Romelu Lukaku: “Na Bélgica já não me pedem a identificação”

A surpreendente história e o exemplo de vida do melhor marcador da história da selecção belga. Nesta terça-feira, um país de muitas cores e línguas aguarda pela sua inspiração frente à França.

Lukaku após ter marcado um golo no Mundial 2018
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Lukaku após ter marcado um golo no Mundial 2018 LUSA/KHALED ELFIQI
Lukaku no jogo contra o Brasil
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Lukaku no jogo contra o Brasil SERGEY DOLZHENKO/Reuters
Lukaku no treino antes do jogo contra a França
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Lukaku no treino antes do jogo contra a França LUSA/PETER POWELL
Lukaku
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Lukaku ROBERT GHEMENT/Reuters
Lukaku no jogo contra o Brasil
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Lukaku no jogo contra o Brasil LUSA/SERGEY DOLZHENKO

“Lembro-me do momento exacto em que soube que a minha família estava falida. Não apenas pobre, mas falida. Tinha seis anos e fui a casa no intervalo da escola para almoçar. Era sempre o mesmo menu: pão e leite. Nesse dia cheguei e vi a minha mãe perto do frigorífico a misturar qualquer coisa no leite. Quando provei percebi imediatamente o que estava a acontecer. Ela tinha juntado água. Já não tínhamos dinheiro suficiente para a semana inteira.”

Aos 25 anos, Romelu Lukaku é uma lenda no futebol belga. É o melhor marcador da história da selecção. É a estrela do ataque do Manchester United de José Mourinho. É um dos imprescindíveis de Roberto Martínez neste Mundial. Será uma seta afiada apontada à baliza da França esta noite, em São Petersburgo. É também um jovem humilde que a fama não mudou. Tem uma maturidade anormal moldada por sacrifícios e uma fé inabalável.

Começou tudo há 19 anos, quando fez uma promessa a si próprio, à mãe e ao falecido avô no Congo, terra dos seus antepassados.

As declarações que ilustram a sua vida neste texto foram retiradas de alguns depoimentos pessoais — principalmente à plataforma do The Players' Tribune, à BBC, à EFPN e à ATV — que deu nos últimos anos e numa ou outra declaração que fez ao PÚBLICO, em Kazan – onde foi fundamental para retirar o Brasil do Mundial – e em São Petersburgo, na véspera da meia-final com a França. É a história de Romelu Lukaku contada por ele próprio.

“O meu pai [Roger Lukaku] tinha sido um jogador de futebol [um avançado como ele, que alinhou em clubes menores na Bélgica], mas estava no final da carreira e o dinheiro acabou. A primeira coisa a desaparecer foi a televisão por cabo. Já não podia ver os jogos de futebol. A electricidade era cortada duas ou três semanas de cada vez. Gostava de tomar banho, mas não havia água quente. A minha mãe aquecia-a numa panela e deitava-a por cima da minha cabeça com uma chávena. Comprávamos pão a crédito. Sabia que estávamos a lutar, mas quando provei o leite com água percebi que estávamos ‘acabados’. Essa foi a nossa vida.”

Nesse dia, Romelu almoçou sem se queixar. Como se nada fosse. À noite fez uma promessa a si próprio que guardou em segredo durante algum tempo.

“Foi como se alguém tivesse estalado os dedos e me acordasse. Sabia exactamente o que tinha de fazer e o que ‘ia fazer’. Não podia ver a minha mãe a viver assim. Nã, nã, nã, não podia permitir. As pessoas do futebol adoram falar sobre a força mental. Bem, eu sou a pessoa mais forte que vão conhecer. Lembro-me de estar sentado às escuras com o meu irmão e a minha mãe, nas nossas orações, e eu a pensar, a acreditar, a saber… Isto vai acontecer!”

Como sempre que chegava a casa passou a encontrar a mãe a chorar partilhou com ela o seu idílico destino. “Tudo vai mudar, vais ver. Vou ser futebolista do Anderlecht [um dos “grandes” do futebol belga].” Perguntou ao pai quando poderia tornar-se profissional da bola. “Aos 16”. Faltavam dez anos.

