Opinião

A grande desilusão

Apesar de já tudo ter sido dito e escrito sobre este caso, não posso deixar de reconhecer que também eu fiquei desiludida com Ricardo Robles.

Ricardo Robles foi um brilhante deputado municipal, capaz de se fazer ouvir em todas as grandes causas da cidade e muitas vezes incómodo para a maioria socialista da câmara e da assembleia municipal. Não foi por isso uma surpresa o bom resultado eleitoral que conquistou em 2017 na Câmara de Lisboa, fazendo-se eleger por mérito próprio.

Muitos eleitores e eleitoras confiaram naquele jovem inteligente e bonito, que trazia uma certa frescura ao debate político e um renovado vigor na luta por direitos e valores essenciais, desde logo o direito à habitação, uma das grandes bandeiras do Bloco de Esquerda.

Crítico das posições iniciais de Medina sobre o alojamento local, a sua voz juntou-se à dos presidentes de junta socialistas do centro histórico de Lisboa, testemunhas primeiras das mutações do mercado imobiliário em Lisboa, cada vez mais atraente para estrangeiros ou grandes fundos de investimento. Era pois normal que fosse um dos mais activos eleitos locais na defesa da necessidade de alterar a lei das rendas e o regime do alojamento local e de garantir o respeito pelos direitos dos moradores de Lisboa.

Por isso foi tão profundo o impacto que causou a notícia de que também ele, afinal, tinha participado na multiplicação especulativa de valor de um imóvel adquirido em Alfama em 2014. Num primeiro momento escolheu a pior desculpa – a de que está tudo legal, como se ignorasse que nem tudo o que a lei permite é moralmente aceitável. Pressionado pela opinião pública, acabou por pedir a demissão de vereador e renunciar aos seus cargos no BE. Com esse gesto pôs termo a uma carreira política promissora, mas isso não apaga da memória de quem nele votou um sentimento amargo de desilusão.

Problema do Bloco, dirão alguns. Não nos iludamos: de cada vez que um político desilude por razões de natureza ética – no caso, a incoerência entre o discurso e a prática – é sobre todos os eleitos que recai a desconfiança das pessoas. E é a democracia quem mais perde.

Apesar de já tudo ter sido dito e escrito sobre este caso, não posso deixar de reconhecer que também eu fiquei desiludida. Esperava melhor do Ricardo, que me habituei a estimar, mesmo quando lançava farpas contra o meu trabalho e o dos Cidadãos por Lisboa. Esperava até melhor do seu desempenho como vereador, com os pelouros da educação e dos direitos sociais. Esperava melhor na luta por causas que o notabilizaram na Assembleia Municipal, a começar pelo direito à saúde, que integrava o seu pelouro. O anterior vereador dos direitos sociais, João Afonso, deixou pronto o Plano Municipal de Saúde de Lisboa. Precisamos de definir de uma vez por todas o destino dos hospitais da colina de Santana e garantir a conclusão e entrada em funcionamento dos novos centros de saúde. Ricardo Robles não conseguiu desenvolver estes dossiers, talvez por falta de tempo, mas também porque não lhes terá dado a necessária prioridade.

Além do acordo entre o PS e o BE em Lisboa, que será para manter, segundo vontade expressa de Medina, há um acordo pré-eleitoral entre o PS e os Cidadãos por Lisboa que dá suporte à maioria na câmara e na assembleia municipal. O tema da saúde é central nesse acordo. Não sei se o Bloco está à altura de agarrar este desafio. Sei é que aceitei ser novamente presidente da Assembleia Municipal neste mandato por causa desta luta, que está longe de estar ganha. E não estou disponível para novas desilusões.