Opinião

Em memória de Pedro de Campos Rosado

Pedro de Campos Rosado, que morreu na quinta-feira aos 68 anos, foi um escultor singular e um professor interventivo e polémico.

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Pedro de Campos Rosado (1950-2018), artista surgido na chamada “geração dos anos 80”, dividiu a sua actividade profissional entre o ensino artístico e o seu próprio trabalho enquanto escultor. Com formação anglo-saxónica, repartida entre a Inglaterra e os EUA, foi um dos responsáveis e dinamizadores dos Encontros Luso-Americanos de Arte Contemporânea que, em 1989, trouxeram ao Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, numa parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, alguns dos artistas verdadeiramente essenciais da contemporaneidade internacional.

Escultor singular, cujos princípios formais e conceptuais pouco se enquadravam no cânone que dominava os artistas da sua geração, o seu percurso foi indubitavelmente prejudicado pela dedicação que desde cedo prestou àquela que foi a sua grande paixão e vocação, o ensino artístico. Professor exigente, interventivo e polémico, aliou uma inegável clarividência organizativa a uma prática pedagógica assente no primado dos materiais, no fazer e num diálogo directo entre professor e aluno. Na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (ESAD-CR), onde dirigiu o curso de Artes Plásticas, foi um professor marcante, tendo passado pelas suas mãos um alargado conjunto de gerações de futuros artistas.

Nestes últimos anos, preparava a apresentação da sua última obra, Objecto Indiscreto – Permutas Infinitas, uma grande peça escultórica de cariz instalativo, composta por 16 paralelepípedos de base quadrangular, que se desmultiplicava em infinitas modulações realizadas performaticamente no espaço expositivo.

O professor

O escultor Pedro de Campos Rosado integrou o primeiro corpo docente da ESAD-CR do Instituto Politécnico de Leiria, na sua fundação, em 1990. Assumiu desde o início um largo protagonismo, baseado nas suas experiências em escolas de artes internacionais no âmbito anglo-americano, quer na definição em termos práticos dos objectivos gerais da escola como um todo, quer na discussão do organograma do bacharelado de Artes Plásticas, demasiado colado a uma ideia conservadora e ultrapassada de "École de Beaux-Arts" de matriz francesa. Era sua pedra de toque que não tinha sentido a criação de uma escola de artes do ensino politécnico em contraponto com o ensino universitário e muito menos que o enfoque da nova escola, em particular do curso de Artes Plásticas, fosse direccionado para a dimensão regional, como decorria então, para alguns, da própria filosofia do ensino politécnico. O ensino da arte ou se processa inserido no debate internacional de ideias em arte ou é algo de profundamente retrógrado e, para ele, desprezível.

A sua feroz luta pelo projecto em que acreditava levou a que fossem introduzidas no bacharelado em Artes Plásticas algumas práticas pedagógicas então muito inovadoras em Portugal – que se viriam a tornar matriciais do curso – mas também deu origem a graves incompreensões que muito o penalizaram. De qualquer modo, apesar de todas as vicissitudes, o curso de Artes Plásticas mantém ainda hoje a sua indelével impressão digital que se encontra plasmada na formação de tantos jovens artistas saídos da ESAD-CR, com sucesso nacional e internacional.

Em 2009 é criado o mestrado de Artes Plásticas sob sua coordenação, com o organograma por ele redigido. Mais uma vez é uma proposta pioneira, nomeadamente pela aceitação por parte do Ministério da Educação do conceito de mestrado prático, com a tese assente, no seu fundamental, na apresentação de um trabalho prático.

Pela entrega a uma apaixonada prática pedagógica e pela resiliência, por vezes em prejuízo da sua obra como artista, o Pedro de Campos Rosado é merecedor do nosso mais profundo reconhecimento.

O artista

A partida repentina de Pedro de Campos Rosado constitui uma perda funda para a arte portuguesa, onde tinha um lugar singular. Como docente não esqueceu a necessidade de formar artistas, actividade importante que marcou a sua vida e a de muita gente. Mas que o ocupou a ponto de pouco tempo lhe sobrar para mostrar devidamente a própria obra.

Doutor em Artes pela Universidade de Nova Iorque, depois de um Master em Cincinatti e estudos de escultura feitos em Inglaterra, este homem de invulgar cultura e exigência, que era também artista sensível e rigoroso, voltou para Portugal onde desenvolveu riquíssima mas discreta actividade. Todos ficámos a dever-lhe, entre muito mais, os notáveis Encontros Luso-Americanos de Arte, que a Gulbenkian acolheu em 1989, onde se viram, pela primeira vez, obras de Bruce Nauman ou Vito Acconci, de Artschwagger ou Dan Graham, de Sol Lewitt ou Jenny Holzer. Além de uns quantos artistas portugueses da maior importância, então dialogando inteligentemente com questões da arte americana, como ele próprio, Rui Sanches ou António de Campos Rosado.

Embora tenha exposto regularmente, em Portugal e no estrangeiro, sobretudo nos EUA e em Inglaterra, fê-lo sempre em certa margem de invisibilidade. Pediam-no um temperamento discreto e, também, a dúvida profunda que sempre o acompanhou, sobre a qual fundou obra de rigor e contenção, observada em formas e conceitos precisos, da mais alta exigência. Assim com a última grande exposição, Ripple, na Fundação Gulbenkian, em 2003. Magnífica presença que interrompia um ciclo de silêncio e de recolhimento a que voltaria.

Nela, uma chapa de aço de 20 metros de largo por metro e meio de altura, segmentada em partes iguais, era suspensa do tecto da galeria, em diagonal, e ondulava graças a um motor oculto, deixando ao visitante uma passagem em cada topo, para que pudesse apreendê-la na globalidade da presença física. Nesta ocupação de um espaço, saturando-o justamente de um sentido de espacialidade intensa numa proposta de dar um carácter quase arquitectónico à escultura, formulava-se um diálogo quer com Richard Serra, uma das suas referências maiores, mas também com todo o Minimalismo americano.

Era isto, nele, o perceber a natureza dos diálogos que realmente interessavam. Preferindo-os sempre ao encontrar, em vez deles, na dispersão de efeitos, de presenças, de estratégias ou de acções mais ou menos calculadas pelo interesse comercial, a pequena dose da fama passageira. Afirmando desse modo, intempestivamente, o lugar devido a uma arte que permanecia firme, nos propósitos e nos pressupostos, mais do que no cálculo do imediato ou rentável resultado.