Crítica

O ouro de Chico no país do alecrim

Chico Buarque está em excelente forma. Comprova-o Caravanas, espectáculo que esgotou seis coliseus em Portugal e que é um belo e inspirado retrato da sua arte.

Concerto de rock, baterista, músico
Fotogaleria
Chico Buarque no Coliseu de Lisboa MIGUEL MANSO
,
Fotogaleria
Chico Buarque no Coliseu de Lisboa MIGUEL MANSO
Concerto de rock, baterista, teatro musical
Fotogaleria
Chico Buarque no Coliseu de Lisboa MIGUEL MANSO
Concerto de rock
Fotogaleria
Chico Buarque no Coliseu de Lisboa MIGUEL MANSO
Concerto de rock
Fotogaleria
Chico Buarque no Coliseu de Lisboa MIGUEL MANSO

Chico Buarque esgotou seis coliseus em Portugal pela fama que lhe advém da arte: é irresistível partilhar um mesmo espaço com um dos maiores criadores de canções de sempre (e não só do Brasil), canções que fazem parte de uma memória universal. Mas se os esgotou pela fama, conquistou-os pelo mérito. A concepção e concretização de Caravanas, espectáculo tão profissional quanto emocional, sem truques de atracção fácil, mereceu (e merece ainda) todos os aplausos que lhe foram concedidos, alguns acompanhados daquilo a que poderemos chamar “pateada positiva”, ou aplausos com os pés (por norma, a pateada equivaleria a uma vaia ou a um juízo depreciativo, e assim foi usada no passado muitas vezes, não raro acompanhada de um sonoro “uuuuh”). É claro que, à simples entrada em palco, já o público se mostrava rendido, cada qual a aplaudi-lo pela memória que dele guarda: antiga, recente, esporádica, obsessiva.

A isto, respondeu Chico Buarque com o presente (absorvendo nele o passado): as canções surgiram com arranjos novos, às vezes surpreendentes (como o toque de hip-hop quase no final de Partido alto), mas com o claro propósito de dar consistência e unidade sonora ao discurso temático que a partir de Caravanas ele quis construir. Quem já conhecia de antemão o alinhamento, não teve surpresas: ele foi cumprido tema a tema, com precisão lógica mas com notável empenho na interpretação, bem longe do “debitar” de canções que afecta nalguns espectáculos a empatia com o público. Aqui, pelo contrário, Chico Buarque esteve sempre próximo, numa prestação global que não teve tempos mortos e que, abrindo e fechando com o mesmo samba (Minha embaixada chegou, esse hino à alegria de Assis Valente que brilhou na voz de Carmen Miranda), soube agarrar o público a cada passo. Da memória dos anos 70 (Mambembe, Partido alto, logo no início) a Cuba (Iolanda, Casualmente), passando por pequenos ajustes de contas, amorosos e outros (Retrato em branco e preto, Desaforos, Injuriado) ou pelas utopias amorosas (A moça do sonho, Dueto). Houve espaço para a saga do malandro, em contraponto com a dos outros malandros que ainda nos atormentam (A volta do malandro, Homenagem ao malandro, seguidos no alinhamento), voltando depois aos amores (Palavra de mulher e a belíssima As vitrines). Depois vieram Jogo de bola (canção recente, paixão antiga) e Massarandupió, que Chico explicou ser o nome da praia onde a sua filha enterrou o cordão umbilical do neto Chiquinho – por sinal o mesmo Chico Brown com quem ele agora fez esta canção, numa parceria de gerações. Outros sonhos, em seguida, trouxe-nos a imagem idílica de um mundo que não há mas que ainda assim nos enternece: “Sonhei que ao meio-dia/ Havia intenso luar/ E o povo se embevecia/ Se empetecava João/ Se emperiquitava Maria/ Doentes do coração/ Dançavam na enfermaria/ E a beleza não fenecia”. Como resistir a tal imagem?

Talvez pelo blues. E foi esse o tom dos temas seguintes: Blues para Bia, A história de Lily Braun, A Bela e a Fera. Depois, Todo o sentimento, a voz e piano, instalou na sala um clima de puro encantamento (até ao arrepio, “num tempo da delicadeza”), abrindo caminho à canção que desencadeou uma estúpida polémica e ali foi recebida em glória, com aplausos pelo meio, precisamente na frase que suscitou mais críticas (“Quando teu coração suplicar/ Ou quando teu capricho exigir/ Largo mulher e filhos/ E de joelhos/ Vou te seguir.”) Chico cantou-a de pé, à beira do palco e assim ficaria por mais umas canções. A grandeza melancólica de Sabiá (parceria com Tom Jobim) abriu caminho à anunciada homenagem ao saudoso baterista Wilson das Neves, cantando Chico (que pôs um chapéu igual ao dele) Grande hotel, canção que fizeram juntos. E porque nestes tempos “qualquer desatenção pode ser a gota d’água”, ouviu-se mesmo Gota d’água e, em seguida, As caravanas (libelo musical contra o racismo aberto ou encapotado) e a mais antiga Estação derradeira, num flashback muito bem conseguido e intencional: “Rio do lado sem beira/ Cidadãos /Inteiramente loucos/ Com carradas de razão.”

O primeiro encore anunciou-se por entre gritos sincopados, vindos da plateia, de “Fora Temer!”, aos quais Chico responderia apenas com um murmúrio sorridente, enquanto dedilhava o violão (“muito bom…”). Geni e o zepelim e Futuros amantes cumpriram, e excelentemente, a função de saciar as primeiras insistências do público, mas só com novo regresso ao palco é que o espectáculo terminaria, primeiro com Para todos, depois com Tanto mar, escrita por ocasião do 25 de Abril português, e onde ele pedia, num Brasil ainda em ditadura, “algum cheirinho de alecrim.” Um delírio. Se já antes lhe haviam dado uma rosa vermelha, aqui recebeu um molho de cravos também rubros. E Chico, que ao longo da noite foi perdendo magicamente o ligeiro grão rouco que já lhe marca a voz, mostrando-a límpida como se recomeçasse, saiu feliz. Como todos nós.