Editorial

Uma discussão obrigatória

Os tempos mudaram e a discussão em torno do Serviço Militar Obrigatório deixou de ser uma bizarria. Não se pode simplesmente voltar atrás, mas não se pode também fechar os olhos e esquecer o que está em causa.

Algures ali entre o fim da Guerra Fria e o 11 de Setembro de 2001, uma conversa sobre a extinção das Forças Armadas poderia ser vista como uma ousadia argumentativa, mas o assunto dificilmente seria considerado bizarro. Foi nesse período, em que parecia que com o “fim da história” poderia vir a paz duradoura, que muitos países da Europa foram abandonando o seu serviço militar obrigatório (SMO). Os tempos mudaram e a discussão em cima da mesa é a do regresso dos jovens à instrução militar. 

A Ucrânia regressou ao SMO em 2014 e a Suécia fez o mesmo este ano. A proximidade geográfica de uma Rússia cada mais agressiva é a justificação primordial, mas há outros argumentos que vale a pena sopesar. Entre eles está o que pode ser o prenúncio do fim do “chapéu protector” norte-americano e a consequente necessidade de um maior investimento no esforço militar europeu em tempos de ameaça terrorista e de incerteza internacional, especialmente quando se sabe que o custo de forças militares profissionais pesa sempre mais nas contas nacionais do que um sistema misto.

O fenómeno da imigração, em paralelo com a emergência de sociedades cada vez mais polarizadas, trouxe também para a linha da frente a necessidade de criar mecanismos que reforcem a coesão e a identidades nacionais. E mesmo que a tropa nos pareça, muitas vezes, uma instituição fora deste tempo, é claro que ela representou, durante muitos anos, para muitos cidadãos, uma oportunidade única de cruzamento e comunhão com gentes vindas das diferentes proveniências sociais e geográficas em torno de objectivos comuns.

Por estas razões, é muito mais avisada a posição do ministro da Defesa de ir introduzindo este tema na discussão pública do que o impulso imediato das juventudes partidários de o rejeitar liminarmente. Claro que não faz sentido simplesmente voltar atrás. Vai ser preciso discutir a modernização das Forças Armadas, temos debater seriamente o serviço cívico e adaptar o recrutamento à igualdade de género. 

Uma discussão como esta deve ser feita com a seriedade de quem está a lidar com um dos pilares da nossa vida enquanto país e deverá futuramente ser sufragada por todos – mas deve ser feita.