Crónica

O sofredor-mor

Aconteceu o que toda a gente sabia que ia acontecer: Espanha e Portugal foram apurados. Fizeram-no foi da maneira mais tortuosa e levada da breca, raios os abençoem.

O jogo com o Irão não poderia ser mais bem concebido para nos fazer sofrer. A Espanha estava a perder, nós estávamos a ganhar por um a zero e parece haver um penálti a nosso favor. Será que o árbitro marca? Lá vem ele depois de ter visto o vídeo. Sim, marcou!

Este é o ponto mais alto da nossa felicidade. É Cristiano Ronaldo que vai marcar. Já estamos praticamente no dois a zero. Podemos respirar. Até podemos darmo-nos ao luxo de ir à casa de banho ou deixar entrar o gato.

A partir daí o Grande Arquitecto fez tudo para nos inquietar. O penálti não entrou. Ficámos no um a zero. Agora há um penálti contra nós. Empataram. Estamos tramados. A Espanha conseguiu empatar. Já não vamos ganhar o grupo. Já não temos vantagem sobre o Irão. Só faltou o Irão marcar um segundo golo e nós ficarmos fora dos oitavos-de-final.

Felizmente temos em Fernando Santos a personificação do sofrimento de todos os portugueses. Ele é incapaz de ser desonesto, muito menos fingido. A linguagem corporal dele é camoniana na fidelidade de expressão. No rosto e sobretudo na boca estão o espelho do que lhe vai na alma.

É o equivalente gestual de perguntar à queima-roupa a Fernando Santos se tinha alguma coisa a dizer sobre a morte de Eusébio e ele coçasse o queixo e improvisasse "Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo desta vida, descontente...".

Aconteceu o que toda a gente sabia que ia acontecer: Espanha e Portugal foram apurados. Fizeram-no foi da maneira mais tortuosa e levada da breca, raios os abençoem.