Rodrigo Leão Viver da música foi um instinto

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Rodrigo Leão ainda se lembra de um artigo de jornal em que chamavam aos Sétima Legião os "betinhos da Avenida de Roma"

Co-fundador dos Sétima Legião e Madredeus, Rodrigo Leão desenhou um percurso tão consistente que hoje é dos músicos mais bem sucedidos dentro e fora de Portugal. A dias de voltar a apresentar o seu primeiro álbum a solo no Coliseu, em Lisboa, falámos com ele sobre a vida profissional e pessoal, mais interligadas do que se possa imaginar.

Quase duas décadas depois da edição do primeiro álbum a solo (Ave Mundi Luminar, de 1993) e a dias de voltar a apresentar no Coliseu de Lisboa (5 Fevereiro) esse mesmo disco, na companhia do Coro de Câmara da Escola Superior de Música de Lisboa, do Vox Ensemble e do Cinema Ensemble, Rodrigo Leão lança um olhar retrospectivo sobre o seu percurso pessoal e profissional. Figura sóbria e discreta, não gosta muito de falar da sua vida privada, mas nesta entrevista dispôs-se a fazê-lo. Dos músicos portugueses da sua geração é, provavelmente, na actualidade, um dos mais bem sucedidos, tendo construído um percurso estável.

Em 1982 foi co-fundador dos Sétima Legião e em 1985 dos Madredeus, os quais viria a abandonar definitivamente em 1994, para se poder dedicar inteiramente à sua carreira a solo. Talvez não possua, aos olhos do grande público, um perfil de líder, mas a verdade é que, em momentos decisivos do seu percurso, deu passos determinados e soube rodear-se ao longo dos anos de cúmplices certeiros, que ele hoje diz serem a sua "grande família".

Comecemos pelas suas origens. É lisboeta?

Sim. Nasci na clínica de S. Miguel, no bairro do mesmo nome. Vivi lá até aos 20 e tal anos, ao pé da linha de comboio e do cinema King, com os meus pais. A música começou a ser importante a partir dos dez anos. Lembro-me de os meus pais me oferecerem um gravador amarelo com uma cassete do Jesus Christ Superstar. Tive uma infância e adolescência de bairro. Tinha amigos três anos mais velhos, o que era suficiente para ouvirem Genesis ou Pink Floyd no início dos anos 1970.

O que é que os seus pais faziam?

O meu pai era engenheiro civil. A minha mãe esteve sempre em casa. Tinha uma grande paixão por literatura e música. Era um pouco autodidacta e mais tarde acabou por estudar Filosofia. Tinha uma costela mais cultural do que o meu pai.

É o filho mais velho. Isso trouxe-lhe responsabilidades acrescidas?

Não. Sou o mais velho de quatro rapazes. A infância era vivida de forma diferente do que é hoje. Não sinto que tivesse responsabilidades acrescidas. Com seis ou sete anos, passávamos as tardes na rua sem problema nenhum. A minha mãe ia à varanda e via-nos com uma data de amigos. Foi nesse contexto de bairro que conheci o Pedro Oliveira e o Paulo Marinho [dois Sétima Legião], naquilo que constituiu o início do grupo. Ainda hoje somos grandes amigos. A Sétima Legião nasceu em 1982 e em 1980, tinha 15 anos, já andávamos à volta da ideia de formar um grupo. Tínhamos duas guitarras acústicas e levávamos aquilo muito a sério. Combinávamos ensaios e tínhamos vontade de fazer coisas nossas, mesmo que fossem mal tocadas.

Que memórias guarda dessa convivialidade da rua? Jogava à bola ou era mais do género de ficar de lado a observar os outros?

Fui sempre nabo a desporto. As poucas vezes que joguei futebol marcava golos na baliza da minha equipa... [risos]. Quando havia jogo de bola, que era quase todos os dias, ficava de fora. Recordo-me de os ouvir a jogar, de janela aberta, enquanto ouvia Genesis no meu quarto. Ou lia [John] Steinbeck. Mas havia uma grande união entre os meus amigos. Íamos sempre a pé para o liceu [primeiro o Eugénio dos Santos, depois o D. Leonor].

