Opinião

O que se passa com a História?

Enquanto os meus alunos faziam o exame, eu também o resolvi e não me chegaram os 120 minutos regulamentares

Conhecidas, na quinta-feira, as classificações dos exames nacionais do ensino secundário, depois da já esperada catástrofe na Matemática, eis que a História surge como a disciplina que registou uma das maiores quedas, 0,8 pontos, passando dos 10,3 de média do ano passado para os 9,5 este ano (média igual à de 2016). "O que se passa com a História?", questionava, em jeito de lamento, uma colega nas redes sociais...

E realmente há que procurar explicações para os resultados médios destes 15.000 alunos que realizaram o exame nacional de 2017/2018. Dei comigo, então, a pensar como grande parte do meu trabalho gira em torno deste exame. Sou professora da disciplina há alguns anos, preparo alunos para exame, sou autora de materiais pedagógicos e sou classificadora, com uma formação, certificada pelo Iave, realizada este ano letivo. O que se passa, então, com a História? De imediato, se adensa uma lista do que falha, sobretudo este ano, em que foram introduzidas grandes mudanças sem que a Informação de Prova, como seria de esperar, desse conta disso:

1. Os conteúdos objeto de avaliação são em demasia, dos nove módulos ou temas, seis saíram no exame, consoante indica a Informação de Prova, espraiando-se numa linha cronológica que se pode iniciar na Antiguidade Clássica e terminar na viragem para o nosso milénio;

2. O exame é constituído por quatro grupos de questões, todos eles com documentos de diferentes tipologias de análise e integração obrigatória nas respostas, pelo que o exame se tem revelado extenso, sobretudo o deste ano que se apresentou com inúmeras mudanças. Enquanto os meus alunos faziam o exame, eu também o resolvi e não me chegaram os 120 minutos regulamentares. Precisei ainda de dez minutos dos 30 do período de tolerância. Interrogo-me... Como conseguirão os alunos? Inevitavelmente, fazem uma análise superficial dos documentos, interpretam e redigem atabalhoadamente algumas respostas, quando não as deixam mesmo por responder.

3. As questões formularam-se de forma diferente e com subjetividade, pelo que os alunos não atingiram o que, a posteriori, os critérios específicos de correção vieram desvendar.

4. A gritante desproporcionalidade de valores atribuídos a questões de seleção e a questões de redação de uma resposta em muito penalizou os alunos. As perguntas de escolha múltipla, ordenação cronológica, resposta curta e associação passaram de 0,5 para 1 valor, e no conjunto da prova totalizavam 9 valores. São perguntas que avaliam competências básicas de domínio de informação/memorização, pelo que o seu valor é exagerado. Já as perguntas que exigem interpretação dos documentos, mobilização de conhecimentos e conceitos específicos da disciplina, integrados na redação coerente de uma resposta/texto, ficaram-se por 1,5 a 2 valores, quando anteriormente variavam entre os 2 a 5 valores. Simultaneamente, eliminaram-se os valores que se atribuíam ao domínio da comunicação escrita, numa disciplina do Curso de Humanidades!

Ao longo do 10.º, 11.º e 12.º anos, os professores de História alinham os seus instrumentos de avaliação com os moldes do exame, não só para preparar os alunos para esse momento de avaliação externa, mas para assegurarem também fiabilidade na avaliação contínua que realizam. E ao longo destes três últimos anos trabalhámos segundo um modelo e, no dia do exame, surpreenderam-nos com outro!

Sim, o Iave desrespeitou, pôs em causa, o trabalho de milhares de pessoas, professores, alunos e famílias! Mais, descredibilizou-se totalmente, no que ao exame de História A diz respeito, porque emitiu uma Informação de Prova lacunar, porque promoveu formações para professores classificadores, em que eu participei durante este ano letivo, que se revelaram desajustadas face ao exame que tivemos de corrigir, e porque construiu uma prova com falhas graves, nomeadamente na distribuição das cotações e no número de questões para o tempo de realização.

E, porque os resultados já não mudam, é àqueles milhares de pessoas que o Iave deve explicações e um enorme pedido de desculpas! Aos professores, em particular, acrescem orientações claras e fidedignas de trabalho para o próximo ano letivo!

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico