Em Gaia vai discutir-se que futuros se esperam para o mundo

Conferências, debates, música, artes urbanas, performances e cinema. Cabe tudo na programação de um fórum que, de 27 a 30 de Setembro, vai debater o desenvolvimento sustentável.

Foto
O guitarrista e compositor tuaregue Bombino será um dos convidados musicais Lara Cocciolo

Os problemas começaram em 2014: a água que corria nas torneiras de Flint era castanha ou alaranjada, espessa. Os moradores desta pequena cidade — com cerca de 100 mil habitantes — do Michigan, nos Estados Unidos, começaram a queixar-se de alergias na pele, dores de cabeça, queda de cabelo. Depois de as autoridades tentarem ignorar o problema, foi exposta a toxicidade da água, que estava carregada de chumbo, um metal pesado, que causara todos aqueles sintomas à população. O problema mobilizou os habitantes, e uma cidadã de Flint estará em Setembro em Gaia, para partilhar a sua experiência.

A explicação para tal fenómeno surpreende por ser tão inacreditável: devido aos seus problemas financeiros, a cidade estava sob controlo de um gestor nomeado pelo estado do Michigan, que tinha a missão de cortar nos gastos. Como Flint era o município que mais pagava pelo consumo de água, foi tomada a decisão de se desligar do sistema de Detroit e passar a abastecer a cidade no rio Flint, em nome da contenção de custos. Só que a água do rio não era limpa: era altamente corrosiva para as velhas canalizações, que começaram a desfazer-se, lançando na água quantidades tóxicas de chumbo.

LeeAnne Walters, uma mulher na casa dos 40 anos, dona de casa, mãe de quatro filhos, arregaçou as mangas perante tal cenário e liderou um movimento de cidadãos que ajudou a expor esta crise, que levou até o então presidente norte-americano, Barack Obama, a declarar o estado de emergência na cidade no início de 2016. 

Esta será uma das experiências que LeeAnne Walters poderá partilhar no próximo mês, em Vila Nova de Gaia, já que será um das convidadas da segunda edição do Fórum Internacional Gaia Todo um Mundo, que vai decorrer entre 27 a 30 de Setembro. A norte-americana é uma das galardoadas de 2018 com o Goldman Environmental Prize, considerado o “prémio Nobel” do Ambiente, que distingue pessoas de todos os continentes que estejam a "mudar o mundo" com foco no ambiente. Para ouvir falar desta organização e do trabalho que desenvolvem estará também presente em Gaia um dos seus directores executivos, Michael Sutton. 

É o segundo ano consecutivo que no centro histórico de Gaia se reúnem pensadores e criadores, de várias nacionalidades, para debater questões fundamentais para o futuro da humanidade. Este ano, focado no tema "cooperação para o desenvolvimento sustentável”, haverá conferências, debates, música, arte urbana, conversas informais, performances e sessões de cinema, bem como contadores de histórias, que se querem sempre com a participação da comunidade. 

Gaia quer ser “um ponto de encontro para o Mundo”, reunindo vários públicos, em torno da “inquietação ambiental” e do “prazo de validade” dos recursos ambientais. Este ano, com especial foco na água, depois de as Nações Unidas terem lançado, em Março, a “Década Internacional para a Acção: Água para o Desenvolvimento Sustentável (2018-2028)”. Promover novas parcerias, melhorar a cooperação e fortalecer a capacidade de implementar a Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável são os principais objectivos desta iniciativa.

O Gaia Todo um Mundo vai receber especialistas, mas também gente com trabalho feito na área que vão partilhar conhecimento, colocar dúvidas e encontrar caminhos para a agricultura, a água, a cooperação para o desenvolvimento sustentável, cá dentro e fora de portas. E mostrar o que já está a ser feito, que exemplos se podem seguir e de que forma se pode cooperar. 

Além dos oradores internacionais, estarão presentes o presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CNADS), Filipe Duarte Santos, o ex-presidente da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), Jaime Melo Baptista, o investigador da Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas, Rui Godinho, o secretário-geral do Conselho Nacional da Água, Joaquim Poças Martins, e Pedro Teiga, especialista em desenvolvimento sustentável e vice-presidente da Comissão Directiva da Associação Portuguesa de Recursos Hídricos.

Em Gaia cabem todas as artes

A ideia, diz a responsável pela programação, Ana Carvalho, é levar as pessoas das margens do rio para as ruas do centro histórico, seguindo diferentes rotas guiadas por pensadores, contadores de histórias, artistas e músicos, seguido o aroma dos petiscos. 

Além dos debates, conversas e conferências, o fórum apresenta uma intensa programação cultural, onde cabem todas as artes. Haverá, por exemplo, um percurso sonoro, ficcional, ao longo das ruas do cento histórico, cuja dramaturgia é da autoria de Tiago Correia, vencedor Grande Prémio de Teatro da Sociedade Portuguesa de Autores.

A par do Douro, a água assumir-se-á como “elemento essencial para a vida colectiva” em diferentes intervenções artísticas que vão estar patentes Casa dos Ferradores, no Convento Corpus Christi, na Casa-Museu Teixeira Lopes, no Centro Interpretativo do Património da Afurada, nos Armazéns da Sogrape e em três muros da cidade. Pela mão do artista plástico Rigo23, de Pedro Calapez, do colectivo belga Soil Collective (Ans Mertens, Rik Peeters, Remko Van der Auwera e Tom Hallet) e da dupla Nuno Barroso e Veronika Spierenburg que, entre outras questões, vão explorar as artes piscatórias.

No centro histórico de Gaia, percorrer-se-ão ainda diferentes coordenadas geográficas ao ritmo da folk, pop, música tuaregue, electrónica, jazz e sonoridades do Caribe. Joan Shelley, nome maior da música folk norte-americana, o músico e romancista Anthony Joseph, Pedro Augusto e Bombino, guitarrista e compositor tuaregue da região de Agadez, no Níger, assumirão o papel de guias dessa viagem. 

Com a água no centro da discussão, parte do documentário do chileno Patricio Guzmán, O Botão de Nácar, será exibido durante os quatro dias. Partindo da geografia chilena, o filme fala da importância dos oceanos, ouvem-se as vozes dos primeiros indígenas da Patagónia, dos primeiros colonos ingleses ou dos prisioneiros políticos da ditadura de Pinochet. Será ainda exibido o filme Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira. A entrada é gratuita para todas as actividades, no entanto, haverá casos em que os bilhetes terão de ser levantados previamente.