Alojamento local em Lisboa disparou mais de 3000% desde 2010

Capital tem 20% dos estabelecimentos do país, num modelo que não dá sinais de abrandamento.

Janela, calçada, calçada
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patricia martins

No início da década, havia 259 estabelecimentos de alojamento local em Lisboa. Sete anos depois, o número passa para 9833. O mesmo é dizer que, entre 2010 e 2017, o alojamento local da capital disparou mais de 3000% e representa perto de um quinto do total nacional.

A curva ascendente do número de estabelecimentos de alojamento local lisboetas torna-se mais proeminente a partir de 2014 e não há indícios de que vá abrandar. Só nos primeiros dois meses de 2018, foram registados mais 734 novos estabelecimentos.

Em teoria, o crescimento exponencial destes estabelecimentos até poderia afectar a saúde da indústria hoteleira. Mas tal não se verifica, notam os investigadores, que salientam que o número de dormidas nos hotéis lisboetas passou de seis milhões em 2010 para 11 milhões em 2016, enquanto o número de camas disponíveis também cresceu de 35 mil para 50 mil no mesmo intervalo. 

Os dados fazem parte de um estudo sobre o impacto económico do alojamento local em Lisboa apresentado no congresso da Associação Portuguesa de Desenvolvimento Regional, no início de Julho. O trabalho da autoria dos professores catedráticos da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e da universidade norte-americana de Rutgers, Pedro Ramos e Michael Lahr, e do investigador da Universidade de Aveiro, João Pedro Ferreira, recolhe indicadores económicos e dados do Registo Nacional de Alojamento Local para estimar o efeito em três cenários.

O estudo conclui que, se o número de alojamentos locais em Lisboa continuar a aumentar, a cidade “pode potencialmente sofrer um êxodo de suburbanização a uma escala semelhante à experienciada em muitos cidades americanas e em algumas europeias”. E, embora os investigadores entendam que do aumento das deslocações pendulares provocado pela gentrificação não resultem “grandes perdas económicas” para Lisboa, a sua área metropolitana, ou para o país, “pode prejudicar Portugal a nível social e ambiental”.  

No primeiro cenário, em que não é pesada a “suburbanização causada pela gentrificação turística”, a actividade do alojamento local na capital cria 36 mil postos de trabalho a nível nacional e faz subir o PIB do país em 0,6%. Se reduzirmos a análise ao município de Lisboa, o impacto no PIB é de 1,8% e tem um peso de 3% no emprego. Mas apenas metade 52% do aumento do PIB fica retido em Lisboa, sendo o restante valor se distribui pela área metropolitana e pelo resto do país em percentagens similares. Dos 36 mil empregos criados, 46% fica na cidade.

Os cenários dois e três equacionam a transferência de moradores do centro de Lisboa para a periferia. No segundo panorama, a expulsão dos moradores para os subúrbios reduz os ganhos do PIB do turismo em Lisboa em 17% e os ganhos em postos de trabalho em 13%, embora os efeitos na área metropolitana sejam maiores. Já o impacto no resto do país é mais penalizador devido aos custos das deslocações pendulares que os moradores da periferia terão de efectuar para o centro da cidade.

No terceiro cenário, em que apenas é tida em conta transferência de pensionistas do centro para outros concelhos, a cidade perde 18% no PIB e 16% no emprego em relação ao primeiro cenário. Isto acontece uma vez que os pensionistas não teriam de se deslocar a Lisboa e passar lá o dia.