Ouviam música nas casas um dos outros, trocavam cassetes, iam ver concertos em grupo. Como é que era concretizada essa partilha a partir da música?

Havia uma obsessão com a música. Primeiro com os Genesis e, depois, nos anos 1980, com os Joy Division, New Order ou Echo & The Bunnymen. A música era tudo para nós. Era a nossa principal fonte de comunicação. E tínhamos um grande fascínio pelo que se passava em Inglaterra.

Na adolescência, a música ou os livros, podem servir de refúgio, forma de encontrar um universo próprio, mas também de procurar pontos de contacto entre diferentes. Como é que foi consigo?

A adolescência foi realmente a altura em que li mais e em que vi mais cinema. Tinha um espírito muito romântico e sonhador. Era mesmo despistado, distraído. Toda a gente sabia quem era o primeiro-ministro. Eu estava a leste, com 15 anos. E a minha mãe dizia-me: "Não te preocupes com isso, há coisas mais importantes." Quando penso na adolescência, a imagem que tenho é de adormecer a pensar que haveríamos de gravar um disco com músicas nossas.

A sua mãe morreu há dois anos, meses antes de ter lançado o seu último álbum, Mãe. Nessa altura falámos e dizia que ela teve uma presença determinante na sua vida.

Sim. Principalmente nesses anos da adolescência, transmitiu-me coisas muito importantes. Foi através dela que criei um determinado gosto por músicas, filmes, livros, que ainda hoje se mantém. Recordo-me de ir ao cinema com ela ver o Charlie Chaplin. Deu-me a ouvir Beethoven. Enfim, formou-me.

Nessa conversa, dizia que era usual sentarem-se a contemplar o mar, na Ericeira, onde passavam férias.

Tenho muitas memórias dessas férias. Era uma casa, quase em cima do mar, do meu avô materno. Nos últimos 15 anos de vida, dividia-se entre Lisboa e a Ericeira. Vivia sozinho, a minha avó já havia morrido, e escrevia contos. Havia qualquer coisa de poesia naquele lugar. Nos primeiros anos dos Sétima Legião cheguei a compor algumas músicas a olhar para o mar, a partir da casa do meu avô. Já depois de ter deixado o curso de Direito, transformou-se no sítio onde podia ir, durante dois ou três meses, com o material todo. Ficava lá, sozinho, a compor.

Consegue identificar com clareza a importância da sua mãe no seu percurso. Como é com o seu pai?

Dele ficou essa vontade de mostrar, de comunicar, aquilo que é meu, com naturalidade, às pessoas. Deve haver imensa gente a fazer coisas melhores do que eu, mas que não têm essa apetência de mostrar as coisas. Nisso sou parecido com o meu pai. Dou-me bem com toda a gente.

Foi bom aluno no secundário?

Não. Era um aluno médio, razoável, com excepção da Matemática, pelo facto de o meu avô ser matemático. Dava-me explicações e até ao 9.º ano era muito bom. Depois acabei por ir para Letras, talvez por causa da Filosofia.

Mas acabou por ir para Direito, não é?

Sim, mas existiu uma altura em que pensei ir para Filosofia. Acabei por ir para Direito e desisti no 2.º ano, porque os Sétima Legião e os Madredeus já tinham muitos concertos.

Como é que os seus pais reagiram a essa desistência?

Durante um ou dois anos tinha pesadelos com provas orais e com essa perspectiva de falar com os meus pais sobre uma possível desistência... [risos] Eles sempre me apoiaram, achavam piada à música, mas havia essa ideia de que tinha de ter um curso. Mas não me identificava nada com Direito.

Existiu algum momento determinante que lhe fizesse acreditar que era possível viver apenas da música?

