Editorial

Mais um triunfo populista

Janez Jansa venceu as eleições na Eslovénia com uma cartilha inspirada em Viktor Orban e Donald Trump.

Ontem, repetiu-se na Eslovénia um cenário já visto: um país com uma democracia jovem, que viveu com soluções políticas instáveis, rende-se a mais um político populista que não se importa de usar chavões para acicatar os medos mais básicos. A campanha passou muito pelas redes sociais, como agora é de regra, espalhando slogans apelando à urgência de “drenar o pântano burocrático” para combater a “esquerda degenerada”. E nem sequer faltam as acusações de corrupção atiradas aos partidos de referência.

Vista de fora, a crise democrática eslovena parece difícil de entender: as previsões de crescimento económico para o país são de 5,1% este ano e o receio dos migrantes está completamente desajustado com a realidade de uma pequena nação que apenas acolheu 200 pessoas entre 2015 e 2016, muito abaixo do que poderia ter feito. 

Mas o problema não é de cosmética, é de fundo. A incapacidade de solidificar instituições democráticas nas várias nações do leste europeu está a ter reflexos dramáticos na democracia continental. Mal saídas da crise financeira, estas nações estão a ser varridas por um vendaval populista que é adoptado simplesmente porque funciona. Basta repetir a fórmula de Donald Trump, Orbán, Kaczynski e outros que tais para chegar ao poder e começar a desmontar a teia institucional da separação de poderes que sustentou até agora as sociedades baseadas nos valores ocidentais.

Janez Jansa, o líder do partido vencedor, contou com a presença de Orbán na campanha e com a sua influência ideológica no programa eleitoral. Os migrantes são o alvo a abater, as políticas de integração da União Europeia o maior inimigo e na mira estão também as vozes da sociedade civil que difundem ideias diferentes – como as organizações não governamentais que querem continuar a apoiar os migrantes e que agora vão ficar com a actividade muito dificultada. É o padrão anti-democrático que se reconhece na Hungria e na Polónia. E é também a matriz do discurso anti-Bruxelas que alastra ao novo governo italiano e que pode bem pôr em causa o futuro da União Europeia. 

Vale a pena temer pelo futuro, porque a fórmula funciona mesmo e vai ser repetida em ainda mais países. As eleições para o Parlamento Europeu em 2019 arriscam-se a ser as mais caóticas de sempre, com um número crescente de não-alinhados, eurocépticos em barda e xenófobos para todos os gostos. Não vai ser fácil aprofundar, ou sequer assegurar, os valores europeus no próximo hemiciclo de Estrasburgo.