Opinião

Como se chega ao Port Cobbler dos nossos sonhos: experimentando a partir do Sherry Cobbler tradicional

A receita básica do Sherry Cobbler merecia ser desdobrada com todos os vinhos generosos portugueses.

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O Sherry Cobbler não é só um cocktail do século XVIII. É o primeiro cocktail de todos. Mas se sobrevive hoje não é por antiguidade: é por ser delicioso.

No Verão querem-se bebidas frescas, fracas e formidáveis. O Sherry Cobbler responde perfeitamente a essas exigências.

Para se ter uma ideia do que se bebia no século XX, é preciso imaginar um mundo em que o gelo relativamente barato era uma novidade. O Sherry Cobbler é uma celebração do gelo. Está cheio de gelo. O Xerez da calorosa Andaluzia é sujeitado à frieza que não conhece: é um casamento de oposições.

Os Estados Unidos da América, recentemente independentes, inventaram uma bebida baseada no vinho tradicional da velha Espanha. Finalmente, o Sherry Cobbler é uma bebida construída à volta da novidade da palhinha. O prazer de sorver uma bebida gelada por uma palhinha é um passo de magia que não passa com a infância.

Como todos os cocktails antigos, vale a pena experimentar a versão original — até por ser a melhor. Como se verá, o Sherry Cobbler é infinitamente adaptável, ficando bem com outras frutas (sem ser só com laranja), com outros vinhos (sobretudo o Vinho do Porto) e até com a adição de água gaseificada.

Antes de explorar as versões do Sherry Cobbler convém escolher o tipo de Xerez que se quer. Dividindo os vinhos de Xerez em secos e doces, o único doce é o Pedro Ximenez (PX). Os vários Creams são adoçados com vinho PX ou com açúcar.

Os vinhos Manzanilla, Fino, Amontillado e Oloroso e Palo Cortado são todos sequíssimos, não contendo açúcar residual nenhum. No entanto, é preciso lembrar que, para exportação para o Reino Unido e para os Estados Unidos da América, muitos vinhos de Xerez eram adoçados para agradar aos ingleses e americanos.

É por isso que é preciso acrescentar açúcar a um Sherry Cobbler. Mas quanto? Os vinhos tradicionalmente usados (o Amontillado, o Oloroso e o Palo Cortado) são sequíssimos de origem mas eram exportados doces ou semidoces.

Aqui é preciso ter em conta a regra número um dos cocktails: o gosto de quem os bebe está acima de todas as regras. Ou dito de outra forma: não há regras. No extremo dos extremos, se alguém pedir um Dry Martini doce o bom bartender arranjará maneira de usar gin Old Tom e Xerez PX.

Isso só dá mais poder à formulação tradicional. Sem saber fazer um Sherry Cobbler é impossível aprender a substituir o Xerez por Vinho do Porto.

Os vinhos do Porto, como quase todos os vinhos da Madeira e os moscatéis de Setúbal, são ideais para cocktails por serem mais ou menos doces. Um cocktail é sempre melhor quando a doçura vem de um dos componentes alcóolicos.

A receita básica do Sherry Cobbler merecia ser desdobrada com todos os vinhos generosos portugueses, incluindo obviamente o maravilhoso Sercial e o Porto Branco Seco, para obter dezenas de esplêndidas versões obviamente feitas com as várias laranjas portuguesas.

No que toca à palhinha, é absolutamente irresponsável utilizar uma de plástico que dura meia hora a ser usada e depois polui durante décadas. Nos bares de hoje é comum usar só palhinhas de aço inoxidável, infinitamente reutilizáveis, que são emprestadas ou vendidas aos clientes, por pouco mais que um euro cada uma. Ou então usam-se as palhinhas clássicas, feitas de palha. As de plástico, para além de poluidoras, são rascas e pindéricas.

A receita clássica:

Uma rodela de laranja cortada em quatro
120 gramas de Amontillado, Palo Cortado ou Oloroso
10 gramas de açúcar
Gelo moído tipo caipirinha.

Agita-se tudo num shaker e serve-se tal qual num copo cheio de gelo moído. Junta-se meia rodela de laranja e enfia-se uma palhinha.

No caso de o vinho ser doce, esquece-se o açúcar.

Como se vê, o cocktail mais antigo também é o mais simples: é laranja, vinho generoso e açúcar. No caso de o vinho generoso ser doce só se acrescenta a laranja.

É a partir daqui que se deve ir experimentando todas as possíveis permutações, de preferência sem espreitar os inúmeros (e desregrados) Port Cobblers que pululam na Net.