Coincidiu com o momento em que decidi definitivamente abandonar Direito. Ainda não tinha certeza de que seria possível viver da música, mas segui o instinto. Às vezes é isso que interessa. Aconteceu também quando saí dos Madredeus. Toda a gente dizia que devia estar maluco, porque era a partir daquele momento que iríamos tocar no mundo inteiro e tal. Mas saí.

Cresceu na zona da Avenida de Roma, que no pós-25 Abril e princípio dos anos 1980 tinha um ambiente criativo e vida de café, no Luanda ou no Vá-Vá. Tinha essa consciência?

Totalmente. Esse ambiente criativo sentia-se no início dos anos 1980, quando surgiu uma série de grupos de música. Depois não estávamos longe do Rock Rendez-Vouz [ao Rego], o que era importante. Havia um espírito de entreajuda entre todos. Lembro-me, por exemplo, de ir a casa do Pedro [Ayres Magalhães] para me emprestar o baixo, quando havia concertos mais importantes dos Sétima Legião, porque o meu estava a cair aos bocados. Ao mesmo tempo organizávamos concertos com os Croix Sainte do Luís San Payo. Foi uma época muita intensa. Recordo-me de que ensaiávamos no cruzamento da Avenida Estados Unidos da América com a Avenida de Roma, num terraço, e as pessoas que estavam no Vá-Vá tinham de levar connosco... [risos].

O cinema Quarteto era muito perto. Nos anos 1980 foi muito importante, tinha uma programação cuidada, recorda-se?

Claro. Passávamos lá a vida, eu e os meus amigos. Havia sessões duplas, às sextas-feiras, que nunca perdíamos. Os funcionários já nos conheciam e tudo. Nos filmes para menores de 18, até me deixavam entrar... [risos].

No contexto criativo de Lisboa na época, no início, os Sétima Legião não eram olhados com alguma desconfiança, pelo facto de serem da Avenida da Roma?

Não. Mas lembro-me de um artigo de jornal em que nos chamavam "betinhos da Avenida de Roma". Mas não havia rivalidade entre pessoas de zonas diferentes. Dávamo-nos bem com os Rádio Macau de Sintra. Com os URB, que eram dos Olivais. Ou com os Croix Sainte e Heróis do Mar que eram dali perto. Talvez mais tarde tenha surgido alguma rivalidade entre grupos do Porto e de Lisboa, mas nada de mais.

Quando começaram, estavam mais próximos daquilo que se fazia em Inglaterra do que propriamente do que se fazia em Portugal.

Sim. Inclusive recusávamos a língua. Não nos fazia sentido cantar em português. Mas depois, um dia, o Pedro [Ayres Magalhães] e o Ricardo Camacho [mais tarde membro dos Sétima Legião, hoje médico] foram assistir a um ensaio e a primeira coisa que disseram foi que fazia sentido ser em português. O Francisco Menezes, que vivia em Washington, porque o pai era diplomata, era quem escrevia as letras em inglês, mas acabámos por experimentar uma letra do Miguel Esteves Cardoso, o Glória, que acabaria por ser o primeiro single. Experimentámos e gostámos.

Quando os Sétima Legião começaram a ter protagonismo, viajaram pelo país inteiro, dando concertos. Como é que foi essa descoberta de Portugal?

Foi fascinante. Éramos um grupo de amigos em viagem. Era mais importante jantarmos juntos, bebermos um bom vinho e estarmos bem-dispostos do que o ensaio de som. Foi assim que conhecemos o país todo e isso foi fantástico, até mesmo em termos de inspiração. Conhecer locais e pessoas novas era muito importante. A viagem era uma fonte de prazer e de descoberta. Lembro-me de ir de Lisboa para Portalegre e daí para Bragança. Havia viagens que duravam um dia inteiro. Era uma aventura.

Ao contrário dos Madredeus, onde a figura do Pedro Ayres Magalhães era central, nos Sétima Legião não é fácil identificar um líder. Como é que funcionavam?

