Google sob críticas por planear motor de busca censurado para a China

A empresa desisitu de oferecer o serviço em 2010, dizendo não querer acatar as regras de Pequim. Mas nunca deixou inteiramente o país, que é um mercado cobiçado pelas multinacionais tecnológicas.

A empresa tem mais de 700 funcionários na China
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A empresa tem mais de 700 funcionários na China Reuters/Aly Song

Oito anos depois de ter deixado de disponibilizar o seu motor de busca na China, as notícias de que o Google tem planos para regressar àquele país com um serviço de pesquisas auto-censurado estão a motivar críticas por parte de associações e activistas de direitos humanos. Mas também mostram como o mercado chinês é hoje mais importante para as multinacionais de tecnologia do que era no início da década.

De acordo com as notícias, o Google estará a criar, em articulação com as autoridades chinesas, uma aplicação para Android com um motor de busca que vai filtrar os resultados que não agradam ao regime de Pequim. Isto inclui referências a opositores políticos, e a temas como direitos humanos e religião. O funcionamento não é muito diferente do que acontecia com o motor de busca que o Google tinha na China e que acabou por ser fechado em 2010, quando a empresa disse não estar disposta a continuar a pactuar com as regras de censura. A nova aplicação será disponibilizada aos utilizadores apenas depois de obter o consentimento chinês.

A possibilidade de um motor de busca censurado já suscitou críticas. “Vai ser um dia negro para a liberdade na Internet se o Google acatar as regras de censura extrema da China para ganhar acesso àquele mercado”, disse a investigadora da Amnistia Internacional Patrick Poon. “Ao pôr o lucro à frente dos direitos humanos, o Google vai abrir um precedente arrepiante e dar uma vitória ao governo chinês.”

A notícia foi avançada pelo site noticioso The Intercept, e confirmada depois por outros órgãos da imprensa internacional. Todos citam fontes anónimas que, em alguns casos, ressalvam que os planos podem não se concretizar. Outras notam que a hipótese de aceitar a censura chinesa está a causar incómodo dentro da multinacional americana.

Numa resposta ao PÚBLICO, o Google lembrou que nunca deixou inteiramente o mercado chinês e escusou-se comentar o caso: “Disponibilizamos várias aplicações móveis na China, como o Google Translate e Files Go [uma aplicação para libertar espaço de armazenamento em telemóveis], ajudamos programadores chineses e fizemos investimentos significativos em companhias chinesas, como a JD.com [um empresa de comércio online]. Mas não comentamos especulações sobre planos futuros.”

Com vários serviços online bloqueados na China, incluindo também o Facebook e o Twitter, os utilizadores recorrem a alternativas locais, que têm o aval das autoridades. O Baidu é o motor de busca mais usado e a Weibo é uma rede social muito popular. Ambos têm centenas de milhões de utilizadores e são negócios lucrativos.

Quando o Google retirou o seu motor de busca da China há oito anos este era um mercado menos relevante para as grandes multinacionais de tecnologia. Com o aumento da penetração da Internet e a adopção em massa dos smartphones, o cenário mudou.

Durante alguns anos, a China foi um motor importante de crescimento para as vendas da Apple, e empresas como a Amazon e a Microsoft também têm operações no país, o que significa pactuar com pelo menos algumas das imposições do governo. O próprio Google tem três escritórios e mais de 700 funcionários na China. No ano passado, abriu um centro de investigação em Pequim.