Crítica

Os corações da França

A I Guerra vista a partir das mulheres que ficaram, que asseguraram a continuação da economia familiar.

Os Guardiões, Xavier Beauvois, Film
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Xavier Beauvois, os guardiões, Laura Smet
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Um estranho filme, a viver num desequilíbrio permanente em que o “conseguido” e o “falhado”, as ideias boas e as ideias que nem por isso, parecem coexistir de forma que se diria harmoniosa se isso não parece um paradoxo. Mas, também por causa disso, interessante, e sobretudo difícil de arrumar duma penada.

Vale a pena aproveitar os acasos da distribuição e aproximá-lo do Frantz de François Ozon. Porque ambos são evocações da I Guerra, numa perspectiva francesa, e porque, como o de Ozon (que se inspirava num filme de Lubitsch de 1931), também o de Beauvois vai buscar uma fonte cronologicamente próxima dos acontecimentos (um romance de Ernest Pérochon publicado em 1924).

É a I Guerra dada na “retaguarda”. Há algumas cenas nas trincheiras, mas no essencial está-se na quinta dominada pelas mulheres protagonistas visto que os homens da família vão desaparecendo para as fileiras do exército. Isto proporciona, em primeiro lugar, um olhar algo irónico sobre o bucolismo e as mitologias campestres, tão presentes na pintura francesa daquelas décadas, coisas que Beauvois, pela iluminação ou pelos enquadramentos, está sempre a evocar mesmo sem precisar de citações explícitas. Depois, o lugar das mulheres ali, as mulheres que ficam, as “guardiãs”, que tomam conta da quinta e dos seus afazeres, e que asseguram a continuação da economia familiar.

Asseguram ou tentam assegurar mais qualquer coisa, sobretudo a matriarca, Nathalie Baye: a perservação de uma moral social, e de uma moral sexual (a relação com as duas mulheres mais novas, a nora, Laura Smet, e a orfã que é acolhida na quinta, Iris Bry), algo mais complicado de garantir se, estando os filhos ou os maridos longe, se instala nas redondezas um regimento do exército americano. Apesar de ser um nó central da narrativa, esta questão acaba por ser esquemática e previsível. E o que é que fica, então, e tem uma força inesperada e irrecusável? As longas, longuíssimas, cenas, os longuíssimos planos, em que Beauvois mostra estas mulheres no trabalho e nas tarefas diárias, seja nos campos seja dentro de casa, duma forma que faz com que a acção nunca seja “indicativa” e se converta em tudo o que há para ver. É o esforço, o trabalho (e portanto uma certa violência), mas também é o ritual, a garantia de que as coisas se mantêm e continuam, um quotidiano “estruturante”. Esta ambivalência, que no fundo se replica na organização do filme e até na reacção que ele inspira, é algo a que é difícil dizer que não.