Nelson Garrido
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Nelson Garrido

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A CP e a ferrovia num Portugal com futuro

Enquanto todos os países investem na sua rede ferroviária, Portugal negligencia e deixa até que os carris sejam arrancados e vendidos como ferro velho. É impensável que se conceba uma ideia de país sem uma ferrovia forte.

Longe vão os tempos em que a deslocação humana era realizada por via de esforços heróicos de locomoção lenta, pesada e penosa. Não nos é possível imaginar o que seria se para nos deslocarmos a determinado ponto do nosso pequeno país tivéssemos de caminhar durante dias ou galopar a cavalo até finalmente chegarmos ao nosso destino. As evoluções foram várias e fundamentais, mas houve, num certo tempo, uma evolução significativa na movimentação de pessoas pelo mundo: o comboio.

Em Portugal, o comboio foi e é um meio importantíssimo de coesão do território, de aproximação de regiões e de vidas, um meio de ligação estreita entre todos os portugueses. Mesmo com o aparecimento e proliferação dos automóveis e com os aviões a rasgarem os céus, muitos milhões continuam a usar o comboio, seja por maior facilidade no embarque, seja porque fica mais em conta em relação aos carros.

Infelizmente, há muitos anos que assistimos ao desmantelamento da nossa rede ferroviária e à degradação da CP, o que torna cada região do país um pouco mais longe. Enquanto as indústrias petrolíferas vão enchendo os bolsos e os privados arreganham os dentes, nós ainda não nos apercebemos que a CP é nossa e que é nossa responsabilidade mantê-la, preservá-la e melhorá-la.

Basta conhecer um pouco do nosso país para nos depararmos com estações e terminais ferroviários imponentes a caírem aos bocados, assim como com a degradação de terras que antes tinham acesso ao comboio e vivem agora na ditadura do petróleo. A CP tem vindo a ser reiteradamente negligenciada, abandonada aos poucos. O material circulante é cada vez menor e o que existe está em muitos dos casos degradado. Os comboios são cada vez menos e menos regulares, bem como é a qualidade posta ao serviço dos utentes. Não são dadas as merecidas condições de trabalho a quem dedica uma vida ao serviço da CP e são muitos os que são obrigados a sair. Os preços praticados começam a ser insustentáveis para quem se serve deste transporte para se movimentar todos os dias.

Tudo isto tem vindo a acontecer para que, quando já estivermos todos fartos dos atrasos, das supressões e do calor por falta de climatização, possam entregar a empresa a privados sob a égide de má gestão pública ou incapacidade da mesma para manter uma empresa do tamanho e importância dos Comboios de Portugal. No dia em que tal acontecer, o objectivo primordial da empresa não vai ser mais o bem-estar, o aproximar, o ligar, mas sim o lucro. Simples lucro.

Enquanto todos os países investem na sua rede ferroviária, Portugal negligencia e deixa até que os carris sejam arrancados e vendidos como ferro velho. É impensável que se conceba uma ideia de país sem uma rede ferroviária forte, extensa e sem uma empresa robusta e pública que ligue todos os portugueses. Vamos lá largar os cordões à bolsa e investir de uma vez por todas na modernização das linhas, reforço do material circulante e, sobretudo, na confiança que todos devemos ter na nossa CP. Pública, robusta, de todos e para todos.