Entre o casario e a muralha repousa um sono misericordioso

Do alto do Castelo de Óbidos, a rede Pousadas de Portugal desce agora ao casario da vila amuralhada. O primeiro núcleo da nova unidade abriu em Maio. O segundo — com inauguração prevista para o início de 2019 — marca um regresso aos primórdios da rede: ali se ensaiou um protótipo de pousada, nos anos 1930, que nunca viria a abrir enquanto tal. Até agora.

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Para lá da janela do quarto, o horizonte desenha-se a dois tempos. Primeiro, a pedra: uma quadrícula de ameias onde se passeiam turistas, logo aqui, como que planando sobre os telhados de barro. Depois, mais acima, o campo: camadas de árvores e terrenos agrícolas, pontilhadas pelo casario que entretanto nasceu para lá das muralhas, até ao azul do céu. A vila ainda se insinua num ziguezague de casas típicas aos nossos pés — mesmo em frente à janela do quarto onde ficámos alojados anuncia-se o restaurante Pretensioso em letras negras sobre a fachada caiada. Mas as vistas do primeiro núcleo da nova Pousada Vila de Óbidos transbordam o casario histórico para repousarem além muros. Estamos dentro com os olhos fora, a tocar o melhor de dois mundos: basta passar a porta para descobrir todos os recantos das ruelas medievais; basta abrir a janela para esquecer o bulício turístico e mergulhar no campo.

A Pousada Vila de Óbidos há-de dividir-se em dois edifícios, com a abertura do segundo núcleo prevista para o início do próximo ano. Mas, para já, é aqui que a nova unidade dá os passos iniciais, 67 anos depois de a primeira pousada histórica ter nascido no castelo de Óbidos. O antigo Hospital da Misericórdia foi reabilitado e convertido em unidade hoteleira, abrindo no final de Maio com 17 quartos, sala de pequenos-almoços e pátio interior. Do velho hospital, apenas com conhecimento de causa ou alguma intuição se reconhece herança: pouco foi alterado na arquitectura do século XVIII, mas o passado médico é página virada, sobrevivendo apenas janelas, nichos e antigas portas envidraçadas (nas casas de banho dos quartos). “A decoração procura transmitir calma e tranquilidade, mas não queríamos que essa colagem ao hospital fosse feita”, admite Nuno Godinho, responsável pelas duas pousadas em Óbidos. Afinal de contas, quem é que quer passar férias num hospital?

A história, no entanto, contam-na a quem perguntar. Até à abertura do hospital das Caldas da Rainha, era dentro das muralhas de Óbidos que ficava o principal hospital da região. Em poucas divisões, tratavam-se todos os males. E davam-se algumas alegrias. “A sala de cirurgia era no actual quarto 311 e a maternidade ficava na sala do pequeno-almoço”, conta Nuno Godinho. “Temos inclusive trabalhadores na Pousada do Castelo que nasceram aqui.” De acordo com o responsável, “ainda há uma forte ligação da comunidade ao edifício”. Em 1973, deixou de ser hospital e foi adaptado a lar. Mais tarde, albergou alguns ofícios para pessoas com deficiência, enquanto “no piso de baixo funcionava o centro de saúde”. Agora, as diferentes alas albergam os 17 quartos da unidade, divididos em três categorias pelos três pisos do edifício (oito standards, sete superiores e dois premium).

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O papel de parede dá uma personalidade única a cada quarto, ditando a cor que sobressai entre os tons neutros transversais a todo o hotel. E uma selecção de móveis antigos, trazidos dos armazéns do grupo Pestana, garante a decoração exclusiva de cada divisão. Na recepção, esvoaçam pássaros pelas paredes, outros posam nos candeeiros. Enquanto na sala de pequenos-almoços se elevam diferentes produtos hortícolas ao estatuto de quadros emoldurados. Por todos os recantos, há árvores e flores — em vasos e em tecidos. É o campo das janelas a transpirar aos interiores da pousada.

