Crónica

Palavras, expressões e algumas irritações: resgate

Em sentido figurado, “resgate” significa “remissão”, isto é, “salvação do género humano”. Por uns dias até pareceu possível.

Tem sido mais comum usar-se o substantivo masculino “resgate” para se falar de economia, sobretudo no sentido de “empréstimo concedido a uma entidade em situação de ruptura financeira”. Nos tempos da troika em Portugal, “dívida” e “resgate” andavam sempre a par. Mas desta vez queremos reflectir sobre um significado mais feliz que o dicionário também regista, “operação de salvamento”.

Nunca a Tailândia teve tanto tempo de antena como por estes dias nem tanta solidariedade internacional. Na terça-feira, 10 de Julho, o texto com a boa notícia era este: “Os rapazes da equipa de futebol que, juntamente com o seu treinador, estavam há 18 dias presos numa gruta no Norte da Tailândia foram todos resgatados. O alívio foi de tal forma generalizado que muitos líderes mundiais reagiram.”

O exemplo que o dicionário escolheu não se refere a grutas, mas a um outro cenário que infelizmente tem sido recorrente, “resgate dos sinistrados do naufrágio”.

O verbo “resgatar” traduz-se por “libertar de cativeiro”, muitas vezes em troca de “quantia ou outra concessão exigida para a libertação de alguém preso ou sequestrado”. Não foi disso que se tratou na gruta.

Um pouco mais da boa notícia: “Finalmente é possível respirar de alívio. Os 12 rapazes da equipa de futebol Wild Boars (Javalis Selvagens) e o treinador de 25 anos saíram da gruta de Thuam Lang, no Norte da Tailândia, onde estavam presos desde o dia 23 de Junho. ‘Não temos a certeza se isto é um milagre, ciência, ou outra coisa qualquer. Todos os 13 ‘Javalis Selvagens’ estão fora da gruta’, disse a unidade de Seals da Marinha tailandesa na sua página de Facebook.”

Há outras definições, em sentido figurado, para “resgate”. São elas “liberdade” e “remissão”, esta última enquanto “salvação do género humano”. Por uns dias até pareceu possível.

A rubrica Palavras, expressões e algumas irritações encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO