Morreu Steve Ditko, criador do Homem-Aranha e “Salinger da BD”

Tinha 90 anos e foi encontrado morto no apartamento onde morava, em Nova Iorque, provavelmente dois dias depois de ter morrido. Nos anos que passou na Marvel desenhou ainda, também com Stan Lee, Doutor Estranho. Toda a vida recusou o estrelato que o seu trabalho lhe poderia ter trazido, o que levou a que o comparassem com o autor de À Espera no Centeio.

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As únicas fotografias disponíveis de Steve Ditko têm décadas DR

O norte-americano Steve Ditko não é um daqueles autores de BD de uma personagem só, mas o seu nome, tal como o de Stan Lee, jamais poderá dissociar-se de Homem-Aranha, um dos mais populares heróis das histórias aos quadradinhos de sempre, criado por ambos em 1962. Ditko foi encontrado morto no seu apartamento em Manhattan, Nova Iorque, a 29 de Junho. Tinha 90 anos e manteve, até ao fim, uma postura reservada que o fazia rejeitar qualquer mediatização da sua vida privada. As autoridades acreditam que terá morrido dois dias antes, escreve a Hollywood Reporter, revista especializada em notícias da indústria do cinema.

“Nunca nos aproximamos dele. É como [o escritor J. D.] Salinger”, o autor-recluso de À Espera no Centeio, disse à mesma publicação em 2016 o realizador Scott Derrickson, responsável por adaptar ao cinema as aventuras de Doutor Estranho, num filme em que quem veste a pele do jovem e arrogante neurocirurgião com super-poderes é o actor britânico Benedict Cumberbatch. “[Ditko] é tímido e tem-se afastado intencionalmente dos focos [mediáticos]”, acrescentou, resumindo assim uma atitude perante o estrelato que não poderia ser mais diferente da de Stan Lee, hoje com 95 anos. Quase nunca dava entrevistas e recusou-se, até, a aparecer no documentário que lhe dedicaram e que estreou em 2007 no Canal 4 da BBC, In Search of Steve Ditko, do jornalista Jonathan Ross.

Entre os poucos com quem aceitou falar nos seus últimos anos de Marvel está o britânico Neil Gaiman, autor de best sellers como Deuses Americanos (romance) e Sandman (BD), que na sexta-feira, dia em que a polícia americana divulgou a notícia da morte do co-criador de Homem-Aranha, falou ao diário The Washington Post sobre o “génio” de Ditko e sobre o que fazia dele uma pessoa singular. “O seu material de Doutor Estranho era um quebra-cabeças”, disse Gaiman, há muito radicado nos Estados Unidos. “[O Doutor Estranho] era glorioso… e era o Steve em estado puro. O que ele nos trouxe foi grandeza e uma visão sobre outras dimensões.”

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Paixão paterna

Nascido em Novembro de 1927 no estado norte-americano da Pensilvânia, Steve Ditko herdou do pai — um operário de siderurgia aficionado do histórico Príncipe Valente de Hal Foster, que aparecia nas páginas do seu jornal de domingo — a paixão pela BD, inicialmente consolidada com a leitura das aventuras de Batman, personagem mítico que apareceu em 1939.

Depois de sair do Exército, onde se alistara em 1945 e cumprira o serviço militar na Alemanha do pós-guerra, onde chegou a desenhar tiras de BD para um jornal militar, mudou-se para Nova Iorque para estudar ilustração com Jerry Robinson, um dos artistas que criara o universo de Batman (com Bob Kamp e Bill Finger).

Foi Robinson quem o apresentou a Stan Lee, que trabalhava já com a Atlas Comics, precursora da Marvel Comics, editora para a qual Ditko começaria a trabalhar em 1955, dois anos depois da sua estreia oficial como autor de BD. Foi Lee, que viria a ser o director executivo da Marvel, quem teve a ideia de criar um super-herói adolescente com poderes inspirados nas aranhas, precisa a BBC no seu site, mas foi Ditko quem lhe desenhou o fato vermelho e azul que o torna imediatamente identificável, um clássico que o transformou num verdadeiro ícone pop, e quem decidiu que usaria disparadores de teias nos pulsos, para “voar” de arranha-céus em arranha-céus.

