Crítica

De olhos bem fechados

Com um pouco mais de coragem isto podia ser um filme a enfrentar de caras os fantasmas da monogamia; mas é ao contrário, é um filme que os evita, que confunde o “tratamento” de um tema com o simples de facto de o “evocar”.

Muitos diálogos, cheios de banalidades, sobre o “amor”, o “sexo”, a “intimidade”:  Traições Con(sentidas)
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Muitos diálogos, cheios de banalidades, sobre o “amor”, o “sexo”, a “intimidade”: Traições Con(sentidas)
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Um casal de namorados de longa data (Rebecca Hall e Dan Stevens) decide casar-se mas tem a sombra de uma dúvida: estão juntos há muitos anos, numa relação de total fidelidade, será que, sexualmente falando, andam a perder alguma coisa? A fim de tirar isso a limpo, põem a relação entre parêntesis — apesar de tudo mais compreensíveis do que os que no título português aparecem na palavra Con(sentidas) — para durante algum tempo se tornarem em flâneurs sexuais e experimentarem parceiros e relações diferentes.

Se é um filme de “fantasias”, elas são bem mais puritanas do que a premissa (ou é a própria premissa que é ela própria, no fundo, puritano), uma vez que os “desvios” das personagens são sempre isso mesmo, “desvios”, nunca uma alternativa ao statu quo monogâmico. O que não é um problema; o problema é isto ser tão timorato, nunca sugerir (aliás, longe vá o agouro) nem uma possibilidade de embriaguez nem uma possibilidade de malaise na inconstância sexual, manter as personagens (e manter o filme) sob controlo permanente, como relatório de uma experiência desafectada que nunca corre riscos de entrar em convulsão de resultados imprevisíveis.

Deve dizer-se, aliás, que há bem pouco sexo no filme, Brian Crano está mais interessado na conversa e na “troca de experiências”: ficamos com apontamentos, apenas esboçados, de cada nova relação dos elementos do casal, e sobretudo com muitos diálogos, cheios de banalidades, sobre o “amor”, o “sexo”, a “intimidade”. Com um pouco mais de coragem, com um pouco mais de crueza, isto podia ser, e nem pedíamos outro De Olhos Bem Fechados, um filme a enfrentar de caras os fantasmas da monogamia; mas é ao contrário, é um filme que os evita, numa leveza esvoaçante muito indy, que confunde o “tratamento” de um tema com o simples de facto de o “evocar”.