Eu e o Pedro Oliveira compúnhamos as canções, depois o Ricardo Camacho, que produziu o primeiro álbum, começou a compor também. O Paulo Marinho e o Gabriel Gomes também compunham. Enfim, era um trabalho de equipa. Íamos todos juntos para a sala de ensaio. Um de nós podia trazer uma ideia, mas depois era desenvolvida em conjunto. Nos Madredeus, apesar de haver composições de todos, era o Pedro [Ayres Magalhães] que dirigia os ensaios e os arranjos. Era diferente.

Dá ideia de que os Sétima Legião, mais do que um colectivo de música pop, eram um grupo de amigos. O fim foi doloroso?

Um pouco. Quer dizer, não existiu bem um fim. O auge foi entre 1990 e 91, com os concertos do Pavilhão Carlos Lopes. O último álbum de originais, o Sexto Sentido, é de 1999, quando eu e o Gabriel Gomes estávamos embrenhados nos Madredeus. Inclusive já andava a compor coisas que não faziam sentido nem nos Sétima nem nos Madredeus. Esse álbum foi sendo construído pelo Pedro Oliveira e pelo Ricardo Camacho e, depois, numa fase final, conseguimos reunir-nos todos em estúdio. Mas nunca houve bem um fim. Quando fizermos 30 anos, talvez faça sentido pensar em alguma coisa comemorativa. A verdade é que ainda estamos unidos e, de alguma forma, ligados à música.

Que álbum mantém maior frescura na actualidade?

A Um Deus Desconhecido é o disco de que gosto mais. Foi o que vendeu menos. O Mar d" Outubro, em termos globais, foi o mais bem sucedido.

Tem um perfil discreto. Como é que lidou com essa transição entre ser um cidadão anónimo e ser um músico com visibilidade pública?

Só mais recentemente, quase sem me aperceber, fui tendo essa percepção. Cumprimentam-me na rua. Às vezes pedem-me autógrafos. Mas lido bem com isso. Não me incomoda.

Os Madredeus anunciaram recentemente o fim. Como é que recorda os primeiros tempos, quando o projecto começou?

Foi uma coisa muito espontânea, depois de conversas que eu e o Pedro Ayres tivemos no Frágil. Ele tinha essa ideia de criarmos um grupo mais acústico do que aqueles que tínhamos na altura - ele nos Heróis do Mar e eu nos Sétima Legião. Depois encontrámo-nos para compor e numa semana saíram dez ou 15 músicas. Ao longo de um ano, tentámos encontrar pessoas para entrar nesse projecto. Ouvimos muitas cantoras até a Teresa [Salgueiro] aparecer para fazer um teste. Mais tarde, o Pedro [Ayres Magalhães] trouxe para o grupo o Francisco Ribeiro, que tocava violoncelo, e eu, o Gabriel Gomes. Ensaiámos em casa do Pedro, em casa dos meus pais e depois, durante quase um ano, no Teatro de Xabregas, até que gravámos Os Dias da Madredeus.

Nos Madredeus existia grande disciplina. Havia uma lógica de carreira internacional assumida. Há meses, o David Ferreira [ex-director da EMI] dizia-me que era o grupo mais trabalhador e determinado que alguma vez conhecera.

Sim. Nos Sétima Legião havia espectáculos que não fazíamos por causa das agendas de cada um. Nos Madredeus não. No início da década de 1990, fazíamos 60 concertos por ano. Íamos para França, fazíamos 20 e tal concertos, chegávamos a Lisboa e os ganhos tinham sido 300 euros para cada um. Os ganhos eram mínimos, mas era um investimento. Sabíamos que era importante divulgar a nossa música fora de Portugal, na Bélgica, França ou Alemanha. Era um circuito com um público interessado, que se revia no facto de não sermos fado mas termos alguma ligação ao fado.

