O trabalho de colaborador em festivais tem “prazo de validade por causa da imagem”, acredita Gonçalo.
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O trabalho de colaborador em festivais tem “prazo de validade por causa da imagem”, acredita Gonçalo. Manuel Roberto

Os festivais estão para Gonçalo como a prancha está para o mar

Entre a banda sonora contínua, o desgaste e a conversa (nem sempre) fiada, os colaboradores acabam cada festival de música com uma certeza: monetariamente, compensa. Gonçalo Pádua afirma-o, mas adverte: há sempre um “prazo de validade” neste tipo de trabalho.

Os festivais de Verão são como peças de teatro ambulantes: pulam de cidade em cidade, atropelando-se no calendário, e recebem audiências diferentes. Os protagonistas variam, sim, mas há um conjunto de figurantes que se mantêm: os colaboradores. Encontram-se espalhados pelo cenário, muitas vezes naqueles pontos coloridos com letras inscritas das marcas do costume. São quase todos jovens, “de aparência cuidada, com jeito para a coisa e vontade de trabalhar”.

Quem enuncia os critérios é Gonçalo Pádua, 24 anos, também ele colaborador em festivais de música (e não só). Encontrou-se com o P3 numa esplanada junto à praia de Matosinhos, com o mar e o Parque da Cidade a ladearem a conversa. É um “miúdo do mar” de cabelo dourado, não tivesse ele crescido entre a Foz do Douro (onde ainda hoje vive) e Peniche.

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O sonho de Gonçalo é abrir a própria escola de surf. Manuel Roberto

É como se fosse “um veterano” no meio, já que começou aos 18. Diz que já fez um pouco de tudo: “Aquela coisa chata de entregar pulseiras na estrada, distribuir produtos na rua e conduzir topos de gama por aí”. E os festivais de Verão? “Já corri quase todos. Nos festivais trabalho como coordenador, porque as marcas já me conhecem.” Esta é uma das “vantagens” que o também instrutor de surf aponta: “a partir de certa altura”, e com um bom “currículo” na mão, são os colaboradores que escolhem com quem trabalhar.

O perfil: jovem, dinâmico e, por vezes, “já com um bom trabalho”

Também o público dos festivais conhece e sabe identificar um colaborador: veste uma camisola com o logótipo da marca estampado, distribui brindes, vende bebidas e faz conversa com o consumidor. Gonçalo diz que a “melhor parte é falar com gente diferente todos os dias”, mas não deixa de referir que a jorna recolhida “é bastante compensatória”, nem que seja “só durante o Verão”.

Conhece recém-licenciados e jovens estudantes que vêem nestes trabalhos sazonais um dois em um: “Para além de ganhares dinheiro, também podes trabalhar com amigos teus ou com gente da tua idade.” É isso que também atrai jovens “médicos e advogados”, que procuram nestes trabalhos um certo tipo “de escape”. Para Gonçalo, contudo, já é ao contrário: “Como faço isto diariamente, prefiro estar sozinho ou longe de multidões quando não estou a trabalhar, porque é desgastante.”

No entanto, refere, “há empresas que não pagam tão bem”. O salário é influenciado por algumas variáveis. “O número de horas, ser um trabalho à semana ou ao fim-de-semana e o orçamento do cliente”, explica Sónia Brochado, directora executiva da BTrust, uma empresa que oferece serviços de marketing integrado e também recruta colaboradores. Tanto Sónia como Gonçalo dizem que o “mínimo serão os cinco euros por hora”, mas apontam casos em que o valor duplica. A concordância repete-se quanto à faixa etária predominante, mas Sónia aponta, “principalmente”, o intervalo entre “os 20 e os 30”.

Para Gonçalo, “este é um trabalho da moda” e isso tem um motivo: há cada vez mais festivais e, por conseguinte, maior opção de escolha. Pelo menos é o que diz a APORFEST, que em 2017 contabilizou 272 festivais em Portugal (não atribuindo, contudo, a “culpa” ao Verão). Para Sónia Brochado, a mudança mais significativa é o motivo pelo qual as pessoas se interessam por este tipo de empregos: “Dantes, na maioria, eram jovens universitários que precisavam do dinheiro ou desempregados." Agora, constata, o que move estes colaboradores é a vontade "comprar aquele telemóvel ou ir de férias”.

Para Gonçalo, o motivo é outro. Aliás, é mais um objectivo: abrir a sua própria escola de surf. A tatuagem minimalista no pulso direito - uma linha que o circunda e desenha uma onda - já o denunciava. Ser um “miúdo do mar” também. Isto porque a modalidade é a sua “maior paixão”. O trabalho de colaborador tem “prazo de validade por causa da imagem”. Aponta um limite aos 28 anos. Depois, é zarpar dos festivais e surfar Matosinhos fora.