Crítica

Sangue e areia

A enésima reiteração de um modelo narrativo inúmeras vezes explorado (por exemplo por Quentin Tarantino), com a mulher maltratada a fazer das tripas coração para se vingar implacavelmente dos homens.

Um filme talhado por e para o tempo do #metoo
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Primeiro filme de longa-metragem da realizadora francesa Coralie Fargeat, Vendeta poderia ser resumido como uma evocação estilizada de géneros ou subgéneros cinematográficos famosos (o “thriller de vingança”, o exploitation nas suas declinações erótico-sanguinolentas, o western) feita numa posição de absoluta consciência do género: feminino e masculino são aqui características que enformam as personagens de forma decisiva, e praticamente tudo o que as define – também por isso, não pode escapar a ninguém que é um filme talhado por e para o “tempo do #metoo”.

Essa consciência, e esse “tempo”, estão lá desde o princípio, a partir da apresentação das personagens. Num pormenor que revela alguma ironia, Fargeat começa como se Vendeta fosse um “filme para homens”, mostrando generosamente o corpo de Matilda Lutz (a namorada-troféu de um dos protagonistas masculinos), como se o olhar da câmara sobre ela correspondesse ao dos homens, e mostrando os homens (sobretudo o namorado dela) como arquétipos de uma masculinidade “alfa”, adeptos da boa vida e das caçadas (é o que os reúne no deserto americano, uma caçada anual entre amigos). Depois essa masculinidade transborda (há uma violação), e o corpo feminino passa a ser um corpo ferido e ensanguentado. Tudo passa a ser a imagem contrária do que inicialmente representava.

È o momento em que o filme realmente arranca, mas também é o momento em que, de algum modo, o filme se esgota. A partir daí, será a enésima reiteração de um modelo narrativo inúmeras vezes explorado (por exemplo por Quentin Tarantino), com a mulher maltratada a fazer das tripas coração para se vingar implacavelmente dos homens. O “estilo” está menos na mise en scène gongórica da violência física e da exibição do vermelho-sangue que em certos momentos cobre os corpos dos actores (por exemplo no final, espécie de Duelo ao Sol em interiores), que não tem propriamente nada de novo ou especial, e mais na curiosa maneira como Fargeat se apropria da paisagem e da natureza desérticas – todos aqueles planos de flora e fauna (insectos, sobretudo), vistos de forma muito aproximada (como se viessem dum documentário sobre natureza, tipo Microcosmos), que pontuam a acção e têm um valor simbólico mais ou menos evidente mas sem sublinhados excessivos (é a “força da natureza” associada a um elemento feminino, mas é também a “animalização” das personagens, da rapariga e dos homens). Mais do que a colagem aos estereótipos dos géneros (cinematográficos), relativamente banal, mais do que a assunção de uma retórica de género (sexual) aberta a toda a interpretação política, são pormenores destes que fazem de “Vendeta” uma estreia curiosa, ainda que se fique bastante longe de qualquer espécie de proeza.