Em alturas importantes do seu percurso revelou determinação e arriscou. Nomeadamente quando abandona os Madredeus. O Francisco Ribeiro e o Gabriel Gomes saíram em conflito. No seu caso nunca se percebeu muito bem.

Um ano antes de sair, já havia editado um álbum a solo, ao qual não conseguia dar a atenção devida em termos de promoção. Por outro lado, os Madredeus estavam a seguir um caminho diferente das minhas composições na altura. Tinha muitas composições minhas, mas era o Pedro quem dirigia os arranjos no grupo. Eu teria levado os Madredeus para um espírito mais minimalista. Nessa altura andava fascinado pelo Philip Glass e pelo Michael Nyman. Também havia cansaço das viagens e dos concertos. Não sou um músico, no sentido do aperfeiçoamento da técnica. Gosto é de compor, estar horas à procura de harmonias, e cada vez tinha menos tempo para isso. Aliás, depois de ter saído dos Madredeus nem sequer queria fazer concertos.

Quando se faz parte de um grupo, há momentos de companheirismo, mas também conflito. Como é a sua relação com o conflito? Tenta passar ao lado dele ou tenta geri-lo?

Às vezes, infelizmente, outras, felizmente, tendo a passar ao lado dele. Não gosto de situações conflituosas. É raro zangar-me. Mas é evidente que há momentos em que o conflito é inevitável. Às vezes, em digressão, ao pequeno-almoço, está toda a gente chateada: ou com o agente, ou com o manager, ou com a carrinha. Enfim, pontualmente, pode haver razões para o conflito, mas tem de haver diálogo também. No meu grupo fazemos duas ou três reuniões por ano para discutirmos e cada um diz o que pensa. Se as coisas vão ficando guardadas, depois é pior.

Neste fase, olhando retrospectivamente para todos os músicos com quem foi colaborando ao longo dos anos, é provavelmente aquele que tem uma carreira mais consolidada. Concorda com esta visão?

Sou, pelo menos, o que está mais activo neste momento. O meu percurso foi muito rápido, mas ao mesmo tempo lento. Não tenho pressa de nada. Hoje posso ter êxito e amanhã ele escapar-me. Nunca se sabe. Mas tenho a noção de que hoje toco para mais pessoas do que há dez ou 20 anos. Talvez tenha a ver com o facto de fazer mais canções. Mas daqui a uns anos não sei o que vai acontecer. Mas estou satisfeito com o que tem acontecido.

Quem gravita à sua volta diz que há um momento central na sua vida, que marca um antes e um depois, que é quando conhece a sua mulher. É verdade?

Sim. Foi uma pessoa que me caiu do céu... [risos]. Foi há 12 anos. Foi talvez o primeiro relacionamento que tive, com alguém da minha geração, e com gostos muito similares. Gostei de outras pessoas antes da [Ana] Carolina, obviamente, mas com ela senti que existia muita coisa em comum e uma vontade de construir algo. Foi muito importante. E ela ajuda-me muito nas coisas da música também, aconselhando-me ou criticando-me.

O facto de ser ela a escrever as letras das suas canções deve-se a essa grande cumplicidade de universos?

Sim. Fui eu que lhe pedi para escrever. Ela nunca tinha feito letras, mas era a pessoa que mais perto estava do tipo de emoções que a música me transmitia, por isso fazia sentido.

É cuidadoso com a sua vida privada. Mas ao mesmo tempo envolve a mulher e os filhos no seu trabalho. Ela porque escreve as letras. Eles porque estão presentes em algumas dessas letras.

É verdade... [risos]. Mas não são apenas eles, os meus amigos também. São as pessoas de quem estou mais próximo que acabam por estar inscritas também na minha música. Porque estão presentes. Porque me influenciam. Porque me ajudam. É normal aparecem-me os amigos em estúdio. Posso estar com o Pedro Oliveira e o [produtor] Tiago Lopes a produzir o disco, mas depois vem o João Pedro Dinis, um amigo da adolescência, e pode dizer qualquer coisa que eu acho pertinente. Há uma série de pessoas a quem mostro o que faço e as suas opiniões são importantes. Mas também há coisas em que toda a gente discorda de mim, mas que eu levo para a frente porque acredito nelas.

