Crítica

Conflito, reparação e reconciliação na família Carter

Os Carters são Beyoncé e Jay-Z, que num álbum a dois, reflectem sobre a sua relação e o mundo.

Beyoncé, Jay Z, tudo é amor
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Em 2003, quando entrevistámos Beyoncé, havia rumores de que teria iniciado uma relação com Jay-Z. Era uma altura em que ela separava com nitidez a vida pública da privada, atitude que manteve durante anos. Beyoncé era então uma cantora global que se lançava a solo, depois de anos com as Destiny’s Child, e Jay-Z era um dos nomes mais venerados do rap. Talvez por isso a imprensa dizia que Beyoncé, do ponto de vista da credibilidade artística junto de um público transgeracional, tinha mais a ganhar com a relação do que Jay-Z.

É discutível. Mas, ainda que assim fosse, essa equação deixou de fazer sentido. Se hoje existe uma cantora que domina a pop de massas, do ponto de vista industrial e artístico, é ela, superando largamente o efeito que o marido ainda desencadeia.

São milionários, os dois, podendo o seu poder — simbólico e real — ser aquilatado pelo vídeo da canção Apeshit, filmado no Louvre, em diálogo com a história da arte. Construíram a família e o império The Carters, mas nos últimos anos Beyoncé tem brilhado mais do que o marido. Curiosamente, os dois melhores álbuns dos dois na última década giram em torno da relação: Lemonade (2016), de Beyoncé, e 4:44 (2017), de Jay-Z

Claro que ambos são atravessados por questões sociopolíticas, o que é mais verdade em relação a Beyoncé (que tem insistido nas questões da negritude e do feminismo), mas acima de tudo é o amor, no sentido mais universal, ou mesmo no âmbito mais particular das atribulações do seu casamento, que é abordado. Como Jay-Z já afirmou, é como se, depois de a relação ter entrado em zonas de conflito, os dois tivessem tido necessidade de se reposicionar enquanto figuras públicas e também entre eles, processo que contaminou os seus trabalhos artísticos.

É neste contexto que agora é lançado Everything Is Love, assinado pelos dois, como a conclusão de uma trilogia terapêutica. Depois dos conflitos, eis o álbum da reconciliação, numa narrativa que os dois foram construindo a partir dessa ideia real de que todos os relacionamentos passam por altos e baixos e é preciso resiliência e compreensão para os superar. E quando isso acontece é a relação que acaba por sair fortalecida.  

Se antes tínhamos tido acesso às versões de Beyoncé e de Jay-Z, através dos seus respectivos álbuns, aqui acedemos ao elo que os atravessa. Nem tudo o que se ouve tem espessura (por vezes é o preço a pagar quando se tenta comunicar globalmente), mas é quase sempre estimulante. As batidas hip-hop são lúdicas e lânguidas, inventando sempre espaço para acolher os mais diversos elementos, e as vozes de Beyoncé e Jay-Z completam-se, com ela a mostrar os seus dotes como rapper.

A lista de créditos é extensa (entre outros, Pharrell Williams, Ty Dolla $ign, Boi-1, Dave Sitek, Cool & Dre ou James Fauntleroy), mas o que domina são os ambientes envolventes próximos da soul, os dinamismos rítmicos do hip-hop e esse jogo verbal que os aproxima quase sempre de uma sensualidade marcada pela compreensão.

Nesse sentido, é uma obra menos convulsa do que os dois álbuns a solo, mas é um refrescante capítulo final onde ambos assumem não só as responsabilidades autobiográficas, como também se põem em causa enquanto celebridades negras multimilionárias, num vértice de múltiplas leituras onde as dimensões privadas e públicas, e as fronteiras entre entretenimento, arte ou activismo, podem ser reflectidas.

Se juntarmos a tudo isto uma sonoridade caleidoscópica, tão clássica quanto relaxada, assente no hip-hop, percebe-se porque é que a dinastia dos Carters parece ter asas para perdurar.