Crítica

A psicologia como artifício

Não é um mau filme, mas o seu carácter de exercício de estilo, cheio de cartas na manga mas relativamente oco, impede-nos de partilhar o entusiasmo com que tem sido recebido.

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Joaquin Phoenix, você nunca esteve aqui, YouTube
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Joaquin Phoenix, você nunca esteve realmente aqui, Lynne Ramsay, Cinema
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Você nunca esteve realmente aqui, Lynne Ramsay, 2017 Cannes Film Festival, Film
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É um daqueles casos de "realismo psicológico" em que o "realismo" e a "psicologia" se perturbam mutuamente e em vez duma soma tem-se uma subtracção. Aqueles flashbacks, aquelas visões do "passado" que assaltam a personagem de Joaquin Phoenix, por exemplo: dizem-nos "coisas" sobre ele, dizem-nos que ele é um veterano de guerra, que sofre de stress pós-traumático ou algo que o valha, mas não são mais nada do que uma acumulação artificial de "informação", eventualmente para ligar a narrativa a uma relevância histórica ou social, que danifica o mistério da personagem (torna-a "exemplar", torna-a "um caso").

O excesso de caracterização – para não dizer excesso de sublinhados – sugerido por este exemplo transpõe-se facilmente para o estilo e para a mise en scène de Ramsay, que é sempre um pouco a mais, sempre a deixar a assinatura de uma evidência arty (e o filme está ensopado disso até aos ossos, incluindo a partitura do inefável Jonny Greenwood), mesmo quando dramaticamente tudo parece pedir secura e que se vá direito ao ponto - até ao ponto do "realismo", como naquele travelling ao longo de uma avenida nocturna de Manhattan, uma rara, mas magra, sugestão da "sujidade" de um filme como Taxi Driver, que é obviamente uma inspiração para este.

Não é um mau filme, mas o seu carácter de exercício de estilo, cheio de cartas na manga mas relativamente oco, impede-nos de partilhar o entusiasmo com que tem sido recebido.