Opinião

Para quê os rankings?

Será que a saída da Universidade de Coimbra do lote dos 500 do ranking de Xangai tem algum significado mais profundo? Penso que não, que a saída tem tanto significado como a entrada. O longo prazo começa hoje, mas não termina amanhã. Precisa de muita vontade e empenho. É esse esforço que o determinará.

Noticiou o Público na sua edição de quarta-feira 15 de agosto que a Universidade de Coimbra deixar de estar no “ranking de Xangai”. É claro que não gostamos dos rankings que nos colocam na cauda do pelotão. Mas sempre apreciamos (por vezes, secretamente) aqueles que nos distinguem, mesmo que seja no meio de uma mêlée. A questão principal, porém, não é a de se gostar, ou não gostar deles: é a de saber para que (e para quem) servem os rankings.

Em 2010/2011 apoiou a Fundação Calouste Gulbenkian, juntamente com a Fundação Bosch, um estudo da European University Association (EUA) sobre rankings universitários globais e seus impactos. O estudo foi apresentado publicamente em junho de 2011, perante 150 representantes de instituições académicas, membros da EUA e jornalistas. As conclusões foram claras e perceptíveis: os rankings vieram para ficar (com o mercado universitário global em expansão); funcionam para produzir uma seriação (como num campeonato); são instrumentos de “transparência” (ficando por demonstrar que sem rankings as instituições académicas perderão a “transparência”); os resultados discriminam bem os primeiros 10% das instituições analisadas (que se espraiam por dois terços do valor do indicador global, ao passo que os outros 90% da amostra se acumulam no terço restante).

Os rankings servem para se possuir um instrumento de negócio (no mercado global, ou nas suas bolsas) ou de poder (para as potências emergentes). Para isso os rankings têm de ser “credíveis”, isto é, de existir desde há um tempo considerável, para se poderem usar como defesa ou ataque quando forem precisos. No caso do “ranking de Xangai”, o ARWU, o objectivo é claramente uma estratégia de comparação com as research universities americanas no longo prazo (um campeonato pelo qual a velha Europa infelizmente não parece interessar-se, tendo em conta os problemas que aparentemente a preocupam).

Teremos nós uma estratégia de desenvolvimento coerente com vista ao futuro? Ou inconfessadas ambições de liderança? A resposta afirmativa parece fugir… a partir daqui, o ranking de Xangai só interessa para 50 universidades (os primeiros 10% da amostra). Quanto às restantes, o ordenamento torna-se quase caótico. Que sentido faz cortar a selecção a partir das 500 universidades (3% do total das universidades no mundo) ou das 700 (4% do total)? Sabemos bem que que os rankings não são fundamentais nos critérios de escolha dos estudantes no caso de universidades que não se encontram no escol das primeiras 50: os jovens brilhantes que procuram inscrever-se em universidades que ocupam o lugar 100, ou 200, ou 500, fazem-no certamente por outras causas, para eles mais importantes.

Mais do que olhar os resultados dos rankings, importa definir e desenvolver uma estratégia para o futuro em que a investigação caminhe a par do ensino como nas melhores universidades de investigação do mundo. É esta atitude de investimento no conhecimento, esta cultura de acção, este acreditar no futuro, que fará a diferença. Face a isto, será que a saída da Universidade de Coimbra do lote dos 500 do ranking de Xangai tem algum significado mais profundo? Penso que não, que a saída tem tanto significado como a entrada. O longo prazo começa hoje, mas não termina amanhã. Precisa de muita vontade e empenho. É esse esforço que o determinará.