Carlos Azevedo

“O poder é necessário e é um serviço”

Defende que o proposto “Museu das Descobertas” deveria ter outro nome e que a Igreja faria bem em promover um processo de reflexão que pudesse levar a pedir perdão pelas atitudes de uma parte dos seus membros durante a guerra colonial. O bispo Carlos Azevedo transcreve e estuda, no seu último livro, sermões de um bispo de Coimbra em autos-da-fé da Inquisição.

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O facto de viver em Roma permitiu-lhe um acesso mais fácil aos arquivos do Vaticano. À procura de documentos sobre o bispo João de S. José Queirós, do século XVIII, tropeçou num texto do padre João Moutinho a criticar a Inquisição, no qual condenava os bispos portugueses como heréticos. Agora, encontrou seis sermões do então bispo de Coimbra, Afonso de Castelo Branco, em autos-da-fé – o único caso conhecido em que alguém faz seis sermões em sessões do tribunal da Inquisição.

Delegado do Conselho Pontifício da Cultura, o bispo Carlos Azevedo fala, nesta entrevista em Roma, sobre o seu último livro: Ministros do Diabo (ed. Temas e Debates), onde reproduz e investiga seis sermões do então bispo de Coimbra, Afonso de Castelo Branco. E analisa o que ainda ficou nos portugueses sobre o espírito inquisitorial: “Por vezes, vem ao de cima algum espírito de caça ao erro ou ao mal que é típico deste espírito, em que bastava ser denunciado para ser condenado.”

Escreve, na introdução, que o título do livro remete para uma ideia ambígua e que o uso do evangelho nestes sermões é um serviço diabólico. Não tem medo de ser criticado na Igreja por este documento, que é uma crítica tão feroz à Inquisição?

Não tenho medo, porque uma instituição tão hedionda deve merecer a crítica. E se a gente do tempo não foi capaz de ter essa distância crítica, significa que não foi verdadeiramente evangélica, não respeitou o símbolo da fé, mas os interesses em jogo. Portanto, podemos dizer que foram ministros do Diabo, que era o título que os pregadores davam aos judeus. Com esse título, mando-o em ricochete aos pregadores que usam a palavra de Deus de modo indevido.

Mas, enquanto bispo, como se sente a desencantar e comentar, de forma muito crítica, discursos de alguém que também teve essa missão?

Ao princípio, quando os encontrei, hesitei muito sobre se valia a pena transcrever os textos do século XVI, com o trabalho nada fácil que isso implicava, ou se eles não mereciam sepultura eclesiástica definitiva. Mas, dada a raridade de textos do século XVI, e o facto de a Inquisição não querer que se publicassem os sermões, isso significava que alguma coisa haveria ali que merecia [fazê-lo].

E se a Inquisição ainda hoje nos faz procurar explicações, era bom que esclarecêssemos que isto não se pode justificar. E, sobretudo, que nos dê uma grande responsabilidade do que é ser intérpretes do que Deus quer para cada hora da história. Devemos ser intérpretes e, ao sê-lo, corremos um grande risco e é fundamental ter muita consciência disso. Não podemos ser de cada tempo, temos de ser do tempo de Deus e esse tempo exige muita ousadia profética.

Mas uma das coisas que os sermões mostram é que os pregadores e a Inquisição achavam que estavam a interpretar a vontade de Deus para aquele tempo...

Exactamente. E esse é que é o erro, o processo diabólico... Conforme houve raros eclesiásticos que foram críticos da Inquisição e alguns foram mesmo objecto de processos.

A razão de ser de eu ter encontrado estes textos foi porque o primeiro bispo que estudei escreveu um livro contra a Inquisição e foi objecto de um processo [João de S. José Queirós]. Daí, eu ter encontrado depois João Moutinho, um eclesiástico que escreveu um livro contra a Inquisição [ver Terramoto Doutrinal] e, agora, estes sermões. Foi uma cereja que trouxe outra documentação atrás. Mas sem dúvida, ao ler estes textos, às vezes vêm as lágrimas aos olhos, a perguntar: “Como é que é possível que alguém tenha feito isto?”.

Quinhentos anos depois, ainda há ministros do Diabo?

