Óculos, pêlos faciais
DAVID FONSECA

Uma rádio que só toca David Fonseca

Depois de uma aventura em português, David Fonseca regressa ao inglês em Radio Gemini, álbum pensado como playlist de uma rádio em que lhe cabe a ele ser rock, r&b, hip-hop, funk e tropical, sempre debaixo de um filtro pop.

Assim que tomou o primeiro contacto com o vídeo de This is America, de Childish Gambino, David Fonseca quis voltar ao tema mas desligando-se do vídeo de uma das mais intensas e perturbadoras canções que abalaram o mundo pop nos últimos meses. Queria perceber se o tema sobrevivia à ausência desse fortíssimo discurso visual acerca do racismo e da perseguição policial em território norte-americano, calando com absoluta violência todos os cantos solares que eludem a realidade. E sim, concluiu, a canção sobrevive “de uma forma ainda mais incrível” depois de privada da relação com a imagem.

“Tem tudo aquilo que uma boa canção pop deve ter – porque, para mim, aquilo é uma canção pop, das mais notáveis”, diz. E concretiza: “Mantém uma forma vaga, é dançável, é cantarolável, dá para cantar a caminho da praia sem ter de aparentar ser uma coisa muito séria, mas ouvindo nas entrelinhas tudo aquilo é extremamente violento e acutilante de um ponto de vista social, em relação àquilo que se vive de facto hoje na América, e marca um tempo. Dizer aquilo que ele diz e ser extremamente popular é muito complicado.” Esta conjugação de popularidade e assertividade discursiva, nota, é algo que está habitualmente ausente do mainstream português. “A música pop que aparece e está no top 10 não é uma música que transporte algo de especial, é facilmente esquecível.”

David Fonseca não está a comparar-se a Childish Gambino. Nada disso. E di-lo com todas as letras para que não haja qualquer confusão a esse respeito. Simplesmente cita o alter ego musical do actor Donald Glover como antídoto contra a opinião vulgarizada de que a música pop não tem a missão de propor qualquer temática séria e deve ater-se à superficialidade. É uma discussão que toma forma a partir de uma das abundantes excelentes canções de Radio Gemini, o seu sétimo álbum a solo. Blah-blah-blah pode ser lida, sem grande imaginação, como uma crítica à vacuidade que tantas vezes se apodera das canções de massas, quando pouco mais fazem do que apontar para a esquerda e para a direita, sugerir uns elementares passos de dança e elencar umas palavras escolhidas pela rima e não pelo seu real sentido.

Mais uma vez, não é que a pop esteja obrigada a desencadear revoluções e que David Fonseca esteja a reclamar para as suas canções um impacto capaz de derrubar governos ou salvar cidadãos de acções de despejo. Mas há do seu lado uma crença inabalável no poder de uma canção para pintar o quadro de um momento e, idealmente, carregar “uma intenção disruptiva”. E hoje em dia, reforça, a música que se ouve nas discotecas ou nas rádios mainstream é a de uma pop sempre disponível para dizer sim e pouco questionar o mundo, em vez de ousar dizer não e semear qualquer impulso de oposição ou de revolta.

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David Fonseca

Na sua própria discografia, aquilo que haverá, porventura, de mais disruptivo é o constante reset que se propõe levar a cabo, recusando o conforto de permanecer agarrado a uma mesma linguagem testada e validada pelo grande público, e submetendo tantas vezes as suas canções a um arco conceptual que, com frequência, implica alguns tropeções numa sequência de melodias que, mandam as regras, se quer o menos atreita possível a distracções.

Assim volta a ser em Radio Gemini – depois da aventura isolada em português que foi Futuro Eu, e da investida em dois álbuns interligados de Seasons – Rising : Falling. Do início ao fim, ao longo de uma hora certa, o músico junta canções e interlúdios como se ouvíssemos uma emissão de rádio em directo (sem anúncios). E enquanto Radio Gemini se espraia volta a tornar-se claro que David é um dos mais lúcidos exploradores da pop em Portugal, ao compreender e explorar a natureza volúvel dessa linguagem, fazendo dela íman para todos os géneros musicais que canibaliza impiedosamente.

É por isso que, sem qualquer pudor, Radio Gemini quase se pode acompanhar como um número de travestismo: ouvimos David Fonseca nas suas peles mais habituais, de seguidor do rock clássico e orelhudo dos Cars (Sloppy kisses) ou da pop aberta ao mundo de David Byrne (Hang on…), mas também em terreno de balada ao jeitos dos Blur de Tender (em Lazy), em modo funk-pop com marca registada de Prince (Men boys women girls), em pop atmosférica francófona via Air (C’est pas fini), em distensão r&b (My love is real), em r&b mais robusto e lascivo como se quisesse imaginar-se Britney Spears (Tell me something I don’t know) ou a tentar acercar-se de um hip-hop de ego farto em modo Kanye West (Anyone can do it).

