capital, a estação do Cais do Sodré tem um hostel com terraço para apanhar sol e o metropolitano cresceu para 47 estações. Lisboa 1960, Lisboa 2012, descubra as diferenças.

Joana Stichini Vilela e Nick Mrozowski partiram para o livro ao sentir que se vive "uma fase nostálgica e revivalista", diz a autora. Não só porque olhamos para décadas mais prósperas com uma interrogação e saudade desejante em contraste com o panorama de crise financeira e social - e este, frisa a jornalista, "não é um guia dos anos 1960 para entender melhor o século XXI" nem um produto de nostalgia -, mas também porque a cultura popular se alimenta de si mesma. Em versão retro. Várias gerações que jogam Tetris no smartphone, que vêem a série Mad Men sobre o sector da publicidade nos EUA dos anos 1960 - e que fizeram a autora e coordenadora de LX60 pensar "como era a vida em Lisboa nesta altura?".

"E não havia nada [compilado sobre a vida quotidiana], só coisas pontuais. Fala-se do Estado Novo, da Guerra Colonial, há biografias, mas tudo muito político. Temos a ideia de que o Estado Novo era dominador na vida social", mas "vivia-se" também fora desse domínio, quer em luta, quer contornando-o. A jornalista quis contar histórias "que se podiam perder, porque são tão quotidianas que não damos por elas", dos brinquedos mais desejados no Natal à produção cultural, passando pela PIDE e censura. E fez em parte uma espécie de história oral, começando em 2010 a contactar directamente com fontes e protagonistas para entrevistas. "Era importante ter esse lado vivo no livro."

O selo Vasco Morgado

Se havia alguém que dava vida à cidade, esse alguém era Vasco Morgado. Naqueles anos, "o selo "Vasco Morgado Apresenta" está em todo o lado", lê-se em LX60. Mítico empresário do Parque Mayer e do Monumental, Vasco Morgado - todo um galã, actor em Capas Negras, marido de Laura Alves -, traz a Lisboa Johnny Hallyday, que pôs a multidão de jovens "insolentes" no Cine-Teatro Monumental ao rubro (e a imprensa até foi ouvir psicanalistas para perceber o fenómeno), mas também Sandie Shaw, os Animals, e, já na "boîte" do Saldanha Porão da Nau, agenda concertos de Ella Fitzgerald, Bécaud, Aznavour ou Sylvie Vartan. Os agentes culturais ajudaram a construir a cidade. "Foram fundamentais, mas estão esquecidos, são personagens que desapareceram. Não percebo como não se fala mais do Vasco Morgado, que fazia as coisas acontecer", diz Joana Stichini Vilela.

Foi ele que tornou "o Saldanha numa zona com imensa vida, que hoje não tem", relegada a centro empresarial durante o dia e dormitório by night, "morto depois do cinema", descreve a autora. O café Monte Carlo, um dos focos das tertúlias literárias, dos surrealistas aos neo-realistas, ponto de encontro de actores e políticos de todos os espectros, "hoje é uma Zara. E isso diz muito dos nossos tempos". Do Gabinete de Estudos Olisiponenses (GEO), da Câmara de Lisboa, confirmam-nos: "Há um esvaziamento, que se nota mais no centro histórico", que tem a ver com "o que se quer das casas" e como elas são vividas. Não é só hoje que o Rossio se queixa de não ter companhia para dormir. Nos anos 1960, a renovação urbana tem o seu preço: "Nessa altura a cidade transfere-se muito para as Avenidas Novas, para os cafés como o Vá-Vá. Nesta geografia parecia que havia esperança. Era uma nova era", diz Stichini Vilela, também aquela em que o êxodo rural, devido à pobreza do país e à industrialização crescente, criava os subúrbios à séria, como a nova Reboleira, descrita em 1964 como uma "cidade jardim".

Henry Miller bate à porta

Os autores identificaram na década de 1960 um período de intensa mudança. Não foi só, portanto, a década do "maior crescimento económico de sempre", que começou com o metro e com o primeiro de muitos supermercados. Foi a década que arranca com o annus horribilis de Salazar (1961), com o assalto ao Santa Maria, Kennedy a pressionar o regime pela independência de Angola, a Guerra Colonial.

"Houve um vento de modernidade" na cidade, indica o GEO. Foi também década do ié-ié (com vários "conjuntos" portugueses, palavra do novo calão da época, a darem-nos música com Missing You, dos Sheiks), das mini-saias, dos jeans justos como os de Londres da Por-fí-ri-os Contraste, inaugurada na Baixa em 1965. Um país jovem (92% da população tem em 1960 menos de 65 anos) num regime velho. Um país com "uma força muito importante", a dos estudantes, toda uma geração na qual "se depositaram grandes esperanças" e que "são hoje uma referência", diz Joana Stichini Vilela, como Jorge Sampaio e Medeiros Ferreira. "Uma geração muito idealista, que se sente claustrofóbica em Lisboa, com muita vontade", diagnostica a autora.

Há aqui uma nova Lisboa, uma cidade sempre a mudar e que, com o sopro de crescimento económico (até as primeiras máquinas automáticas de distribuição de dinheiro), teve uma injecção de obras públicas e privadas que perduraram. E cujas histórias estão em LX60, da Fundação Calouste Gulbenkian, na Avenida de Berna, à Ponte sobre o Tejo, passando pela Biblioteca Nacional e pelo Palácio da Justiça. E, claro, a nova cidade que são os Olivais - habitada pelos princípios da Carta de Atenas, que advoga o direito "às alegrias fundamentais: o bem-estar do lar e a beleza da cidade" - de Nuno Teotónio Pereira ou Victor Palla, entre outros.

LX60, que conta com textos de outros jornalistas, é um conjunto de episódios a que Stichini Vilela chama "uma cápsula do tempo, uma viagem" pensada sempre com o design de Mrozowski, que foi director de arte do jornal i e que, por seu turno, chama ao livro "bookazine" - um livro-revista que tanto dá para a reflexão quanto para a diversão. E há episódios surpreendentes para quem nunca mergulhou (ou viveu) nesta história muito particular da Lisboa sixties.

Brigitte Bardot foi beber vinho ao Bairro Alto e andou a ver bordados nos Restauradores. Ava Gardner e Gregory Peck jantaram no Aviz, do chef João da Cruz Ribeiro, no Chiado. Amália gerou polémica ao cantar Camões. Os serões literários de Natália Correia atraem todos, de Maria Teresa Horta ao romancista norte-americano Henry Miller, que uma noite, inesperadamente, lhe bateu à porta. Luxo, luxo era passar férias no novo projecto ambicioso de Keil do Amaral - o parque de campismo de Monsanto. Maria João Pires era notícia por, aos 17 anos, ter a primeira nota de 20 valores no exame final do curso de Piano do Conservatório. Outra mulher, Virgínia Rau, torna-se a primeira reitora de uma faculdade portuguesa, a de Letras. Daciano Costa desenha os interiores da Aula Magna e os móveis Olaio marcam a década. Há um novo cinema português disparado pel"Os Verdes Anos de Paulo Rocha, com fraco desempenho comercial, e depois lançado em gancho por Belarmino, de Fernando Lopes.

Esta viagem gráfica dá-nos o preço da hortaliça no Mercado 24 de Julho, fala do advento dos caldos Knorr e do tupperware e da geografia da prostituição. Histórias que querem "transportar o leitor para a década, mas que também o ajudem a compreender melhor o país e as gerações" que o fizeram nestes anos de ié-ié, de consumo e tensão política.