Crítica

A grande cowboyada europeia

Um olhar, um gesto, uma maneira particular de mexer as ancas (como nos westerns…) pode ser toda a razão de ser de um plano. É um muito, muito bom filme.

Um misto dos heróis proletários que desapareceram do cinema europeu e de uma allure de cowboy
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Um misto dos heróis proletários que desapareceram do cinema europeu e de uma allure de cowboy
Western, Alemanha, Festival Internacional de Cinema de Roterdã
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Bernhard Keller, ocidental, Valeska Grisebach, Festival de Cannes, Festival Internacional de Cinema de Toronto
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Mula, para dormir assim como para sonhar
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Western, Valeska Grisebach, Festival Internacional de Cinema de Toronto, Alemanha
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Western, New Horizons Film Festival, Festival Internacional de Cinema de Toronto, Festival de Cannes
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Valeska Grisebach é uma cineasta que se faz demasiado rara. Western é o seu terceiro filme (e o primeiro a chegar ao circuito comercial português), e interrompe um silêncio de mais de dez anos a seguir às duas óptimas obras iniciais (Mein Stern e Sehnsucht), entre 2001 e 2006. Associada àquilo a que os críticos, nessa época, chamaram a “escola de Berlim” (e que designava mais um ar de família entre cineastas de temas e estilos bastante diferentes do que propriamente um movimento concertado e coerente), ainda é hoje próxima de outro nome dessa geração, Maren Ade, a autora do bem conhecido Toni Erdmann. Grisebach colaborou nesse filme, assim como Ade colabora em Western. Há mais em comum entre os dois filmes, um movimento geográfico semelhante: Toni Erdmann mostrava os alemães (e o seu poder económico) na Roménia, Western mostra os alemães (e o seu poder económico) na Bulgária.

E é isso, o western, título que o filme enverga com uma plétora de significados. Seguimos um grupo de trabalhadores alemães algures nos confins da Bulgária, perto da fronteira, a sul, com a Grécia, que aí se deslocam para trabalhar na construção de uma central hidroeléctrica. Para a maioria deles, tudo aquilo é como território selvagem, longe da lei e da civilização, e o sentimento de superioridade é quase congénito. São como um reflexo distorcido (ou não tão distorcido assim) dos pioneiros que no século XIX avançaram na “conquista do Oeste” americano, convictos duma espécie de superioridade cultural sobre os autóctones – e não é por acaso que um dos gags mais divertidos deste filme (que pode ser descrito como uma comédia muito ao retardador, que faz sorrir no geral sem fazer sorrir em quase nada de particular) envolve uma bandeira alemã (até porque muitos dos habitantes locais se lembra ainda, e conta histórias sobre isso, de quando os alemães marcharam sobre os Balcãs). O olhar de Grisebach é, nesse aspecto, duplamente irónico: dá uma visão, mais ou menos caricatural, do olhar dos alemães sobre a Europa antigamente chamada “de Leste”, e devolve o olhar dessa Europa sobre os alemães. Olhares que não coincidem nem comunicam, e quando comunicam é pela violência e pela prepotência, como na cena do rio em que um dos operários importuna uma banhista. Porque o olhar sobre os alemães é também o olhar de uma mulher sobre os homens, retratados num caldo de violência e bazófia machista, que Valeska se diverte a descrever até nos seus aspectos inadvertidamente (?) homoeróticos (a cena, quase “romântica”, em que cuidam do cabelo uns dos outros).

Podíamos ainda acrescentar as referências aos refugiados (estamos naquele corredor da imigração vinda do Médio Oriente que são os Balcãs) para reforçar a quantidade de “comentário”, sempre obscuro (quer dizer, sem retórica), sempre mordaz, que um filme como “Western” contém. Mas há que falar do seu “herói positivo”, Meinhard (um actor amador, Meinhard Neumann, que partilha o nome real com o da personagem), e que é outra forma de declinar o western, agora como género. Com o seu rosto escavado e endurecido, com o seu bigode nada cool, Meinhard é um misto daqueles heróis proletários que desapareceram do cinema europeu (mas que podia estar num Fassbinder, por exemplo) e de uma allure de cowboy, solitário e lacónico (mais Gary Cooper do que John Wayne), provido de um sentido de justiça e moralidade que o recorta da nuvem dos seus compatriotas (como os cowboys cavalheirescos de antanho, não suporta, por exemplo, ver uma mulher ser maltratada). Valeska oferece-lhe mesmo um cavalo, para que o jogo dos ecos com o western e os cowboys vá tão fundo quanto possível. Meinhard é o único a relacionar-se com o meio ambiente, como naqueles westerns (o Forte Apache ou o She Wore a Yellow Ribbon de Ford, por exemplo) em que uma personagem, para além das pressões políticas e militares, se interessa pelos índios e os trata como iguais. Essa personagem, aqui, é Meinhard, e sem que o olhar sobre ela abandone uma certa duplicidade (há um mistério naquele homem, reforçado pelo laconismo e pelas alusões ao passado) é ela que serve de intérprete do ponto de vista da câmara de Valeska Grisebach, que descobre o território a partir dele e das suas deambulações.

Com estes elementos, e num ambiente novo, a realizadora constrói aquele tipo de cinema que já conhecíamos dos primeiros filmes, uma espécie de realismo entre a contemplação e a atenção a “micro-acontecimentos” – um olhar, um gesto, uma maneira particular de mexer as ancas (como nos westerns…) pode, em muitas ocasiões, ser toda a razão de ser de um plano. É um muito, muito bom filme.