Crónica de jogo

Espanha chocou contra o kremlin de Stanislav Cherchesov

Após um empate a um golo durante os 120 minutos, Igor Akinfeev defendeu duas grandes penalidades e colocou a Rússia nos quartos-de-final do Mundial 2018.

A Espanha também caiu nos "oitavos"
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A Espanha também caiu nos "oitavos" Reuters/ALBERT GEA

O Kremlin foi, até 1991, a sede do governo soviético e, desde essa altura, é a residência oficial dos chefes de estado da Rússia. Mas kremlin, em russo, significa também “recinto murado”. E foi contra um kremlin meticulosamente construído por Stanislav Cherchesov que a Espanha chocou na sua despedida do Mundial 2018. Usando as armas que tinha, o seleccionador russo conseguiu anular uma desvantagem alcançada cedo pelos espanhóis e depois confiou nos deuses, e em Igor Akinfeev: após uma igualdade (1-1) durante 120 minutos, o guarda-redes do CSKA travou os remates de Koke e Aspas no desempate por grandes penalidades. A Espanha está fora do Mundial 2018 e está confirmado o segundo milagre da Rússia. 

Com a medalha ao peito de ter sido o primeiro seleccionador russo a conseguir ultrapassar a fase de grupos de um Mundial após o colapso da União Soviética, Cherchesov tinha a missão mais do que cumprida do seu lado quando russos e espanhóis entraram no relvado do Estádio Luzhniki.

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Desacreditado antes da estreia na prova, o antigo guarda-redes do Spartak Moscovo contrariou todas as previsões ao alcançar o apuramento para os oitavos-de-final, mas na antevisão do duelo com os espanhóis, reconhecendo o favoritismo do adversário, socorreu-se de uma velha máxima soviética para apelar ao apoio dos patrióticos adeptos russos: “Todos podemos ser Deus se tentarmos.”

Só que Cherchesov não se limitou a colocar as suas fichas na ajuda divina. Ao contrário do que tinha acontecido na partida anterior contra o Uruguai, em que a selecção do Kremlin foi penalizada por tentar jogar olhos nos olhos com os carrascos de Portugal, frente à Espanha Cherchesov não teve pudor em assumir que do outro lado estava um oponente com mais trunfos. Assim, o técnico russo deu um passo atrás e montou a sua equipa em 5x3x2.

A aposta em três centrais implicava o sacrifício do russo que mais se tinha destacado nos dois primeiros jogos (Chéryshev), mas o talentoso Golovin, apontado como possível reforço do Chelsea, regressava à equipa para fazer dupla no ataque com Dzyuba. A estratégia de Cherchesov era compreensível, mas quase ruiu ao primeiro impacto.

Iniesta começou no banco

Sem qualquer derrota no currículo desde que tinha sido batida pela Itália nos oitavos-de-final do Euro 2016, os problemas da Espanha começaram antes mesmo da estreia. A saída de Lopetegui na véspera do jogo com Portugal não pareceu afectar de imediato a “roja”, mas os problemas para Fernando Hierro não demoraram a surgir. Após exibições medíocres contra Irão e Marrocos, as críticas surgiram em catadupa e o improvisado seleccionador optou por abdicar de início do último herdeiro do tiki-taka: Iniesta começou no banco.

Sem surpresa, o jogo começou com a bola a correr em pés espanhóis, mas sem ter feito nada por isso, a “roja” marcou: após um livre, Ignashevich embrulhou-se com Ramos na pequena área e a bola acabou por entrar na baliza de Akinfeev. O capitão espanhol festejou, mas foi o central do CSKA que fez o 10.º golo na própria baliza do Mundial 2018.

Uma vantagem espanhola tão cedo perante uma equipa formatada para defender, fazia prever o primeiro jogo convincente para Hierro. Só que após marcar, a Espanha recuou e foi dando confiança aos russos.
Golovin deixou a primeira ameaça e, quase de imediato, Piqué tocou a bola na área com o braço. Dzyuba agradeceu para fazer o seu terceiro golo na prova. Com tudo novamente empatado, Cherchesov regressou ao plano inicial e com o apoio dos adeptos, que compreendiam a estratégia da sua selecção, a Rússia voltou a entregar a bola aos espanhóis.

O que se assistiu depois foi uma espécie de jogo de andebol, com os russos à entrada da sua área e os espanhóis a trocarem a bola de um lado para o outro à frente dos seus opositores. Quase sempre em ataque passivo, o que em andebol seria penalizado, a Espanha teve mais de uma hora a bola nos pés, mas sem saber o que fazer com ela. Até que se cumpriu o objectivo do seleccionador russo. Após 120 minutos, o passaporte para os quartos-de-final de Sochi foi decidido na marcação de penáltis. Os deuses de Cherchesov e Akinfeev fizeram o resto. Pela quinta vez, a Espanha caiu num Mundial aos pés do país anfitrião.