Se a pessoa não tem a distância para ousar a palavra do evangelho e se se coloca ao serviço de interesses económicos, políticos ou eclesiásticos e não do evangelho, estamos a continuar a mesma atitude. É evidente que, no caso do bispo Afonso de Castelo Branco, ele estava ao serviço da Inquisição e não do evangelho.

Esse equívoco ainda se sente hoje na Igreja?

Pode haver momentos e situações em que haja ainda subserviência em relação ao poder e não o serviço da força do evangelho.

Escreve que há quem alegue a mentalidade da época, mas que um ministro do evangelho deve ter “ousadia profética”. Este foi também um debate no ano 2000, a propósito do pedido de perdão do Papa João Paulo II pelos erros históricos da Igreja. É legítimo fazer uma avaliação histórica e crítica retrospectiva?

Penso que sim. Se o Papa pediu perdão, isso prova que há pecados contra o evangelho e contra o Espírito Santo que exigem um sentido crítico, mesmo com a distância histórica. Sabemos que havia uma mentalidade envolvente, um modo de proceder para com o erro, uma falta de liberdade de consciência, que era do ambiente da época. Era assim que toda a sociedade funcionava, temos de reconhecer isso. Mas exige-se, a um servidor do evangelho, que seja livre, como Jesus.

Esse tipo de debate vem ao de cima de vez em quando. Temo-lo de novo a propósito do eventual Museu das Descobertas, em Lisboa. Esse eventual museu deveria chamar-se assim ou ter outro nome?

Deveria ter outro nome. Já houve uma exposição há largos anos com o título de Encontro de Culturas. E sabemos que se põe a ridículo muitas vezes o facto de se dizer que os indígenas viam chegar aqueles que iam “descobri-los”... A palavra descoberta não é justa para analisar o fenómeno, tal como já não falamos de “invasões bárbaras”, mas da chegada de povos que vinham integrar-se, eram imigração, tal como hoje estamos a sentir, numa época também ela de transição cultural. A interculturalidade exige ainda mais abertura de espírito.

Exige também a revisão dos livros de história e da forma como a história é ensinada?

Exactamente. Porque a mentalidade só muda quando temos uma visão histórica que corresponde verdadeiramente a uma visão do respeito para com as culturas e do respeito para com a diversidade de culturas. Caso contrário, continuamos a repetir chavões da leitura da história que não correspondem a uma perspectiva de futuro.

Não será correcto falar em “descobertas” no ensino da história?

Não.

Há quem defenda que a Igreja, em Portugal, deveria pedir perdão por um certo silenciamento em relação à Guerra Colonial...

Todos os erros são sujeitos a que se peça perdão por se ter errado, se a pessoa tem consciência do seu erro e está arrependida do seu feito. Na altura, houve muitas pessoas que criticaram e se opuseram [à Guerra Colonial], que tiveram um sentido crítico em relação ao colonialismo e a erros de humanidade graves.

E deveria haver um processo de reflexão que levasse a um eventual pedido de perdão de algumas atitudes de, pelo menos, uma parte da Igreja?

Parece-me que é próprio de quem tem consciência dos erros.

Quando lemos, no livro, a recriação que faz de todo o cerimonial do auto-da-fé, perguntamo-nos: como foi possível o cristianismo chegar aqui?

Foi a conjugação de todos os factores políticos e económicos que levaram, primeiro, à expulsão dos judeus. O facto de vermos, nestes autos-da-fé do século XVI, que a maior parte dos judeus ou cristãos-novos eram de Bragança ou de zonas próximas da fronteira, era porque vieram de Espanha e ficaram ali, para continuarem a ter uma vida discreta e não estarem em zonas próximas do poder. Os que tinham dinheiro, fugiram. E houve várias amnistias promulgadas pelo Papa.

Em 1605, por exemplo, houve um perdão geral do Papa e todos os judeus com possibilidades foram para Amesterdão, para Ferrara, para Palma, Livorno, sítios onde ainda hoje há restos dessa presença portuguesa. O director do La Scala [de Milão], por exemplo, tem um nome português porque vem de Amesterdão, de uma família de judeus que saiu de Portugal nas várias vezes em que eles ainda conseguiram escapar à tortura e ao castigo.