Jogar com raiva

“Cada jogo que joguei nas camadas infantis e jovens era uma final. Estou a falar a sério. Dava tudo. Potência total. Não tínhamos seguro de saúde, não tinha o novo FIFA [jogo de consola] nem Playstation. Não estava a brincar. Ia ‘matar’ os meus adversários. Comecei a crescer e a ficar mais alto e nunca me vou esquecer da primeira vez que ouvi um adulto desconfiar da minha idade. Aos 11 anos, jogava nos juniores do Lierse e o pai de um miúdo de outra equipa tentou literalmente impedir-me de entrar em campo. ‘Mostra-me a tua identidade? De onde é que és?’ Eu pensei: ‘De onde sou? Eu nasci em Antuérpia. Sou da Bélgica!’”

O pai não tinha carro e não podia seguir todos os jogos do filho. Ele estava sozinho e tinha de defender a honra. Foi ao balneário buscar o cartão de identidade e exibiu-o a todos os pais nas bancadas.

“Eles inspeccionaram-no e lembro-me de sentir o sangue a correr-me nas veias. Eu queria ser o melhor jogador da Bélgica. Esse passou a ser o meu objectivo. Não bom nem grande. O melhor! Joguei com muita raiva por causa de muitas coisas. Por causa dos ratos a correrem pela casa. Por não poder assistir à Liga dos Campeões e ao Mundial. Por causa da forma como os outros pais olhavam para mim. Tinha uma missão. Aos 12 anos fiz 76 golos em 34 jogos. Todos com as chuteiras do meu pai, que passei a usar quando começámos a calçar o mesmo número.”

Para além do pai e da mãe, o avô, no Congo [antiga colónia belga], era a pessoa mais importante da sua vida, com quem falava sempre que podia ao telefone.

“Ele era a minha ligação ao Congo, de onde são os meus pais. Um dia liguei-lhe e disse-lhe que o meu futebol estava a correr muito bem, que tinha marcado 76 golos, que vencemos o campeonato e que as grandes equipas começavam a reparar em mim. Normalmente ele queria saber, mas dessa vez estava estranho.

- ‘Sim Rom, isso é bestial. Mas podes fazer-me um favor?’

- ‘Claro, o que é?

- ‘Podes olhar pela minha filha, por favor?’

Fiquei muito confuso.

- ‘A mamã? Sim, tudo bem.’

- ‘Não, promete-me. Podes prometer-me? Trata da minha filha. Cuida dela por mim, está bem?’

- ‘Sim avozinho. Entendi. Eu prometo.’

Cinco dias depois ele morreu e eu percebi tudo. Fico tão triste ao pensar nisto, porque gostava que ele tivesse vivido mais quatro anos para me ver a jogar no Anderlecht. Para saber que tinha cumprido a minha promessa e que tudo ia ficar bem.”

Com a fome não se brinca

Romelu tinha prometido à mãe que se tornaria profissional e jogaria na equipa principal do Anderlecht aos 16 anos. Atrasou-se 11 dias, mas teria uma entrada em grande. Ou “de loucos”, como prefere dizer. Chegou às camadas jovens do grande clube de Bruxelas em 2006, com 13 anos.

“No início da temporada [2008-09] eu mal jogava nos sub-19 do Anderlecht. Estava quase a fazer 16 anos e resolvi apostar com o meu treinador. Disse-lhe que se me pusesse a jogar marcaria 25 golos até Dezembro. Ele primeiro riu-se muito, mas lá aceitou dar-me uma oportunidade. Garantiu que voltaria imediatamente para o banco se falhasse. Em troca, se ele perdesse limparia a carrinha que nos levava dos treinos para casa e faria panquecas para nós todos os dias. Foi a aposta mais idiota que o homem fez. Cheguei aos 25 em Novembro e começámos a comer panquecas antes do Natal. Que lhe sirva de lição: não se brinca com um miúdo que está com fome!”

Os seus números e exibições foram tão convincentes que assinou um contrato profissional com o Anderlecht a 13 de Maio de 2009, dia do seu aniversário.

“Saí do clube depois de assinar e fui comprar uma consola com o novo jogo da FIFA e um pacote de TV cabo. Estávamos no final da temporada e ia ficar em casa a descansar. Mas o campeonato foi de loucos nesse ano, porque o Anderlecht e o Standard Liége terminaram com os mesmos pontos e teve de haver um play-off a duas mãos para decidir o título. Assisti ao primeiro jogo pela televisão, como adepto.”

A final inesperada

E chegamos agora à véspera de dia 24 desse mês de Maio.

“No dia anterior à segunda mão, recebi um telefonema do treinador das reservas. Perguntou-me o que estava a fazer. Disse-lhe que me preparava para ir para o parque jogar com uns amigos:

- ‘Não, não, não. Arruma já as malas, precisas de ir para o estádio.’

