Crítica

Frankenstein amarrado

Primeiro filme internacional de uma das poucas mulheres cineastas da Arábia Saudita. Exercício de filme de época, aniquila a possibilidade de algo de realmente pessoal, idiossincrático, crescer lá dentro.

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Frankenstein, filme
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Haifaa Al-Mansour é uma das poucas mulheres cineastas da Arábia Saudita, e a primeira a encontrar uma proeminência internacional. Por cá chegámos a ver a sua longa de estreia, Wadjda, tido como o primeiro filme saudita feito por uma mulher, e um objecto curioso para além das suas características de “fenómeno”. Mas a “proeminência internacional” é uma faca de dois gumes. Mary Shelley, fragmento biográfico da autora de Frankenstein, primeiro filme “estrangeiro” de Haifaa, parece ser mais um caso desses.

Percebe-se – apesar de ser a Inglaterra do princípio do século XIX – o que liga uma mulher saudita ao universo retratado no filme: também ali as mulheres podem pouca coisa, e são intelectualmente desconsideradas (é à personagem de Lorde Byron, que Tom Sturridge faz tão obnóxio quanto possível, que em particular corresponde este papel).

Também se percebe o fascínio ambíguo pela personagem de Percy Shelley, veículo de um romantismo libertário a tender para auto-destruição (e por isso, a inspiração para o monstro inventado pela escrita de Mary). Mas depois, todos estes elementos são dissolvidos num convencionalíssimo exercício de filme de época, que aniquila a possibilidade de algo de realmente pessoal, idiossincrático, crescer lá dentro