“Estes músicos criaram uma linguagem que revolucionou o flamenco”

Paco de Lucía é, para Pedro Jóia, uma inspiração maior. Mas foi um disco em particular, gravado ao vivo, que lhe deu forças para se lançar na música e até para compor

Guitarra, Música, Músico, Árvore
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Pedro Jóia DANIEL ROCHA

Quem conhece o trabalho de Pedro Jóia, como guitarrista e compositor, não estranhará que, ao escolher um disco marcante na sua vida, essa escolha recaia em Paco de Lucía. Mas não num disco qualquer. Live... One Summer Night, assinado pelo Paco De Lucía Sextet e editado em 1984 foi decisivo, por razões que Pedro explica: “Foi gravado numa tournée de Verão e com o famoso sexteto dele. Ele já tinha outras gravações ao vivo, com formações mais tradicionais, mas esta é a primeira com este sexteto, muito emblemático porque estes músicos criaram uma linguagem que revolucionou o flamenco daquela época e deram continuidade à revolução que o Paco vinha fazendo na guitarra flamenca. Foi um som absolutamente incrível, com músicos que traziam influências do jazz.” Esses músicos eram, além de Paco de Lucía (guitarra flamenca), Ramón de Algeciras (também na guitarra flamenca), Carles Benavent (baixo), Pepe de Lucía (irmão de Paco, na voz e guitarra ritmo), Jorge Pardo (flauta e saxofone soprano) e Rubem Dantas (percussão).

Nascido em Maio de 1970, Pedro Jóia já conhecia o trabalho do guitarrista e compositor nascido em Algeciras, em 1947 (morreria em Cancún, em 2014), que admirava muito. “Já conhecia o Paco de Lucía. E foi na sequência da busca intensa que eu fazia por discos dele que eu encontrei este, ainda em vinil. Era difícil encontrá-los, nas lojas de discos em Lisboa, muita gente nem sabia quem era. De maneira que, quando encontrei este disco (que ainda por cima tem uma capa muito bonita, uma guitarra desenhada à Picasso e com umas cores vivas), fiquei louco. Comprei-o e fui para casa a correr.” Pô-lo no gira-discos e já não o largou. “Ouvi-o até à exaustão. A agulha ressentiu-se e o disco também. Eu punha-o a tocar e tocava guitarra ‘em cima’ do disco, armava-me em Paco e tentava sacar toda a informação que vinha dali.” Com 17 anos nessa altura, Pedro Jóia já tocava uma guitarra com cordas de nylon, o mesmo género de instrumento que mantém até hoje. “Estava no Conservatório e tinha descoberto o flamenco há muito pouco tempo. E se nos primeiros anos só conheci os discos mais tradicionais dele, conhecer este foi incrível.”

Guitarra e Zeca Afonso

Isso foi fundamental para que ele viesse, depois, a gravar o seu primeiro disco, Guadiano (1996): “Absolutamente. Foi decisivo. Esse disco não só me impulsionou tremendamente para querer ser guitarrista solista e tocar ao vivo, em concertos, como me despertou imenso a curiosidade para começar a compor. Foi determinante, nesses aspectos.” A Guadiano, sob influência directa do flamenco, sucederam-se mais seis discos na carreira de Pedro Jóia: Sueste (1999), Variações Sobre Carlos Paredes (2001), Jacarandá (2003), À Espera de Armandinho (2007), Ao Vivo com Orquestra de Câmara Meridional (2015) e Vendaval (2017), este gravado em nome do Pedro Jóia Trio, com Pedro Jóia na guitarra, João Frade no acordeão e o Norton Daiello no baixo eléctrico. Neste momento, Pedro está a gravar um novo disco. “Será a solo, apenas com guitarra e só com músicas de Zeca Afonso. Já gravei quatro faixas. Inteiramente instrumental e inteiramente Zeca. Queria pô-lo cá fora ainda este ano.” Ainda não tem título. “Queria uma coisa que não fosse óbvia, mas que fosse bonita. Ao disco com temas do Armandinho chamei-lhe À Espera de Armandinho porque me lembrei da peça À Espera de Godot, do Samuel Beckett.”

O Pedro Jóia Trio, entretanto, continua em digressão. “O último concerto que fizemos foi na Casa da Música, no fim de Maio, com Rui Reininho, com versões de Brel, de Carmen Miranda, etc.” Segue-se o Algarve. E, para Pedro, ainda no Verão, mais concertos a solo e outros com os Resistência. Um Verão onde ficaremos à espera… de Zeca Afonso.