Crónica

Não quero ir à escola!

Parece nítido que a escola de hoje tem imensa dificuldade em produzir o essencial espírito crítico que é capaz de questionar, investigar, elaborar, criar.

A criança contorcia-se, tentando libertar-se da mão que lhe agarrava o pulso e gritava que não queria ir mais à escola, perante a firmeza da mãe. A cena é comum no início do ano escolar. Agora, no final, menos. Não faço ideia das razões, mas transportou-me de imediato para um filme que vi há muitos anos e que não esqueci, As Crianças (1985), da escritora e realizadora francesa Marguerite Duras.

 A personagem principal era uma criança de sete anos (com a particularidade de ser interpretada por um actor de quarenta) que um dia chegava a casa e dizia que não queria voltar à escola, argumentando que os professores só lhe ensinavam coisas que ele já sabia. O ponto de partida é filosófico, no limite interrogando modelos de aprendizagem, num balanço entre o que é essencial e acessório.

No início o espectador fica perplexo com o paradoxo da situação, num filme com um palpável sentimento infantil, mas com o decorrer do mesmo somos também expostos às absurdas e normalizadoras alegações dos pais tendentes a convencer a criança a voltar à escola.

Fica-se, no mínimo, dividido. Por um lado, é como se o filme nos pedisse para o decifrar com os olhos de um recém-nascido que os abre pela primeira vez numa sala de cinema, por outro registamos e projectamo-nos nas reacções paradoxais dos adultos perante o receio concreto de educar crianças. Esse terror está aliás na ordem do dia.

À minha volta vejo imensa gente assim. Tudo é escrutinado com imensa ansiedade pelos pais, desde os gestos quotidianos dos filhos, à escola que frequentam. Nesses dias penso no filme de Duras. Na escola aprendem-se muitas coisas estruturadoras para a vida, mas também não tenho dúvidas que se pode desaprender algum do saber essencial que temos antes de entrarmos numa sala de aula, de tal forma nos são impingidas coisas que nos são inúteis e, em alguns casos, mesmo nocivas. O que fazer perante este cenário?

Não há uma resposta fácil. Já fui aluno, e a alguns professores devo-lhes imenso, e também já fui professor, e com alguns alunos aprendi muito, mas sou crítico da educação actual. Sei que existem imensas correntes e que há muitas excepções para a regra genérica que enuncio necessariamente de forma simplista, mas parece nítido que a escola de hoje tem imensa dificuldade em produzir o essencial espírito crítico que é capaz de questionar, investigar, elaborar, criar.

Na maior parte dos casos o indivíduo surge para a educação como um ser genérico e anónimo que só pode ser construído como objecto, ou seja, mercadoria utilitária para cumprir com as regras de um mundo competitivo, baseado na utopia do crescimento económico infindável. Não consumimos saber, mas signos de prestígio. A educação torna-se atraente na medida em que cria símbolos de poder e estatuto social. Diz-me em que escola tens os teus filhos e dir-te-ei se pertences ao meu grupo. Ou seja, na sociedade que temos vindo a construir obtêm-se cursos, adquirem-se competências e um conjunto de referências culturais apenas para fins de diferenciação simbólica.

Reina o contrário do desenvolvimento do livre pensamento, da autonomia e do espírito crítico. Nas escolas prevalece a ideia de que existe alguém que tem tudo a ensinar e outrem tudo a aprender, como se não fosse possível uma simetria de inteligências, onde o saber não se decora apenas, mas pensa-se, constrói-se e experimenta-se em conjunto. Como assinalava nestas mesmas páginas há duas semanas o investigador e professor universitário Jorge Ramos Do Ó, num excelente artigo (Vincennes, o desejo de aprender na universidade e as nossas vidas), “ensinar corresponde a uma busca e a uma prática da permutação ou da intersecção. Do diálogo efectivo. Um espaço em que todos explicitam o desejo de saber e a sua procura incessante.”

Se um dia destes a minha filha se virar para mim e disser, como no filme de Marguerite Duras, que não quer ir à escola porque não aprende lá nada que já não saiba, claro que a tentarei demover, e não será apenas pela pressão social. É porque acredito que a cultura, o saber e o conhecimento são infinitos. Todos podemos aprofundar o nosso saber que nunca o esgotaremos. Melhor: quanto mais o aprofundarmos, menos esgotaremos os recursos limitados do planeta, e mais aptos estaremos para encontrar outros modelos de desenvolvimento económico. Mas se queremos privilegiar outras formas de satisfação colectiva é preciso darmos atenção a outras formas de aprendizagem, diferentes das que temos arquitectado.

Nesse sentido compreende-se a alegoria de Marguerite Duras quando mostra que os adultos também têm a aprender com aquilo que foram desaprendendo com os anos. Sabemo-lo porque já fomos crianças. E temos isso também presente agora que somos pais. Mesmo quando se tem filhos muito novos, podemos ter a certeza que aprenderemos, pelo menos, tanto com eles, como eles connosco, devolvendo-nos eles muito do essencial que fomos esquecendo com os anos, entulhados que estamos nas mais diversas inutilidades sociais. É como um grito. Eles, por vezes, ainda não sabem dar um sentido preciso ao grito. Nós, com o tempo, esquecemo-nos de gritar, sem ter de lhe atribuir um sentido preciso. O ideal é gritarmos juntos, para aprender.