Crítica

Jogo perigoso

O primeiro romance de Cortázar pode ser lido como uma busca iniciática do sentido da vida. Ou do conhecimento.

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Os Prémios foi o primeiro romance publicado pelo argentino Julio Cortázar — no entanto foi o terceiro a ter sido escrito DR

Os Prémios foi o primeiro romance publicado (1960) pelo argentino Julio Cortázar (1914-1984) —  no entanto foi o terceiro a ter sido escrito, os outros dois seriam apenas publicados nos anos 1980 —  precedendo assim aquela que é considerada a sua obra-prima, Rayuela —  O Jogo do Mundo (Cavalo de Ferro, 2008). Da sua leitura ressaltam de imediato alguns aspectos que se viriam a tornar característicos da obra cortazareana (no entanto, neste, ainda sem a típica inovação e jogo formal): os diálogos sempre vivos, as situações absurdas, as personagens de uma comicidade espantosa, a alternância que se estabelece entre a narração e a reflexão.

A situação de base que leva à intriga que se vai tecer ao longo de Os Prémios parece uma coisa comum: a lotaria nacional premeia alguns bilhetes com uma luxuosa viagem de cruzeiro a bordo do Malcom. No dia da partida, os premiados, depois de contactados e de lhe terem sido dadas algumas instruções, encontram-se num café antes de embarcarem. Aos poucos, à medida que os passageiros, e as suas singulares histórias de vida, vão sendo apresentados ao leitor, este apercebe-se que aquele conjunto quase poderia ser uma espécie de catálogo representativo da sociedade de Buenos Aires (e dos seus hábitos e costumes, mais ou menos escuros) à época. A expectativa pela viagem, e sobretudo por ser desconhecido o destino do navio, sente-se em todas as conversas. “Por duas ou três vezes tive a impressão de que isto vai acabar de uma maneira… Bom, escolham vocês o adjectivo, que é sempre a parte mais opcional das frases.”

Depois de uma longa espera e de uma ou outra tropelia com a Polícia pelo meio, os premiados são deixados no porto. Logo após o embarque, a tensão sobe de tom e o mistério adensa-se: a rota e o destino continuam desconhecidos (Londres ou o Extremo Oriente são destinos aventados), membro algum da tripulação fala espanhol, e o capitão do navio não se apresenta. Para complicar as coisas o navio é colocado em quarentena devido a uma suposta doença, e o acesso à popa do barco é interdito aos passageiros, o que os confina a um espaço de recreio mais reduzido. O descontentamento com a situação impulsiona os passageiros a uma espécie de “conquista da popa”, o que serve ao autor para mostrar algo mais do carácter das personagens. O absurdo torna-se num desafio para os “premiados” que se entregarão a um jogo cada vez mais perigoso, e que desembocará num final surpreendente, de onde ninguém sairá incólume.

O romance abre com uma longa epígrafe de O Idiota, de Dostoievski, de onde emerge a ideia de que as pessoas comuns não podem ficar fora da ficção, “pois as pessoas comuns são constantemente a chave e o elo essencial na cadeia dos assuntos humanos”, que se as “suprimirmos perde-se toda a probabilidade de verdade”. E é exactamente isto que faz Cortázar: as suas personagens não são heróis nem indivíduos que procurem uma redenção maior do que aquela que a vida comum proporciona, e é nessa luta controlada que se vão revelando.

Seria, porventura, abusivo chamar a Os Prémios uma alegoria moral dadas as muitas leituras que podem ser feitas. Mas há algo de alegórico neste livro: as personagens como que caminham desde o início a titubear, de maneira incerta, até se depararem com o desconhecido, e depois progridem como se de uma descoberta (iniciática?) do conhecimento se tratasse. Há nelas quase uma necessidade de descerem ao mais recôndito delas próprias, aos seus abismos, às trevas e à dor. Depois disto, vem-lhes uma esperança progressiva até ao final do romance. Do sentido inútil das suas existências, que parecem compreender e aceitar, brota um desejo do desconhecido (conquistar a proa do navio que lhe é proibida), de conhecer aquilo que se passa para além do mundo a que estão confinados, das vidas a que, por várias razões, se confinaram. Há, face ao perigo, o desejo de comunicarem, de se conhecerem e de compreenderem melhor o mundo. Terminada a viagem, depois de todo o absurdo e estranheza, todas elas saem da aventura muito modificadas, umas mais do que outras, como é natural. Como se —  embora não tenham encontrado um sentido para as suas vidas —  tivessem sido confrontadas com um método de busca; e isso talvez lhes baste.