Editorial

O que aqui vos deixo

Sendo este o meu último editorial no PÚBLICO, cabe-me dizer-lhe o que acredito que deixamos, ao fim de 663 edições em que couberam tantas coisas: um jornal mais indispensável, de referência. E também muita amizade.

Esta direcção do PÚBLICO começou a 3 de Outubro de 2016. E eu lancei-me na aventura celebrando “um compromisso” consigo. Assinei-o no meu primeiro editorial: tínhamos de mudar, sim, mas sobretudo recuperar. As notícias, a reflexão, a ambição, a centralidade, os leitores. Nesse dia 1 eu traduzi o meu próprio desejo enquanto fiel leitor do PÚBLICO, sabendo que isso representava um desafio ao statu quo da imprensa: 

“Os jornais, os meios de comunicação social, têm passado muito tempo nos últimos anos a discutir o futuro do jornalismo — e muitas vezes a crise do jornalismo. A reflexão será sempre bem-vinda, mas o futuro do jornalismo passa sobretudo por dar-lhe a melhor informação hoje, a cada segundo, e por dar-lhe a melhor edição em papel, a cada dia que passa. É essa a nossa principal missão, o nosso principal compromisso consigo.”

Hoje, dia em que formalmente acabo esta missão (eu, o Vítor Costa e o Diogo Queiroz de Andrade, a quem tanto terei de agradecer), cabe-me vincar esse compromisso, que creio ter provado verdadeiro e continuar muito actual:

“Este jornal tem uma história ímpar, com uma missão de informar bem o seu leitor, dar-lhe notícias, acrescentar-lhe contexto, o que implica fazer perguntas e procurar respostas, dar ao leitor pistas para ler o país e o mundo. 

Isto é hoje mais importante do que nunca, porque o mundo em que vivemos é cada vez mais complexo, cheio de dilemas e de caminhos cruzados; porque no mundo em que vivemos já não há um problema de falta de informação, mas há um desafio de boa informação. Acreditamos que nós, o PÚBLICO, temos os melhores jornalistas para o fazer, para o ajudar a pensar, a discutir e a decidir. 

O compromisso desta direcção do PÚBLICO é, por isso, servi-lo, o que nos dias de hoje significa ouvi-lo, chegar mais perto de si, conversar. O mundo novo deu-nos esse grande privilégio: falar com os leitores como nunca sonhámos ser possível. E ir mudando. Sem medo, ao seu lado.”

Sendo este o meu último editorial no PÚBLICO, cabe-me dizer-lhe o que acredito que deixamos, ao fim de 663 edições em que couberam tantas coisas. Deixamos um jornal reconciliado com a sua história e uma equipa recentrada na sua principal missão: contar o que ninguém sabia, pôr o dedo na ferida, questionar quem estava em silêncio, obrigar o país a discutir os seus desafios e opções do passado, presente e futuro. Deixamos também uma enorme proximidade aos leitores – criando o Festival P, lançando aqui as newsletters personalizadas, abrindo a redacção aos assinantes, dialogando com eles. Deixamos ainda uma maior personalidade digital, com um site redesenhado (e bem recebido por 85% da nossa comunidade), com podcasts à altura da marca, com projectos vencedores de concursos internacionais, da Google e do Parlamento Europeu, que ajudarão a financiar o jornal, a renovar os seus quadros e a fortalecer a sua marca.

Deixamos até uma surpresa a contraciclo do mercado: um bom período a crescer em leitores fiéis, na edição em papel e também em assinaturas digitais, que tem bases sólidas para ficar. Com o DN a perder leitores e a sair das bancas de segunda-feira a sábado, o PÚBLICO teve, nas primeiras três semanas deste novo paradigma, um crescimento de 14% nas vendas da edição em papel, provando que recuperar leitores nunca é uma missão impossível.

Em suma, caro leitor, acredito que lhe deixamos um jornal mais indispensável, de referência. E também muita amizade – cá dentro, aí fora. O fim desta direcção pode ter sido abrupto, mas a missão foi um enorme prazer.

Se me permitir, hoje despeço-me assim. Desejando aos membros da direcção futura o mesmo que cada um deles me entregou a mim – um a um, na mesma medida (mais um abraço ao Tiago). Desejando aos leitores do PÚBLICO que mantenham o espírito crítico, a vontade de fazer parte, a irreverência de quem só espera a verdade – na certeza de que estarei sempre entre eles. E desejando ao meu querido PÚBLICO que resista, que seja sempre o melhor dos melhores, que nos acrescente. Até já, até sempre.