Crítica

A guerra e a paz em novas criações musicais

O Festival Estoril Lisboa que está a decorrer até hoje teve duas encomendas de novas obras dirigidas pelo director artístico, Piñeiro Nagy, aos compositores João Madureira e Eurico Carrapatoso.

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Concerto nos Jerónimos (o da estreia da obra do João Madureira) Carlos Maduro
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João Madureira dr
Eurico_Carrapatoso
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Eurico_Carrapatoso João Tuna

O centenário do fim da I Guerra Mundial é uma das linhas condutoras da programação do Festival Estoril Lisboa, a decorrer até este sábado, 28 de Julho, tendo servido de base às duas encomendas de novas obras dirigidas pelo director artístico, Piñeiro Nagy, a João Madureira (n. 1971) e Eurico Carrapatoso (n. 1962). A temática da guerra e a afirmação da esperança no Homem desencadearam respostas musicais com estéticas bem distintas, mas ambas alicerçadas numa forte sintonia com textos literários de notável qualidade e profundidade.

A estreia de Requiem pela Aurora de Amanhã, de João Madureira, no Claustro do Mosteiro do Jerónimos, pela Orquestra Metropolitana, dirigida por Pedro Neves, contou com a narração de José Tolentino de Mendonça, autor do poema que deu origem à composição. O concerto despertou uma adesão entusiástica do público que esgotou a lotação e, no final, aplaudiu longamente uma composição que pretende ser “um convite a abraçarmos a diversidade do mundo e a cuidar da Terra como casa comum”, palavras do Papa Francisco (encíclica Laudatio Si’, 2015) que João Madureira adoptou como mote e encontram eco no poema.

Num fluir contínuo, a peça dá espaço à interacção sequencial ou simultânea de vários planos sonoros: texturas instrumentais depuradas de apreciável colorido tímbrico nas quais reaparecem fragmentos musicais sob diferentes perspectivas; as vozes do agrupamento Voces Caelestes (dirigido por Sérgio Fontão), objecto de amplificação e usadas como se fossem instrumentos através de vocalizos (portanto de entoações de vogais em vez de palavras ou frases); e o texto de Tolentino de Mendonça, deixado intacto na voz falada do seu autor.

O poema é, em si mesmo, bastante musical e serve de estímulo à própria música, umas vezes de modo óbvio, como as “caixas de ritmos” que de imediato desencadeiam um discurso musical mais rítmico; outras num sentido mais abrangente. Com uma estrutura tripartida, o poema e a composição evocam primeiro o Universo para depois descer à Terra num tempo marcado pela guerra, por massacres e por desastres ecológicos, e finalmente atingir uma dimensão mais transcendente de encontro com a paz (“Deus cujo centro está em toda a parte fará renascer as espécies”). “Nem tradicionalista, nem vanguardista”, como o próprio gosta de se caracterizar, João Madureira confirma com esta obra um lugar de destaque no actual panorama da criação musical portuguesa.

A primeira parte do concerto foi também digna de nota, contando com uma interpretação do Prélude à l’après-midi d’un faune, sob a direcção de Pedro Neves, atenta às nuances de colorido e plasticidade de fraseados da música de Debussy e com a impetuosa prestação de António Rosado no Concerto para a mão esquerda, de Ravel, peça resultante de uma encomenda do pianista austríaco Paul Wittgenstein, que perdeu o braço direito na I Guerra Mundial. Contagiada por influências jazzísticas, esta obra combina momentos de forte poder dramático com passagens mais líricas. Ser destinada a uma só mão não impede a existência de passagens virtuosísticas complexas que Rosado executou com destreza e brio.

Alguns dias depois, na Igreja de São Roque, o Grupo Vocal Olisipo, dirigido por Armando Possante, fez a estreia da outra encomenda do festival: Te Deum em louvor da Paz, de Eurico Carrapatoso. Mais uma vez um público numeroso assistiu à estreia no âmbito de um programa que incluía também o Requiem a seis vozes, de Duarte Lobo (1565-1646), obra que se insere na rica  tradição do tratamento polifónico dos textos e melodias de cantochão da missa Pro Defunctis por compositores ligados à Sé de Évora nos séculos XVI e XVII. O Grupo Vocal Olisipo interpretou-a no coro alto da Igreja de São Roque, o que constituiu uma boa opção acústica, demonstrando a sua ampla experiência no campo da polifonia portuguesa desta época. Na 2ª parte, já junto ao altar-mor, em conjunto com o pianista Tiago Bentes Rosário, o Olisipo deu voz à nova partitura de Carrapatoso, compositor com quem tem uma colaboração de longa data, através de uma interpretação veemente, rica em contrastes expressivos e dinâmicos e tecnicamente sólida.

Articulada em sete andamentos, a obra combina o texto em latim do Te Deum, usado nas secções 2, 3, 5 e 6, com três poemas (Le dormeur du val, de Rimbaud, 1870; Si je mourais là-bas, de Appolinaire, 1915; e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa, 1926), que surgem nas secções 1, 4 e 7. Cria assim uma arquitectura coerente e uma dramaturgia a partir de elementos que à primeira vista poderiam parecer heterogéneos. Aos poemas associou os subtítulos “Pavana para...”, respectivamente, “um Infante dormido”, “uma Infanta distante” e “um Infante defunto”, alusão ao título da famosa peça de Ravel que se traduz também na evocação explícita das sonoridades da música francesa dos inícios do século XX.

Estas contrastam com o tratamento rítmico e harmónico e o carácter mais incisivo e dramático do texto do Te Deum, o qual, em vez de dar continuidade à tradição musical exaltante e laudatória adquirida ao longo dos séculos, assume aqui uma expressão inquietante. No final, o poema de Pessoa atinge uma tocante expressividade musical, corolário de uma composição na qual Carrapatoso dá mais uma vez azo à sua atitude descomplexada na apropriação de linguagens e estilos e à sua habitual facilidade para provocar a empatia do público e dos intérpretes.