Opinião

Doutor, tem tempo para mim hoje?

Queremos fazer mais e melhor. Com mais profissionais e com mais tempo. A saúde não pode ser uma folha de Excel.

Vivemos numa sociedade sem tempo. Tudo é para ontem. Tudo passa a correr. Mas nos serviços de saúde o tempo é essencial para cuidar e, principalmente, para cuidar bem. 

Em Portugal, muito se tem trabalhado na qualidade dos cuidados de saúde prestados e na melhoria das condições de vida, o que se reflete em alguns indicadores de saúde, como é o caso do aumento da esperança média de vida.

Se no início do século XX os portugueses morriam antes dos 40 anos, no princípio deste novo milénio podem esperar viver mais de 80. Contas feitas, ganhámos mais de 40 anos de vida nos últimos cem anos.

Aumentámos a esperança média de vida, mas com um penoso viver nos últimos anos. Portugal está no grupo dos países com melhores médias em matéria de aumento de anos de vida, mas é, também e paradoxalmente, dos países onde a população vive menos tempo com saúde depois dos 65.

Com efeito, a forma como estamos a comer é o fator de risco que mais contribui para a perda destes anos vida saudável. O estilo de vida atual conduz-nos a novos problemas de saúde e, portanto, necessitamos de um novo rumo para este setor. Necessitamos de apostar em políticas de saúde de proximidade.

A proximidade é essencial para combater as grandes epidemias do século XXI – as doenças crónicas –, que em Portugal representam 86% da carga da doença.

Recorde-se que um em cada dez portugueses têm diabetes; quatro em cada dez sofre de hipertensão; e mais de metade da população adulta tem excesso de peso. Ou seja: os maus hábitos alimentares são um dos fatores que mais contribui para o surgimento destas doenças.

Se não formos capazes de atalhar caminho rapidamente, não conseguiremos dar resposta a estes problemas. Respostas que se querem próximas do doente e que exigem tempo por parte de todos os profissionais de saúde.

Em Portugal, por cada 100 jovens existem cerca de 150 idosos. O envelhecimento da população traz consequências visíveis no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e absorve uma boa parte dos recursos humanos e financeiros, algo que seria natural se os profissionais nos hospitais e centros de saúde não fossem escassos e, naturalmente, não vivessem numa constante luta contra o tempo.

Mas o que está, de facto, a falhar? Portugal está abaixo da média de grande parte dos países da União Europeia em termos de despesas com a saúde em função do Produto Interno Bruto (PIB). É urgente reverter esta situação, com aumento da despesa nos serviços de saúde, que não deve nem pode ser encarado como um gasto, mas sim como um investimento.

O trabalho que se tem desenvolvido na área da saúde em Portugal tem alcançado muitas vitórias, como é o caso da recente Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável, que prevê a implementação de um conjunto de medidas. Mas não chega, falta aquilo que nos parece do mais elementar: faltam profissionais de saúde. 

Os recursos humanos são essenciais para garantir o direito fundamental à saúde, de maneira a que cada pessoa possa viver a sua vida com dignidade.

Para termos um SNS sustentável e equitativo, é importante que os governos e as políticas se foquem na universalidade de acesso e de cobertura, o que só se conseguirá com um esforço de investimento em profissionais de saúde.

É necessário, não só tratar a doença, como também promover a saúde, pois não descuramos a capacidade que cada cidadão tem de tomar decisões informadas sobre a sua vida. Mas para isso é também preciso que haja investimento na literacia em saúde, uma pedra angular para uma vida mais saudável.

A sustentabilidade do SNS necessita que as pessoas permaneçam mais tempo de vida saudáveis, o que exige uma aposta em profissionais de saúde adequados, acessíveis e de qualidade.

Hoje, nos centros de saúde e hospitais, as listas de espera são extensas. No caso dos nutricionistas, por exemplo, as consultam não se restringem a folhas de Excel. É preciso tempo para uma correta avaliação do doente e para lhe prestar o melhor cuidado e acompanhamento. Este processo exige tempo e o tempo que temos é escasso. Hoje, para um universo de dez milhões de cidadãos, existem no SNS apenas 400 nutricionistas.

Queremos fazer mais e melhor. Com mais profissionais e com mais tempo. A saúde não pode ser uma folha de Excel. Não é justo nem para o profissional, nem para o doente. Em última análise, não é sequer justo para o contribuinte. Como sabemos, sai mais barato promover a saúde do que tratar a doença.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico