Associações temem que obras nos caminhos da reserva do Mindelo ameacem espécies

Os caminhos dentro da Reserva Ornitológica do Mindelo estão a ser requalificados há cerca de um mês. Associações locais dizem que a empreitada terá um impacto negativo directo nas espécies da reserva e temem que a autarquia queira transformar o espaço num parque urbano.

Mindelo, Reserva Ornitológica do Mindelo
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Joana Goncalves

São algumas associações de Vila do Conde, onde está a mais antiga reserva natural do país, que o dizem. A obra de alargamento dos caminhos da Reserva Ornitológica do Mindelo (ROM), criada em 1957, desde 2009 integrada na Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde (PPRLVC), poderá pôr em causa o ecossistema em questão. Alargam-se os caminhos que cortam a área com cerca de 380 hectares ao longo de 8,5 quilómetros da linha de costa e aumentam as probabilidades de riscos associados para a fauna e flora da reserva, temem. A autarquia diz que a obra já em curso, orçada em 327 mil euros, não terá qualquer impacto negativo. 

Há quem não esteja convencido. Primeiro, por entenderem que os primeiros sinais de alarme já soaram. Depois, por considerarem que o projecto levado a cabo pela autarquia está envolto em “opacidade”. Queixam-se de não conhecerem o projecto. Uma dessas pessoas menos optimista em relação à utilidade da obra é Joaquim Cardoso, co-fundador e vice-presidente da Associação dos Amigos do Mindelo para a Defesa do Ambiente, criada em 1992, que após um hiato de oito anos retomou a actividade no final de 2017.

Na semana passada foi divulgada uma carta aberta anónima dirigida à presidente da câmara, Elisa Ferraz. Disse-nos o responsável por esta associação que é ele o autor da missiva que tem um objectivo claro: “Parar a obra enquanto há tempo”. 

Há um caminho que já foi intervencionado, entre a rua da Manga e Silvares. “Este foi relativamente pacífico porque não houve corte de árvores e foi razoavelmente alargado para três metros”, nota. O segundo – Caminho dos Ferreiros -, agora em processo de alargamento, foi o gatilho para o protesto. Tinha dois metros e passará a ter entre 4 a 5 metros, atesta o autor da carta. “Durante alguns dias saíram dali camiões carregados de troncos”, afirma. Entre as árvores abatidas contam-se algumas espécies autóctones como são exemplo os amieiros.

O próximo caminho a ser intervencionado, entre outros que se seguirão, é o que liga a Gândara Nova a Silvares, um percurso que diz ter aproximadamente 1 quilómetro. Serve o alerta veiculado na carta aberta para que a obra iniciada há pouco mais de um mês não avance para esta terceira etapa em prol da mitigação do impacto negativo que acredita poder existir.

Para Joaquim Cardoso estão em causa, além da flora, algumas espécies de aves que estão neste momento em período de nidificação.

Drenagem das águas pode prejudicar anfíbios

Sofrerão também os anfíbios, diz Pedro Martins, presidente da assembleia geral da associação Pé Ante Pé, que também é biólogo e nas últimas autárquicas foi o candidato local pela CDU.  “Os caminhos pavimentados em tuvenan e os órgãos de drenagem que estão a ser construídos são obstáculos para a espécie”, afirma e explica que as valetas para onde a água se desviará poderão pôr em causa a formação de poças que dão origem a charcos temporários.

Outra preocupação que partilha com Joaquim Cardoso é a de que se possa estar a tentar transformar a reserva num parque público. “A abertura destes caminhos não deixa de promover circulação de bicicletas ou de pessoas a passear com cães. É importante atrair gente, mas não apelar à massificação”, sublinha.

Relativamente ao abate de árvores é cauteloso e diz não ter a certeza se é a autarquia que está a ordenar o corte ou se são os proprietários dos terrenos que as estão a cortar debaixo da “desastrosa proposta” do Governo para a limpeza dos caminhos, tendo em vista o combate aos incêndios.  De qualquer forma considera uma situação preocupante. Alerta ainda para as constantes descargas poluentes na ribeira de Silvares, que atravessa a reserva. No dia em que falamos tinha sido feita mais uma.

Obra tem parecer favorável de várias entidades

Ao PÚBLICO, a presidente da autarquia, Elisa Ferraz, disse que esta obra comparticipada em 85% por fundos europeus não está a ser realizada sem a supervisão de técnicos especializados e sem o aval das entidades que regulam questões relacionadas com esta matéria. Afirma que o estudo de ordenamento e gestão da paisagem protegida foi elaborado por “um especialista mestre em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e pós- graduado em Engenharia do Ambiente pela FEUP”. Deram parecer favorável ao mesmo diversas entidades: CCDR Norte, Entidade Regional da Reserva Agrícola nacional, Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte, Agência Portuguesa do Ambiente, Instituto da Conservação da Natureza e da Floresta, Área Metropolitana do Porto e Turismo do Porto e Norte.

Garante que a ideia nunca será transformar a reserva num parque público e que o projecto não põe em causa a flora e a fauna que lá existem. Servirá também o alargamento dos caminhos para que sejam melhoradas as vias de acesso a veículos prioritários.

Relativamente às descargas efectuadas na ribeira de Silvares diz ser um problema que tem merecido a atenção da câmara e que no dia em que esta última ocorreu foram detectadas por um vigilante que informou a autarquia. A situação diz ter sido normalizada poucas horas depois. Embora tenha ficado por conhecer a origem da descarga.

Quanto ao abate das árvores diz ser uma situação a que a câmara é alheia e que poderá estar relacionada com uma “mera questão de prevenção contra incêndios” que terá partido da iniciativa dos proprietários dos terrenos.

Joaquim Cardoso diz que há estacas no solo a delimitar a nova largura de alguns troços dos caminhos. Diz que essas estacas ultrapassam a linha das árvores. “Se há árvores até lá, terão de ser abatidas”, afirma. A questão dos acessos a veículos prioritários entende ser uma falsa questão por considerar existir espaço suficiente para que consigam circular. “Além de ser um projecto que traz impactos negativos para a reserva é também um desperdício de fundos monetários”, finaliza.