E falamos de um bispo de Coimbra, Afonso de Castelo Branco, que era um homem erudito, até com uma espiritualidade profunda para a época, um homem bem-intencionado... Jordi Savall dizia-me, em entrevista, que, quando a música se reduz à expressão estética, se acaba em Auschwitz. Podemos dizer, paralelamente, que quando a doutrina é reduzida a uma moral, também acabamos desta forma?

Não há dúvida que ele era um homem culto. A sua biblioteca é considerada das melhores do país, no final do século XVI, e isso vê-se nos sermões. Ele cita abundantemente uma espécie de sebentas já feitas, sobre a verdade ou outros temas, com excertos de livros de teologia da patrística [pensadores dos primeiros séculos cristãos]. Mas vê-se que ele cita textos contemporâneos. Encontrei mesmo algumas obras dele que estão nas bibliotecas públicas de Portugal.

Mas ele conseguiu ser vice-rei de Portugal, durante dois anos, durante o domínio filipino. A certa altura, ele disse ao rei “agora toma conta dos lobos, que eu tenho as ovelhas para cuidar”, deixando essa função política. Mas vê-se que era um homem muito subserviente: primeiro, alinhou imediatamente com o governo dos Filipes, e por isso foi nomeado bispo do Algarve e, depois, de Coimbra; é também muito subserviente do poder inquisitorial...

Como referiu, nos sermões de Afonso Castelo Branco fica patente a dimensão moralista e abafada a força da graça e do perdão, revela-se um Deus mais juiz implacável do que libertador, que cura e salva. Estava-se longe da proposta de felicidade que Jesus inaugurou.

Num dos sermões, ele diz “toda a verdade é da vida, da doutrina, da justiça e recebe prémio ou castigo”. Estava em debate sempre a questão da verdade...

João Moutinho, no escrito que fez contra a Inquisição em 1755, afirmou que os bispos portugueses eram todos heréticos, porque eram maniqueus. Porque essa divisão entre bem e mal é maniqueísmo e o maniqueísmo é uma heresia. E ele dizia que os bispos, ao aceitarem a Inquisição, entravam em heresia. Se em 1755 já um padre oratoriano percebe esta dimensão, hoje, com outra capacidade de leitura e outra mentalidade, devemos ser ainda mais exigentes.

O facto de a Inquisição não querer que os sermões fossem escritos e arquivados correspondia a uma estratégia?

Penso que era para não se conhecer a argumentação. Como os judeus tinham uma grande força aqui em Roma, junto da Santa Sé e do Papa, se a argumentação fosse conhecida, talvez isso fosse prejudicar a lógica do poder que a Inquisição tinha sobre o auditório.

Os temas que Afonso Castelo Branco abordava – a morte dos judeus, a negação de Cristo como messias, a “cegueira” dos judeus – também correspondem a uma lógica recorrente? Eram temas já presentes nessas sebentas ou não?

Sim, mas mais tarde serão piores. Lucília Pires, que foi a primeira a encontrar um destes sermões na Biblioteca Nacional e a dar a conhecer o pensamento de Afonso Castelo Branco, comparando com os textos do século XVII, diz que ele é muito benevolente, que a agressividade dos textos do século XVII é muito maior. Chegam a uma justificação mesmo diabólica. Castelo Branco ainda fala, por vezes, da misericórdia de Deus, que é maior que o pecado... Ele diz isso, mas não é coerente até ao fim.

O cristianismo é incompatível com o exercício do poder?

Não, porque o poder é necessário e é um serviço. O que se exige é que a forma de o exercer seja trespassada pelo amor, pela misericórdia, pela justiça e pela verdade. E aí é que começamos a analisar como tantas vezes a sedução do poder leva à mentira, à calúnia...

Ainda hoje vemos o evangelho e a Bíblia a serem utilizados, por exemplo, para separar pais de filhos...

Sim, foi uma das situações que, na altura em que o livro foi apresentado, vimos a Bíblia ser usada: para dividir, separar e agredir outros. E isso é diabólico, não é justo, o Deus de Jesus não quer isso.

A tolerância é ainda uma expressão diabólica?

Depois do que o II Concílio do Vaticano [1962-65] disse, sobre a liberdade religiosa e a liberdade de consciência, devemos reconhecer que essa é uma atitude profundamente cristã. Não se trata de dizer que o erro é verdade, mas aceitar que uma pessoa possa estar convictamente numa posição que pode ser criticada, sem que isso leve a torturá-la ou condená-la. Devemos procurar a verdade sem que isso possa levar a condenar o outro por não ter a minha posição. 