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Na discografia de David Fonseca, aquilo que haverá de mais disruptivo é o constante reset que se propõe levar a cabo, recusando o conforto de permanecer agarrado a uma linguagem testada e validada David Fonseca

Medo do exercício

Apesar do que possa parecer nas linhas acima, Radio Gemini não é: a) uma abordagem a rasar o paródico das várias linguagens em apreço, quase se limitando a um efeito caricatural; b) um exercício de estilo em que David Fonseca tenta, à força, enfiar-se nos géneros musicais que emula para se confundir com qualquer um dos seus legítimos autores. É sobretudo a criação em disco de uma playlist que obedece, isso sim, a uma lógica de diversidade de abordagens, sem cair na armadilha da artificialidade. Tanto foi pensado como emissão de rádio que, revela o músico, Radio Gemini estará disponível nos serviços de streaming na opção de faixa única, com os temas todos encadeados, sem pausas. “Isso permite-me ser um pouco mais radical nos extremos”, defende. “Nesse sentido, é um disco que me dá mais liberdade. Não tenho de me cingir especificamente a uma forma de fazer as coisas porque o conceito me permite ir a sítios onde normalmente não vou. Mas vou sempre com um medo horrível de poder fazer um exercício de estilo.”

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David Fonseca

Esse medo horrível foi sossegado pelo facto de, diante de cada um dos 21 temas (entre canções e separadores) que compõem Radio Gemini, David Fonseca nunca se ter estranhado. Possivelmente porque a voz é sempre a sua e porque foi ele, como de costume, a gravar quase todos os instrumentos. “E isso tem uma certa forma”, reconhece. “Mesmo que eu vá até uma área mais do rock ou da música de dança, vou tocar os instrumentos da mesma forma. Os sons podem ser diferentes, mas são tocados com as minhas limitações. Uma das conclusões a que cheguei foi que, mesmo usando outros formatos, acabo por fazer a minha música. Pensei até: ‘Caramba, fiz todo este caminho para chegar exactamente ao mesmo sítio’. Podia estar numa banda de metal e ia soar a mim na mesma. Acho que é por isso que soa a uma coisa una e que a pessoa neste disco sou mesmo eu.”

A única excepção que o músico admite a esta intuitiva construção de canções nascida de um pequeno sintetizador a pilhas que o acompanhou em quartos de hotel, carros a caminho de concertos, comboios, aviões ou regressos a casa depois de uma noite numa discoteca, é Anyone can do it. Esse mergulho nas águas do hip-hop é o único a não ter sido norteado pela mera curiosidade de perceber como se desenvolve determinado género e de que maneira ele se pode aplicar às suas criações. “Estava com uma pessoa a falar de vários assuntos e lembro-me de lhe dizer que parecíamos aqueles rappers que começam logo a tentar ensinar-nos alguma coisa”, conta. “Achei piada a essa forma, a essa abordagem do rapper que se coloca logo num sítio muito superior a quem o está a ouvir. E então peguei nisso, fui claramente para um sítio onde não costumo ir e chamei à canção Anyone can do it, numa abordagem auto-referencial e auto-irónica.”

De resto, quis que todas as canções ficassem “prisioneiras do sítio de onde saíram”. Daí que o conceito de rádio tenha surgido, antes de mais, numa alusão à premissa inicial de se sintonizar na frequência de cada um dos lugares e das situações em que os temas nasceram, só depois evoluindo para a tal condição de playlist. Mais do que correr atrás do gosto popular que essa playlist poderia indiciar, David Fonseca diz ser sobretudo tentado pela “ideia extremamente atractiva para qualquer músico de poder entrar num universo que não é o seu”. Com a curiosidade de se rodear de ferramentas que não lhe são habituais, mas também na tentativa de descodificar as características que tornam certas correntes musicais tão apelativas.

Sem se preocupar demasiado com as opiniões de terceiros, David recorda uma ida até à praia, em Dezembro de 2015. Ia fazer fotografias de promoção para um disco de Natal e seguia vestido de pinheiro. Quando chegou, em família, os filhos envergonharam-se com a sua figura numa praia que, afinal, não estava deserta. David, o pai, fê-los repetir consigo: “Não quero saber o que as outras pessoas dizem de mim”. Debaixo do fato de pinheiro, imune a quaisquer comentários, continuava a estar David Fonseca. Radio Gemini não é muito diferente.