Lee e Ditko criaram o Homem-Aranha sem adivinhar, ao que parece, o sucesso que viria a ter junto de gerações e gerações de leitores. Conceberam-no como um adolescente com os problemas comuns a tantos outros, mas particularmente solitário e curioso. Chamaram-lhe Peter Parker e fizeram dele um órfão criado em Nova Iorque por um casal de tios, Ben e May, que ganha os poderes que usa no combate ao crime — a capacidade de aderir a praticamente todas as superfícies, a possibilidade de disparar teias de aranha e de pressentir o perigo (o seu “sentido aranha”) — ao ser picado por uma aranha radioactiva.

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Além de ter contribuído de forma decisiva para a personagem de Homem-Aranha, Ditko também se envolveu na criação de alguns dos vilões do seu mundo, como o Duende Verde, o Lagarto e Dr. Octopus.

A ruptura com Stan Lee

O autor deixou a Marvel em ruptura com Lee, sem nunca explicar claramente por que o fizera. Os dois estiveram, aliás, anos sem se falarem. No meio dos comics sempre se suspeitou que Ditko e Jack Kirby, outro dos nomes fortes da editora e o ilustrador a quem Lee começou por pedir que desenhasse o Homem-Aranha, sem nunca ter ficado satisfeito com o que ele apresentara, achavam que o editor-chefe não lhes dava o merecido crédito pelo que tinham feito no universo Marvel, estando mais interessado na autopromoção do que em reconhecer com justiça quem tinha feito o quê.

“Sempre me senti fascinado pela sua maneira de ver as coisas, que era muito mais mundana, muito mais real e muito mais preocupada com escolhas morais do que a de qualquer outro autor de BD, acrescentou ao Post Neil Gaiman, dando como exemplo a dupla que criou com Steve Skeates para a DC Comics, Rapina e Columba (Hawk and Dove, no original). A complexidade dos cenários que desenhava e das suas personagens, continua, são imagens de marca deste autor que trabalhou também para a Charlton e para pequenas editoras independentes, mesmo depois de ter regressado à Marvel em 1979, colaborando nas aventuras do Homem-Máquina e dos Micronautas, precisa ainda a Hollywood Reporter. Entre as suas últimas criações está a Rapariga Esquilo (Squirrel Girl, no original), com o guionista Will Murray.

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Escolhendo viver numa quase reclusão, Steve Ditko passou a rejeitar praticamente todos os pedidos de entrevista que recebia desde o começo dos anos 1970. Também não se deixava filmar nem fotografar, o que explica o facto de os obituários que agora estão a ser publicados pelos jornais, revistas e sites da especialidade estarem a usar imagens da década de 1960 ou do seu Homem-Aranha. “Quando faço um trabalho, não é a minha personalidade que estou a oferecer aos leitores, mas a minha arte. Não é o que eu sou que conta”, disse numa das suas raríssimas entrevistas, em 1969.

Nem o estrondoso sucesso de bilheteiras das adaptações cinematográficas de Homem-Aranha e Doutor Estranho o fizeram abdicar da sua privacidade. Para ilustrar este desejo – e esta ética – de se manter inviolável na intimidade, Neil Gaiman recordou ao Post o dia em que o visitou no seu escritório em Nova Iorque, com Jonathan Ross, que então preparava In Search of Steve Ditko: “Nós subimos, batemos à porta e ele apareceu e ficou a conversar connosco no corredor durante 25 minutos. Respondeu a todas as perguntas do Jonathan e depois foi lá dentro e regressou com um punhado de livros de BD […] Lembro-me dele como sendo muito, muito amável e, ao mesmo tempo, muito reservado.” Quando o jornalista da BBC lhe pediu para tirar uma fotografia com ele, Ditko disse-lhe simplesmente “não”, sem avançar qualquer justificação para a recusa.

“Ele desenhava as coisas à sua maneira. Via as coisas à sua maneira. Acho que todos tivemos muita sorte em tê-lo”, disse ainda ao diário norte-americano o autor de Sandman, falando de um criador muitas vezes copiado mas nunca igualado.

Até ao fim da vida, Ditko manteve um estúdio em Manhattan onde escrevia e desenhava, escreve a Hollywood Reporter, admitindo que ninguém conhece o volume de material inédito que lá guardará. Também não se sabe se o autor deixa descendentes ou se alguma vez casou. O privado é assim mesmo – privado.