O que ficou desta mentalidade inquisitorial?

Por vezes, vem ao de cima algum espírito de caça ao erro ou ao mal que é típico deste espírito inquisitorial, em que bastava ser denunciado para ser condenado. Não havia, depois, muita hipótese de a pessoa dizer que estava arrependida. Por isso é que também me pergunto se esses sermões eram um apelo à conversão ou apenas uma forma de justificar o que já estava decidido e quem já estava condenado. O próprio pregador diz: “Se agora se converterem, é por medo”. Não lhes dava hipótese; se eles se convertessem, era por medo do castigo.

O facto de hoje haver pessoas que escrevem para Roma a denunciar padres ou bispos que consideram heterodoxos reflecte esta mentalidade?

Isso manifesta um zelo pela verdade que, em vez de fazer aquilo que o evangelho pede – de ir ter com as pessoas e falar directamente e, se for o caso, levar a pessoa a interrogar-se sobre o que defende –, em vez do debate, se esconde na denúncia.

Quantos mais terramotos doutrinais e ministros do Diabo vai encontrar?

Não é por prazer que encontro estes textos, mas, quando os encontro, interrogo-me sobre a oportunidade de fazer reflectir as pessoas. E penso que este livro faz reflectir. Algumas pessoas que já o leram disseram-me que o livro as pôs a pensar, porque não tinham muito a ideia do que foi a Inquisição. Por vezes, dizem-se coisas sobre a Inquisição que até são exagero: por exemplo, alguns pensam que as pessoas eram queimadas na praça; mas nunca eram: eram entregues ao braço secular e eram queimadas depois, de forma discreta...

Apesar das gravuras que o mostram?...

As gravuras induzem em erro. O auto-da-fé e a leitura das sentenças eram distintas do dia da fogueira. As ilustrações referem-se ao segundo acto, que não deixava de ter os seus espectadores. Por motivos de propaganda contra a Inquisição, contaminam-se os dois momentos. A execução dos condenados a fogueira ou garrote era realizada fora da área urbana.

No livro, recolhi informação sobre quem estava a ouvir o sermão, quem foi condenado em determinado dia. A união entre ouvintes e pregação é que não tinha sido sublinhada, na história da Inquisição. Das 80 ou cem pessoas condenadas, havia quatro, cinco que iam para a fogueira, era uma percentagem relativamente diminuta. Mas a fogueira não acontecia ali. Nesse dia, eram lidas as sentenças e as pessoas eram entregues ao poder político e só depois eram queimadas. No caso de Coimbra, na praia do Mondego.

Sendo historiador e estando em Roma, com acesso a documentação, entende a sua missão como a de ir ao fundo da história buscar um significado para os dias de hoje?

Tenho encontrado uma forma de aproveitar alguns tempos livres para ir para o arquivo, mas penso que agora acabou o ciclo destes quatro volumes ligados a figuras da Inquisição. Ocupei-me também da história da Diocese de Leiria e da figura do [bispo do Porto entre 1899 e 1918] D. António Barroso. Tenho 140 páginas de cartas do D. António Barroso, muitas delas inéditas e muito interessantes. Ao organizar o processo de beatificação, quem recolheu os documentos não abriu as caixas todas. Agora, ao procurar em mais de 70 caixas de documentos do final do século XIX/início do século XX, encontrei não apenas cartas de D. António Barroso, mas várias outras coisas interessantes que um dia podem vir a lume.

Vai então continuar a vasculhar a história a partir das fontes e das ferramentas que aqui encontra?

É um serviço que se pode fazer, estando próximo das fontes. Em Portugal há documentos, mas muitas vezes eles desapareceram, e aqui conservam-se. Outro dia encontrei o envelope da casa Leitão & Irmão em que o rei D. Manuel II oferecia um fruteiro ao Papa Pio X, em 1908. Nem a casa Leitão & Irmão sabia... Agora terei de procurar, nos museus do Vaticano, onde está o fruteiro feito pela casa Leitão & Irmão... Há muitas coisas a descobrir...

E qual é o próximo projecto?

Tem a ver com a correspondência de um embaixador do Papa que vai à China, mas, antes, passa por Lisboa e Macau...