Tem capacidade de ouvir, mas no fim decide.

Exactamente. Sou muito influenciável, mas depois também tenho essa capacidade de decidir, embora por vezes seja difícil.

Sei que costuma ir para o Alentejo com alguma assiduidade? É um refúgio?

Quando conheci a Carolina, começámos a ir para um monte que ela tinha comprado, ao pé de Aviz, no Alentejo. Agora vamos para lá sempre que podemos, nos fins-de-semana e no Verão. Nessa altura estamos mais lá do que cá. E aí sinto a falta do mar.

O Alentejo não tem mar, mas a paisagem possui essa dimensão contemplativa, com a planície a perder de vista.

Sim. Tem aquele céu maravilhoso! O sossego. As oliveiras. Os amigos que fomos fazendo em Aviz ao longo dos anos. Pessoas fantásticas! Há a tasquinha onde costumamos ir. É um refúgio. Às vezes estamos lá sós. Outras com o meu pai ou com os pais da Carolina. Mas por vezes também levo para lá o meu grupo de amigos, 15 ou 20 pessoas, e passamos lá alguns dias. Não tenho lá estúdio, mas tenho o piano, levo o portátil e, às vezes, é no meio daquele sossego que nascem as ideias.

Se pudesse, viveria sempre no campo?

Sou urbano. Gosto muito de Lisboa, particularmente do centro, de alguma confusão, do Bairro Alto, do barulho dos restaurantes. Não penso que, agora, fosse capaz de ir viver para o campo, para vir a Lisboa de seis em seis meses.

Há insatisfação neste momento em Portugal. Quem está nos 20 ou 30 volta a pensar em emigrar. Parece estar bem consigo próprio, gosta de estar onde está. Estou errado?

Às vezes, a insatisfação gera mais insatisfação. Sinto-me completamente feliz no sítio onde vivo e com a vida que tenho, mas sei obviamente que estamos a viver um período difícil.

Para além de Lisboa, em que outras cidades era capaz de viver?

Eu era o apaixonado de Paris no tempo dos Madredeus. Com Londres não sentia afinidade. Mas isso mudou. Houve até uma altura em que vivi lá durante três ou quatro meses e o meu olhar transformou-se. Tal como Lisboa, também tem o mar por perto, a uma hora, em Brighton. Enfim, Barcelona também tem isso. Seguramente, para viver numa cidade que não Lisboa, teria de ser na Europa. Não me estou a ver a viver no Brasil ou nos EUA.

É muito elogiado pela escolha das vozes convidadas que entram nos seus discos. Como é que se processa essa escolha, é qualquer coisa de intuitivo ou tem algum método específico?

É intuitivo, como é quase todo o meu trabalho. E nem sempre sou eu só a escolher. O meu manager, o António Cunha, sugeriu, por exemplo, a Beth Gibbons. É um processo que passa pela escuta atenta. A música que o Stuart Staples canta no último álbum foi fácil de perceber que ele seria o cantor indicado: quer eu, o Tiago Lopes e o Pedro Oliveira, ouvíamos a voz dele ali. Tenho tido sorte pelo facto de as pessoas que convido gostarem do que ouviram. São tudo pessoas de quem gosto do trabalho, desde o Ryuchi Sakamoto à Adriana Calcanhoto ou à Rosa Passos.

Tornou-se amigo de algumas dessas pessoas ou trataram-se apenas de circunstâncias profissionais ocasionais?

A Beth Gibbons é a pessoa com quem continuamos a falar regularmente. O Stuart Staples esteve cá há pouco tempo e ficou em nossa casa. O Neil Hannon provavelmente irá ter connosco a Paris, em Fevereiro. Há alguns casos em quem mantemos o contacto e outros em que o perdemos. O Sakamoto vi-o naquele dia em que estivemos em estúdio em Nova Iorque e pronto.

