Opinião

A palavra de hoje é medo

É muito provável que esta prática seja abandonada em breve, até pelo coro de críticas que tem recebido nos Estados Unidos, designadamente dentro do Partido Republicano e de grupos religiosos. No entanto, já cumpriu a sua triste função.

As autoridades norte-americanas, sob a égide de Donald Trump, aplicam agora uma nova tecnologia de controlo da imigração económica proveniente da América Latina, que, em linguagem directa, chama-se medo e tortura.

Depois de terem aparentemente desistido de construir um muro que fecharia por completo a América a Sul (uma ideia que funcionou bem em campanha eleitoral, num país capaz do mais complexo, mas sempre seduzido por ideias simples e visuais), mesmo ele existindo já em boa parte, a Administração terá chegado à conclusão que, uma vez que boa parte destes imigrantes irregulares viajam em família, com crianças pequenas, nada melhor do que separar os filhos dos pais à chegada e enclausurar crianças de quatro, cinco, seis anos em gaiolas, capoeiras, jaulas, celas colectivas – há muitos nomes adequados em português – em choro lancinante, para assustar quem procura a sua nova oportunidade na América. Pais e filhos pequenos em campos de detenção distintos, eis a simplicidade da nova política.

A CNN tem mostrado à exaustão, recorrendo a gravações não autorizadas, o sofrimento destas crianças e o modo como a polícia de fronteira as trata. As imagens e os sons recordam outras imagens e outros sons que estamos talvez mais habituados a associar à CNN, em partes do mundo que não se chamam América. Eles estão também bem patentes, por exemplo, no website de investigação jornalística ProPublica (www.propublica.org).

Lembro-me de, há talvez dez anos, ter estado em San Diego, sul da Califórnia, do outro lado da fronteira com Tijuana e, numa associação de protecção de imigrantes, me ter sido dito que já então era muito complicado prestar qualquer apoio a imigrantes não autorizados, pelas dificuldades criadas pelas autoridades, pela impossibilidade legal de terem apoio jurídico, pela dependência quase exclusiva da caridade... No entanto, era muito claro quem trabalhava nos campos e nos pomares da Califórnia. Parece que as coisas, portanto, nunca melhoram para alguns.

É despiciendo, creio, comentar o que significa usar a separação de crianças de quatro e cinco anos dos seus pais, à entrada no desconhecido, como ferramenta de controlo da imigração. É também pouco relevante ver assessores de Trump em directo nas televisões a explicar que, após a separação dos pais, lhes oferecem acesso a videojogos e batatas fritas, o que na sua visão será um upgrade extraordinário na qualidade de vida daquelas crianças, que também beneficiam aliás do incentivo adicional proporcionado pelos polícias, por exemplo comentando, como se ouve num vídeo, “Mas temos aqui uma orquestra!”, perante o choro descontrolado das crianças enjauladas e longe dos pais. A melomania policial sempre foi um excelente remédio para a pobreza, como todos sabemos.

É muito provável que esta prática seja abandonada em breve, até pelo coro de críticas que tem recebido nos Estados Unidos, designadamente dentro do Partido Republicano e de grupos religiosos. No entanto, já cumpriu a sua triste função, que foi criar a percepção, para o apoio eleitoral de Trump, de que há algo de eficaz a ser feito e, para os potenciais imigrantes, de que as coisas vão ser mesmo duras e mais vale pensar duas vezes antes de tentarem o salto. Num país construído pela imigração ao longo dos últimos dois séculos, é obra.

E a Europa? Não estamos muito longe disto, como sabemos. Não vale a pena grandes comoções de crítica à América de Trump.

O leste europeu vive como sempre viveu, sentindo-se ameaçado por tudo o que está do outro lado da fronteira, seja esta qual for. A Inglaterra está de saída, após deliberação democrática, e o receio da imigração cumpriu aí um papel decisivo. A Itália está numa senda pró-Trump. Os países escandinavos vivem cada vez menos a sua má consciência de países ricos. Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Espanha – todos acusam o peso da imigração, da integração difícil, da sensação de insegurança, da ameaça do terrorismo de reclamação islâmica.

Não está a Europa unida em matéria de imigração e de acolhimento de refugiados, como se lê nos jornais? Não é verdade. Está mais do que unida. Os europeus não os querem cá, é muito claro.

Os franceses que vieram viver para Portugal nos últimos anos não o fizeram essencialmente por razões fiscais. Fizeram-no porque estão fartos de se sentirem obrigados a atravessar a rua para não se cruzarem com um grupo de árabes. Fizeram-no por medo. É isto bonito? Não é. Mas é verdade. E a verdade, por vezes, tem de ser ponderada nas decisões políticas, mesmo numa Europa que se habituou, desde a Segunda Guerra, a ter melhores políticos do que a média dos seus cidadãos, por mais que os execremos até à exaustão (com Merkel à frente). O populismo é só isto: oferecer a decisão política à mediania, quando era preciso sermos sempre melhores do que isso.