Jan Boke/Unsplash
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Megafone

A vaidade saiu do espelho para o smartphone

A tecnologia ofereceu-nos uma nova mão, a nossa terceira mão, que nos permite percepcionar o que nos rodeia de formas totalmente distintas em relação aos nossos antepassados.

O mundo em que nascemos já não é o mundo em que vivemos. O planeta, ainda que tenha vivido um tempo em que se julgou que fosse quadrado, subjugou sob todas as formas essa concepção apenas à forma como algumas pessoas vêem o mundo e o seu entorno, vivendo de julgamentos vazios, preconceitos quadrados e ruídos de fundo sobre tudo e todos.

Por sua vez, a tecnologia ofereceu-nos uma nova mão, a nossa terceira mão, que nos permite percepcionar o que nos rodeia de formas totalmente distintas em relação aos nossos antepassados.

Já a web, desde a superficialidade às profundezas, inaugurou um novo mundo que, tal como o mundo real e redondo, nos reserva o bem e o mal, o conhecimento e a desinformação, bem como uma panóplia de crimes que, não nos podemos esquecer, têm uma implicação bem real ainda que partam da esfera virtual, como a invasão e violação da nossa privacidade, que é em todas as suas formas tão grave como qualquer estirpe de violação.

A vaidade não ficou indiferente a tantas mudanças. Atravessou a linha ténue que hoje separa um espelho de um smartphone e disseminou-se espalhando os seus vícios, o seu egocentrismo e o seu narcisismo.

Quantos de nós já não activámos o espelho no smartphone ou acendemos a câmara para rectificar algum pormenor estético? Quantos millennials e demais gerações não alimentam a vaidade diariamente com milhares de selfies por minuto, levando-a do espelho de casa para todas as praças, cafés, hospitais, museus, superfícies comerciais e, por fim, para terminar o dia em grande estilo, para as suas próprias camas.

A vaidade vive dias gloriosos, putrificou o ser humano invadindo as suas vidas, metastizando tudo e todos, até aqueles cujos segundos de vida ao espelho eram como uma imagem desfocada que aparece e desaparece no ecrã num tempo que deixa de ser tempo, tal como se um segundo se desintegrasse como qualquer átomo. Porque pela manhã, antes de enfrentar o trânsito, existem dois filhos para vestir e deixar na escola, ou porque o envelhecimento desvanecer a vaidade que na juventude viveu o seu apogeu.

Como se não bastasse, a vaidade ainda arranjou o seu próprio disco rígido: as redes sociais. A vaidade partiu do espelho para os smartphones, ajudando a criar nas redes sociais autênticas vidas plásticas para inglês ver.

As máquinas fotográficas passaram a substituir as funcionalidades fisiológicas dos nossos olhos, reservando-nos uma dupla miopia: a patológica e aquela que nos desfoca a realidade porque, quando viajamos, vemos o mundo através da máquina. Em viagem, quantos minutos páras para ver o que tens na frente? E quantos minutos calcularias que perdeste a tirar fotografias? Uma vez durante a viagem ou no percurso de regresso, quantos minutos conseguiste aguentar sem partilhar nas redes sociais onde estiveste?

É irresistível partilhar aquele destino mais ou menos exótico, com ou sem um oceano pelo meio. A felicidade esbate-se instantaneamente quando, pelo reflexo do olhar, o reflexo é a vaidade e apenas a vaidade.

As férias aproximam-se e deixo um desafio: vamos deixar a vaidade no espelho de onde nunca deve sair e aproveitar estas férias com alegria, dando atenção total ao local onde estamos e a quem está connosco, beijando a vida que um dia vamos querer poder recordar quando a força do corpo já não puder acompanhar a força da mente.

Vamos mergulhar com ou sem roupa sem ter receio de ter uma objectiva pelo meio de nós... Vamos ser livres.

Desafio-te a suspender as redes sociais pelo menos neste período. Redes essas que nos aprisionam a todos e muitas vezes nos jogam no ridículo de um segundo para o outro.

Vamos de férias e não vamos partilhar nem para onde, nem como, por mais exótico ou não que possa ser o destino, ou por mais longínquo ou não que seja, podendo inclusive ser mesmo aqui ao lado da porta.

Não importa. Apenas vamos.