Há dois anos morreu a sua mãe. Em Setembro, o Francisco Ribeiro. São duas mortes que fazem ressonância e que, inevitavelmente, o devem ter confrontado com a morte.

Claro. Ao longo de 30 ou 40 anos preparamo-nos para viver, depois vamos ganhando consciência de que estamos preparados para morrer. O Francisco era uma pessoa fantástica, com um talento gigante e estava finalmente a encontrar o seu caminho, depois de ter estado seis anos a estudar em Inglaterra. Estava feliz e tinha feito um disco fantástico. Ele ajudou-me imenso no primeiro álbum, dirigiu os arranjos todos e no último também fez arranjos para orquestra em dois ou três temas. Era um grande amigo. É difícil aceitar a sua morte, mas temos de estar preparados para estas coisas. Estive também com ele no projecto Os Poetas, que resultou da vontade de fazermos algo juntos depois dos três anos que haviam passado desde a minha saída dos Madredeus. Foi uma ideia que partiu de um amigo que já faleceu também, o Hermínio Monteiro, da Assírio & Alvim.

Quando os músicos têm filhos, existe a ideia de que devem ser obsessivos na sua educação musical. Quando eles estão a ouvir qualquer coisa que lhe é desagradável, como reage?

Não os reprimo de maneira nenhuma. O António tem nove anos, a Rosa sete e a Sofia quatro. Nas últimas três semanas, nas viagens para o Alentejo e em Lisboa, passámos o tempo a ouvir duas colectâneas dos Beatles. Eles não conheciam e foi hilariante. Neste momento cantam, de forma afinada, as canções dos Beatles... [risos]. E para mim também foi uma redescoberta porque já não os ouvia há que tempos. Estão numa escola de música na Fundação Musical Os Amigos das Crianças, que é perto da nossa casa. Não faço questão que sigam música, mas é uma boa base para o que queiram fazer da vida. O António, que vai tentar entrar no Conservatório de Música, vira-se para mim e pergunta: "Oh! Pai! Mas tu não sabes ler música?" Na verdade, a Carolina, que aprendeu piano em miúda, é que lhes dá mais apoio. Eu não sei ler, toco mal e com os dedos nas posições erradas... [risos].

Assistem a espectáculos seus?

Aconteceu em algumas situações. Gostam, mas uma hora e meia deve ser de mais para eles, especialmente para a Sofia.

Tem conseguido uma exposição internacional interessante ao longo dos últimos anos, mas pressente-se que não é qualquer coisa obsessiva para si. Foi algo que aconteceu com naturalidade. É verdade?

Sim, é mais uma obsessão do António Cunha, o meu manager. Reunimo-nos várias vezes com isso em mente e tentamos fazer concertos lá fora. Não é fácil. Somos muitos músicos. Se fôssemos apenas quatro, seria mais fácil e teríamos o dobro dos concertos. A verdade é que neste momento não tinha vida para fazer 60 concertos lá fora, como acontecia com os Madredeus. Hoje fazemos 40, dos quais cerca de 15 são lá fora. É o limite para alguém com família. Não é uma obsessão, mas é importante divulgar a música lá fora, até porque existe um circuito para a música que faço. O ano passado andámos em digressão pela Alemanha, Bélgica, Itália, França e por aí fora.

No concerto do Coliseu vai revisitar o primeiro álbum. Está num período em que é importante perspectivar o que já passou, para dar outro passo em frente?

Começou por ser só um concerto, para se transformar também no momento da reedição do álbum Ave Mundi Luminar, até porque o meu público não conhece muito bem esse meu trabalho inicial. Digamos que estou numa fase onde aceito sem grandes problemas as minhas três personalidades musicais - uma mais clássica, uma mais instrumental e a das canções - e isso é bom. Todas elas vão confluir nesse espectáculo.

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