Regresso aos primórdios

O calendário assinala o início da época alta — ainda que o dançar dos relâmpagos e o tilintar da chuva acabe a embalar-nos o sono. Mas em redor da Pousada não se dá pelas hordas de turistas que durante o dia entopem a Rua Direita. São poucos os que se passeiam por aqui — e esse é um dos trunfos da unidade. Fica a menos de dois minutos da rua principal, mas aqui encontrará sempre sossego. A localização traz ainda outras vantagens: os carros conseguem parar mesmo à porta — e até estacionar, se encontrar lugar no pequeno parque de estacionamento em frente — e, logo ali, fica uma das portas da vila, de acesso pedonal. Pode vir de carro, deixar as malas e estacionar para lá das muralhas, regressando por aqui.

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Depois, é deixar-se perder pelas ruelas medievais, de casario branco bordado a pigmento azul ou amarelo e flores a trepar aos telhados. Em cada esquina, há uma loja, uma galeria, um museu ou livraria, restaurantes e bares e, claro, igrejas. O edifício da Santa Casa da Misericórdia de Óbidos divide-se agora em dois — a Pousada (secção que o grupo hoteleiro arrendou por um período de 30 anos) e a igreja da Misericórdia (com acesso exclusivo ao salão nobre). Um lance de escadas e estamos junto à Igreja de Santa Maria, templo principal da vila amuralhada, já em plena Rua Direita. Por volta das 19h, o comércio começa a encerrar e é como se tivéssemos uma vila só para nós. Não ficámos alojados no castelo, mas em certos momentos sentimo-nos príncipes do reino.

Subimos pela Calçada do Lidador e, mesmo junto ao miradouro, fica o segundo núcleo da Pousada Vila de Óbidos, com abertura prevista para o início de 2019. Dista cerca de 150 metros do primeiro — basta atravessar a vila a direito, de um pano a outro da muralha. A recuperação do edifício marca um regresso aos primórdios da rede nacional de pousadas. “É curioso porque foi idealizado e construído para ser a primeira Pousada de Portugal, mas nunca chegou a ser”, conta Nuno Godinho. Chamam-lhe, por isso, a “protopousada”. Foi concebida por António Ferro, em 1937, mas acabaria por abrir como hotel-escola para “formar pessoas na área do turismo e da hospitalidade”. A primeira pousada haveria de abrir oficialmente em Elvas, cinco anos depois. Mais tarde, o estabelecimento de ensino daria lugar à Estalagem do Lidador. Passado esse “período áureo”, teve várias funções de apoio à Pousada do Castelo, de lavandaria a casa do pessoal e arquivo. Até ficar completamente ao abandono e ruir parte do telhado.

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No início do próximo ano, cumpre finalmente o destino proposto: vai reabrir como pousada, com 11 quartos e uma piscina, um ex-líbris que, dentro das muralhas, “só um alojamento local” tem também para oferecer. A piscina será, por isso, de acesso a todos os hóspedes, quer fiquem alojados neste núcleo ou no primeiro. Além disso, uma vez que a Pousada Vila de Óbidos é a primeira do grupo a não ter restaurante, os clientes têm um desconto exclusivo no restaurante da Pousada do Castelo.

Quando o processo estiver concluído, a rede Pousadas de Portugal — gerida há 15 anos pelo grupo Pestana — vai triplicar a oferta que tem em Óbidos, contabilizando 47 quartos, repartidos entre a Pousada do Castelo (19) e os dois núcleos da Pousada Vila de Óbidos (17 e 11). “Com o inventário de quartos que tínhamos na vila não conseguíamos dar resposta às solicitações em determinadas alturas do ano”, assume Nuno Godinho. De acordo com a empresa, a pousada instalada no antigo castelo tem a maior taxa de ocupação do grupo hoteleiro. “Óbidos continua a crescer e, por isso, queríamos reforçar a nossa posição na região Centro e na vila.” Com a nova pousada, integrada na categoria charming, nasce igualmente uma nova opção de escolha aos clientes fiéis ao grupo: mergulhar no luxo principesco do castelo ou ficar num ambiente mais descontraído e luminoso. Em qualquer dos casos, o cenário medieval de postal permanecerá à janela.

A Fugas esteve alojada a convite da Pousada Vila Óbidos