Entrevista Miguel Guimarães

“Ensinar medicina não é só ver, é preciso deixar fazer”

Miguel Guimarães, bastonário dos médicos, fala sobre a situação actual da saúde e dos desafios que se colocam na área da formação.

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Miguel Guimarães: "A chamada reforma dos serviços de urgência verdadeiramente nunca existiu." Paulo Pimenta (arquivo)

Num ano em que as críticas à gestão da saúde têm sido muitas, o bastonário dos médicos fala de desafios futuros. Em entrevista ao PÚBLICO, Miguel Guimarães defende que é preciso avançar com uma verdadeira reforma das urgências.

Diz que se as deficiências fossem corrigidas podíamos aumentar a capacidade formativa em mais 200 a 400 vagas. Ficaria mais próximo do número de candidatos.
Se as vagas que se têm aberto para especialidade fossem apenas para os médicos formados em Portugal, não havia ninguém fora da especialidade. É bom que se note isto de uma vez por todas. Não temos culpa que exista mobilidade europeia e que no ano passado tenham concorrido quase 400 médicos de fora. Em países que têm acesso a internatos semelhantes ao nosso, como Itália ou Espanha, a situação é muito pior. O sistema funciona com base naquilo que é a capacidade que temos de ensinar. Ensinar medicina não é só ver, é preciso deixar fazer. Temos várias queixas de internos de especialidades cirúrgicas que não conseguem fazer. É um problema que temos de resolver.

Houve críticas ao facto de a Ordem não ter colocado no mapa todas as vagas que os hospitais teriam comunicado. Porquê?
Sempre – esta é uma exigência do bastonário – que um determinado serviço de um hospital pede uma vaga que depois de analisada o colégio não atribui, isto tem de estar justificado. A maioria das vagas que não foram atribuídas é porque os colégios acharam que não havia capacidade para formar mais internos.

Poderá haver criação de novas especialidades, como por exemplo emergência médica?
A emergência médica neste momento é uma competência. Uma matéria que está em cima da mesa é se deve ou não existir uma diferenciação maior, seja na forma de especialidade ou outra, na área de medicina de urgência/emergência médica. Esse debate vai ser iniciado com os vários colégios da especialidade, nomeadamente com os dois principais que são medicina interna e cirurgia geral.

A urgência tem sido um dos grandes problemas e não tem sido resolvida porque não tem havido investimento nesta área, nem um pensamento diferente sobre o que podem ser os serviços urgência. A chamada reforma dos serviços de urgência verdadeiramente nunca existiu. Se calhar temos de ter tipologias diferentes de urgência das que temos, equipas dedicadas que podem ser uma mais-valia.

No que está a pensar?
Qual a diferença entre a urgência médico-cirúrgica e polivalente? Não é só a polivalente ter mais disponibilidade de especialidades, é também o número de médicos que fazem parte do tipo de urgência. Temos algumas urgências polivalentes com uma população de referência inferior a urgências médico-cirúrgicas. Dois bons exemplos de urgências médico-cirúrgicas que estão “decapitadas” são Amadora-Sintra e Vale do Sousa (Penafiel), porque têm os dois uma população de referência de cerca de 600 mil habitantes. As coisas se calhar têm de ser repensadas a este nível.

Acho que temos de pensar no contexto global, de cuidados de saúde primários com mais capacidade de resposta, o que implica um reforço de meios humanos para as situações agudas não urgentes. Mas também acesso a alguns meios técnicos que permitam ao médico de família tomar uma decisão. E, acima disto, está aquilo que nunca fazemos, só falamos, que é a educação em saúde. Passou a gripe e as urgências diminuíram. Não há nenhum anúncio a dizer ‘se tiver isto deve ir ao centro de saúde, se tiver aquilo vá à urgência’. Precisamos de uma atitude diferente porque sem isso não há reforma de urgência que valha a pena.