Crítica

O mais interessante em Tully é o corpo de Charlize Theron

Sorumbático filme, este, incapaz de encontrar realidade ou ficção mais interessantes do que os quilos extra da sua protagonista.

O que há de mais interessante em <i>Tully</i> é o corpo de Theron
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O que há de mais interessante em Tully é o corpo de Theron
Charlize Theron, Tully
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O que há de mais interessante em Tully é o corpo de Charlize Theron. Que não é esse corpo em que o leitor, se já viu filmes com ela, está a pensar. Mas um corpo que, seguindo aquele método “transformista” cada vez mais à antiga, ganhou pelo menos vinte quilos para parecer convincente como corpo de uma mulher à beira dos 40 anos, com problemas de controlo de peso e acabada de sair da terceira gravidez.

Pode-se perguntar: se o papel tivesse ido parar a uma actriz que tivesse naturalmente aquele corpo, a câmara de Jason Reitman chamaria tanto a atenção para ele, seria tão insistente na confirmação da sua, digamos, “evidência”? Provavelmente, não. Aquele corpo torna-se interessante, para a câmara e para o espectador, porque todos sabem ou intuem que não é “natural”, e que sendo “real” é, também, “ficção”. Lidar com esta duplicidade, contudo, é demasiado para um realizador como Jason Reitman, que filmando naquela estranha mistura de falso pudor e de falsa coragem depressa o reduz a uma espécie de efeito, que ora se mostra ora se ignora, que nunca se torna central mas também nunca se esquece.

Até porque a incidência de Tully é bem pouco física, e o que prevalece é o drama psicológico, suave e cheio de implicações geracionais (a “crise dos 40”), que não é difícil adivinhar ser capaz de criar uma relação forte (como os outros argumentos de Diablo Cody filmados por Reitman, Juno e Jovem Adulta) com as vidas de muitos equivalentes reais das personagens, na América mas não só, entre a despedida da juventude e um estado de precariedade profissional e económica que se estende para além do que seria desejável. Reconhecer essa “relação” e a sua mais que provável justeza “sociológica” não implica deixar de reconhecer que tudo se reduz apenas a isso, sem respostas ou desvios, e que a presença da “fantasia” (na relação entre Theron e a nanny contratada para tomar conta do bebé mais novo) só superficialmente tem qualquer coisa de subversivo, porque tudo tende para a conformação.

É porventura o truque de ilusionismo em que Reitman é mestre, visto que o tem praticado desde sempre: fazer um cinema profundamente conservador (um conservadorismo que nem é político, é artístico, psicológico, cinzento, sem horizonte) temperado com elementos que lhe dão um toque arejado, “actual” sem ter nada de “moderno”. Era no Rio Sagrado de Renoir que se chamava a atenção para a diferença entre “aceitação” e “resignação”. No cinema de Reitman essa distinção não faz sentido, porque se caminha directamente para a resignação, e porque ele próprio parece à partida resignado. Assim o mostra este sorumbático filme, incapaz de encontrar realidade ou ficção mais interessantes do que os quilos extra da sua protagonista.