- ‘O que foi? O que é que eu fiz?’

- ‘Vais ter com a primeira equipa agora.’

- ‘Hã, o quê? Eu?’

- ‘Sim, tu. Vem imediatamente.’

Corri para o quarto do meu pai.

- ‘Levanta já esse cú da cama! Temos de ir, meu!’

- ‘O quê? Ir para onde?’

- ‘ANDERLECHT, homem!’

Nunca me vou esquecer. Apareci no estádio e corri para os balneários. O roupeiro perguntou-me que número de camisola queria. Eu disse-lhe para me dar o 10. Acho que era muito novo para ter medo. Ele olhou para mim a sorrir e informou-me que os jogadores da academia só podiam escolher do 30 para cima. Pensei rapidamente e fiz uma conta rápida: ‘3+6 é igual a 9. É um número fixe. Quero o 39’.”

A sua cabeça estava à roda e quase não controlava a emoção. Nessa noite, na praxe dos estreantes, teve de cantar ao jantar no hotel da concentração. Não se lembra da música e mal dormiu.

“Saímos do autocarro no estádio e todos os jogadores vestiam um fato igual. Menos eu, que tinha um fato de treino horrível. Todas as câmaras apontavam para a minha cara e demorei uns três minutos a fazer os 300 metros até às cabines. Assim que entrei o meu telefone explodiu com mensagens. Toda a gente me tinha visto na televisão. Só respondi ao meu melhor amigo que estava incrédulo:

- ‘Mano?! Porque é que estás no jogo?! Rom, o que está a acontecer? Porque estás na televisão?’

- ‘Mano, não sei se vou jogar. Não sei o que se está a passar, mas continua a ver.’

Aos 63 minutos o treinador chamou-me. Corri para o relvado com a camisola do Anderlecht com 16 anos e 11 dias. Perdemos a final naquele dia, mas eu já estava no céu. Cumpri a promessa que fiz à minha mãe e ao meu avô. Esse foi o momento em que soube que íamos ficar bem.”

Na temporada seguinte, terminava o liceu e jogava na Liga Europa ao mesmo tempo. Levava para a escola uma grande mala e apanhava o avião à tarde. O Anderlecht venceu o campeonato com grande avanço e Lukaku foi distinguido como o segundo Jogador Africano do Ano. Nas duas épocas que esteve em Bruxelas (excluindo a tal da final) apontou 38 golos em 92 partidas. Despertou o interesse do Chelsea e seguiu para Londres.

Já conhecem o nosso nome

Não foi feliz e acabou emprestado até o seu actual seleccionador o ter recuperado no Everton: 87 golos em quatro anos. José Mourinho não lhe resistiu e levou-o para Manchester na temporada passada: 75 milhões de libras (84,5 milhões de euros). Bem empregados. O belga adora o português e é recíproco. No final do jogo com o Brasil, ao ouvir uma pergunta do PÚBLICO sobre Mourinho, voltou para trás para responder com um grande sorriso, contra as indicações do próprio director de comunicação.

“Vou falar com ele esta noite e espero que esteja contente comigo.”

Ser orientado pelo setubalense era também um objectivo antigo.

“Desde os 11 anos já sabia que ele treinava o FC Porto e tinha alguma coisa de especial. Segui a sua carreira, a forma como as suas equipas jogavam. Achava que me poderia dar alguma coisa e foi por causa dele que fui para o United. Não lhe pude dizer ‘não’. Era uma grande oportunidade.”

Esta noite, toda a Bélgica (ou quase) irá apoiar o seu grande goleador e sonhar com a final.

“Quando as coisas corriam mal na selecção os jornais chamavam-me Romelu Lukaku, o atacante belga de origem congolesa; quando corriam bem, era Romelu Lukaku, o atacante belga. Alguns riam-se de mim quando não estava a jogar no Chelsea e fui emprestado. Mas não estavam comigo quando tinha de pôr água nos cereais e não podem realmente entender-me. Se não gostam da minha forma de jogar, tudo bem. Mas eu nasci aqui. Cresci em Antuérpia, Liége e Bruxelas.”

Romelu nunca esconde o orgulho pelo país e por vestir a camisola da selecção, com a qual fez história individual e colectiva. Já não pode contar ao avô que agora todos conhecem o apelido da família.

“Falo francês, holandês, alemão, espanhol ou português, dependendo do bairro onde estiver em Bruxelas. Somos ‘todos’ belgas. É isso que torna este país fixe, não é?”