Opinião

A estátua da rainha Njinga: uma nova frente na luta de memórias

Estamos perante novos preconceitos de matriz ideológica e cultural que inverteram os preconceitos racistas dos séculos XIX e XX.

A investigadora Cláudia Silva escreveu um novo artigo sobre escravatura. O artigo diz várias coisas acertadas, não faz afirmações panfletárias e tem pelo menos três méritos. O primeiro é o de nos relembrar algo que raramente é dito, isto é, que os africanos já tinham escravos e que os árabes já os adquiriam, na África subsariana, muito antes da chegada dos portugueses. O segundo é o de procurar ser equilibrado, esclarecedor e justo, ainda que em três ou quatro pontos Cláudia Silva não o consiga inteiramente. De todo o modo, esforça-se por isso e recomenda, e muito bem, que não se olhe para a história da escravatura com olhos maniqueístas. Porém, e a pretexto de ir contra o maniqueísmo, a articulista sugere que se erga, em Lisboa, uma estátua à rainha Njinga, apesar de reconhecer que a dita rainha “possuiu escravos e também os vendeu, tendo assim participado no tráfico de escravos”. Esta sugestão é, ainda que involuntariamente, o terceiro mérito do seu artigo, não pela proposta em si mesma, que é inadequada para não dizer absurda, mas porque nos ajuda a perceber melhor os propósitos que movem, e as contradições de que enfermam, muitos dos intervenientes neste debate sobre escravatura.

De facto, no momento em que, nos Estados Unidos e noutras partes do mundo ocidental, incluindo Portugal, se assiste a uma intensa e por vezes histérica campanha contra a presença, no espaço público, de estátuas representando figuras de alguma forma (ainda que ténue) associadas ao comércio e à escravidão de africanos, Cláudia Silva propõe que se faça, na capital de Portugal, uma estátua a uma figura histórica angolana profundamente envolvida na escravidão e no tráfico de negros. Alega a articulista que a figura de Njinga “representa a complexidade da história da escravatura”. Ou seja, uma estátua sua mostraria ao cidadão comum que os negros também estavam envolvidos no tráfico de escravos e seria, portanto, e de certo modo, uma estátua didáctica. Mas trata-se, a meu ver, de uma fraca justificação. O que parece haver aqui é gato escondido com rabo de fora, sendo que o dito gato é mais uma frente do combate pela memória. Por outras palavras, mais uma tentativa de invasão do nosso espaço público com memórias, figuras e narrativas que não são nossas.

Mas há um segundo aspecto que merece ser realçado. De facto, a proposta de Cláudia Silva, ou melhor, o acolhimento que ela mereceu entre muitos daqueles que criticaram Marcelo Rebelo de Sousa por, em Gorée, em Abril de 2017, não ter pedido desculpa pela escravatura, e que bramaram contra o padre Vieira, por verem nele um “promotor da escravidão dos negros”, põe completamente a nu a enorme incoerência e a falta de isenção e de equidade dessas pessoas na avaliação dos factos passados e presentes. Em bom rigor, não sei o que Cláudia Silva pensa do padre Vieira ou da visita de Marcelo a Gorée. Também não sei se é uma das pessoas que rasga as vestes para que se destruam ou removam as estátuas de Thomas Jefferson, de Lord Nelson e de várias outras figuras históricas, e não quero criticá-la por posições que não sei se são as suas. Mas sei o que pensa sobre questões conexas e também sei que esta sua proposta destapa a careca a muitos dos seus compagnons de route — digamos assim — que se têm expressado profusamente num debate que já leva mais de um ano. Como é que se pode aplaudir e defender a ideia de fazer uma estátua a Njinga e, ao mesmo tempo, censurar, amaldiçoar e apagar a mera referência ao nome de um qualquer ocidental conotado com a escravatura? Como é que se pode defender que se tirem do espaço público e, até, do privado, as imagens daqueles europeus e americanos que, no passado, foram possuidores de escravos, como o general Robert E. Lee, por exemplo, e, em simultâneo, louvar a ideia de construir uma estátua a uma escravista africana? A diferença entre a Njinga possuidora e negociante de escravos e Thomas Jefferson, Robert E. Lee e outros senhores de escravos que os caçadores de bruxas politicamente correctos perseguem é que a primeira era negra e os segundos eram brancos. No fundo, tudo se reduz a isto. Estamos perante novos preconceitos de matriz ideológica e cultural que inverteram os preconceitos racistas dos séculos XIX e XX. Ora, que esta inversão tenha, aparentemente, eco entre pessoas de 20, 30, 40 anos, e pareça vir cada vez mais formatada das nossas universidades ocidentais, é muito inquietante.