Dois novos momentos MeToo: Louis C.K. regressa e Rose McGowan confirma alegado abuso de Argento

Comediante fez aparição surpresa no palco da Comedy Cellar sem falar de assédio. Actriz e activista distancia-se de Argento e confirma autenticidade de SMS em que a actriz italiana admite sexo com menor.

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Louis C. K. voltou ao palco Stephanie Moreno/Universidade da Georgia (Arquivo)

Nas últimas horas, o comediante Louis CK voltou aos palcos no que terá sido a sua primeira actuação desde que foi acusado de actos de abuso e de os ter confessado, e a actriz e activista Rose McGowan identificou a origem de mensagens em que Asia Argento fala do caso com o jovem Jimmy Bennett. Louis CK foi recebido com uma ovação quando subiu ao palco numa actuação surpresa. A carta de Rose McGowan foi recebida como uma confirmação de que Asia Argento mentiu ao negar ter tido relações sexuais com um menor.

O caso que ocupa há uma semana a actualidade quanto ao movimento nascido do escândalo Harvey Weinstein, de quem Argento e McGowan dizem ter sido vítimas juntamente com dezenas de outras mulheres, tão conhecidas quanto Gwyneth Paltrow ou Angelina Jolie ou menos célebres e igualmente queixosas, é o de Asia Argento. A actriz e realizadora italiana é acusada por um jovem actor, Jimmy Bennett, de ter tido uma relação sexual com ele quando tinha 17 anos e ela 37, causando-lhe danos profissionais e psicológicos.

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Algumas das várias actrizes que, em 2017, denunciaram o comportamento abusivo de Harvey Weinstein

O caso abanou uma das conquistas do movimento MeToo, a capacidade de reconhecer credibilidade às alegadas vítimas e dar-lhes espaço para contar as suas histórias, e teve em Argento um rosto imperfeito que veio a público na terça-feira passada para “negar veementemente” a investigação do New York Times que revelou o caso e dizer: "Nunca tive uma relação sexual com [Jimmy] Bennett".

Rose McGowan, que já fez uma série-documentário em torno do caso Weinstein e escreveu um livro, num comunicado emitido na segunda-feira usou verbos no passado sobre a amizade com Argento, distanciando-se: “Asia, eras minha amiga. Eu gostava de ti. Gastaste e arriscaste muito para alinhar com o movimento MeToo. Espero que encontres o teu caminho ao longo deste processo rumo à reabilitação e melhoramento.” E apela: "Faz o que é correcto. Sê honesta. Sê justa. Deixa a justiça seguir o seu caminho. Sê a pessoa que desejaste que Harvey [Weinstein] tivesse sido”.

Argento, que entretanto foi dispensada do seu papel de jurada na versão italiana do programa X Factor, enquadrou há uma semana o caso numa "perseguição que durava há muito" e disse que foi o seu namorado, o falecido Anthony Bourdain, a decidir pagar cerca de 330 mil euros a Jimmy Bennett para o “ajudar”. Dias depois, contudo, o site TMZ revelava não só uma imagem que faria parte do processo mas também uma troca de SMS entre Argento e uma pessoa não identificada em que a actriz italiana admitia ter tido sexo com Bennett, mas se queixava de que ele lhe mandava fotos suas nu desde os 12 anos. E dizia ainda que nada tinha comunicado aos seus pais ou às autoridades.

Rose McGowan indica na mesma nota que quem falava com Argento nessas mensagens é a pessoa com quem mantém uma relação, Rain Dove (modelo que não se identifica pelos pronomes binários de género como “ele” ou “ela”). Foi McGowan que incentivou Rain Dove a entregar essas SMS às autoridades, revela agora. Rain Dove confirmou também ao New York Times a autoria e a autenticidade das SMS, que levou às autoridades e viu depois publicadas na imprensa. “É triste perder uma amizade”, diz McGowan sobre Argento, “mas ainda é mais triste o que aconteceu a Jimmy Bennett”. Nem Argento nem Bennett comentaram este novo desenvolvimento.

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Rose McGowan é uma das mais audíveis vozes do movimento anti-assédio

Da noite de segunda-feira (hora portuguesa), outra história relacionada com o conturbado momento #MeToo, a hashtag criada pela activista Tarana Burke para resumir e incentivar a denúncia pública e partilhada de casos de assédio sexual em Outubro de 2017, emergiu como que para continuar a mostrar as suas nuances. Louis C.K., o admirado comediante e autor que admitiu ter-se masturbado em frente a várias jovens comediantes contra a vontade delas, na sequência de uma outra investigação do New York Times nos febris últimos meses de 2017 em plena avalanche de denúncias MeToo, voltou a público e aos palcos.

O comediante e autor da série Louie, que perdeu esse contrato com o canal FX, viu os seus especiais de stand-up retirados da plataforma Netflix e ficou sem estreia nos EUA do seu filme I  Love  You  Daddy (que se estreou em Portugal pelas mãos da Medeia Filmes para uma curtíssima carreira em sala), esteve na Comedy Cellar, em Nova Iorque, para um número de 15 minutos. Não terá abordado o tema da sua queda em desgraça, segundo o New York Times, e a surpresa da sua subida ao palco foi saudada com entusiasmo pela audiência. Falou de racismo, gorjetas, disse o proprietário do famoso clube, Noam Dworman, que especulou que o que levou o comediante ao palco parecia tratar-se de um teste de novo material. C.K. estava “muito descontraído e o público de cerca de 100 pessoas saudou o comediante depois de um momento de breve surpresa".

Tudo se passou pelas 23h de domingo, e apesar da recepção calorosa, houve pelo menos um cliente que se queixou de não ter sabido antes para decidir se queria ou não estar presente, diz Dworman. O jornal indica ainda, ao referir que Dworman não estava presente durante a actuação de Louis C.K., que este viu a mesma numa gravação.