Este funk é para velhos e para novos

Sempre desafiante e surpreendente, Childish Gambino assina um dos melhores álbuns do ano, Awaken, My Love!, só possível de absorver ao cabo de várias audições.

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Um “homem do Renascimento” no século XXI capaz de tomar os mais surpreendentes dos caminhos quando menos se espera

Músico (o que inclui rapper, cantor, instrumentista, produtor), actor, argumentista, comediante, Childish Gambino é tudo isto e muito mais, um “homem do Renascimento” no século XXI capaz de tomar os mais surpreendentes dos caminhos quando menos se espera, razão pela qual o “Childish” do seu nome rima tão bem com a aura de enfant terrible que carrega. O seu mais recente álbum é a prova disso mesmo: depois de trabalhos essencialmente de hip-hop (se bem que, é certo, hip-hop nunca convencional ou monolítico), a primeira nota a assinalar é, precisamente, a de que este não é um álbum de hip-hop, antes um complexo e riquíssimo compêndio de funk, soul, R&B e psicadelismo, no qual Gambino canta do princípio ao fim (sim, não há um único rap), na linha dos melhores rappers-cantores (Aloe Blacc, José James e, já agora em Portugal, NBC). Perfeccionista, e reunindo-se de um excelente naipe de instrumentistas, o californiano produz o álbum inteiro (assinando, bem assim, todas as letras, as quais estão em constante comunicação com canções suas mais antigas), com uma ou outra colaboração pontual, campo onde se destaca o nome de um dos papas do funk, Georges Clinton (a par dos de James Brown e Sly Stone, claro), o qual chancela, de alguma forma, o quanto o álbum respira do género, sendo simultaneamente uma demonstração de reconhecimento e reverência de um miúdo a um graúdo. Jogando ironicamente com o próprio título do álbum, Gambino começa a primeira faixa (Me And Your Mama) como uma canção de embalar, o rhodes sozinho num primeiro momento e depois acompanhado pela batida, a que se junta a linha de baixo, o sintetizador e os órgãos, até que uma gargalhada cavernosa (muito “funkadelica”), ao segundo minuto, nos faz despistar do sono e arrancar numa cavalgada rockeira em que Gambino, suportado pelos coros, traz à memória o melhor Lenny Kravitz (repetindo a dose em Riot, provavelmente o mais perto que um rapper já teve de ser uma rockstar, para citar Kanye West). E isto tudo para, no final, voltar ao mesmo registo de embalar, definitivamente quebrado com a faixa seguinte (Have Some Love), um hino à união e ao amor (toada positiva reiterada em Stand Tall, que fecha o álbum), onde os coros proto-gospel caiem estranhamente bem em cima da linha country de guitarra do refrão. Se perdemos algum tempo na descrição destes altos e baixos, destas “mudanças de direcção”, é justamente para assinalar que elas percorrem todo o álbum e lhe conferem mesmo o seu traço distintivo (e até, paradoxalmente, unidade).

Embora a capa do disco aponte para uma toada blues, o que temos aqui, porém, é funk a rodos, com sintetizadores, guitarras e baixos eléctricos em alvoroço, apoiados por coros gongóricos, destilando aquela “loucura” que os Parliament-Funkadelic imortalizaram (Boogieman não deixa dúvidas), isto sem prejuízo de momentos mais melancólicos aqui e acolá. Falámos em Clinton, mas, no que à performance vocal de Gambino diz respeito, talvez até seja o nome de Bootsy Collins (baixista, originalmente) a grande referência aqui, ora nos falsetes, na manipulação da voz, ora, enfim, no humor psicadélico. Não por acaso, I’d Rather Be You (canção do grande Ahh...The Name Is Bootsy, Baby!, 1978, da Bootsy’s Rubber Band liderada por Bootsty) é samplada em Redbone (como, já agora, Tupac também a samplou em I’d Rather Be Your N.I.G.G.A.), bela canção de orgulho e ciúme sobre o amor como “armadilha”, e que traz igualmente para cima da mesa a inegável influência de Prince no aprimorar de um funk mais moderno casado com a pop e o disco. Ainda sobre Redbone, interessa anotar outra das particularidades que enforma a actual geração de cantores de R&B, a qual cresceu a ouvir rap: a forma como esta coloca, de modo musicalmente orelhudo e, por vezes, surpreendentemente poético, calão e inclusivamente “palavrões” (shit, nigga, etc.) em canções glicodoces e cheias de soul, inovação que reflecte uma transformação maior, linguística e culturalmente falando – é assim com Frank Ocean ou, por exemplo, The Weeknd, como é também com Gambino. Terrified é outra das grandes canções presentes, sintetizando o ambiente “passado-presente” do álbum (no modo como convoca os já referidos Bootsy e Ocean, deixando no ouvinte o desejo de ouvir uma colaboração de Gambino com este último), e onde ao psicadelismo sonoro Gambino adiciona camadas de mistério através das suas letras, tal como acontece em Zombies (que sampla, momentaneamente, a synthpop de Nightcall de Kavinsky), na qual as criaturas visadas podem ser tanto os agiotas da indústria como simplesmente as namoradas ou os fake friends interesseiros.

California, que capta Gambino no momento mais goofy do álbum (até pela performance vocal que oferece), é uma divertida e soalheira faixa sobre o sonho de uma miúda em ir para Hollywood e ser famosa mas que acaba em Koreatown, momento em que Gambino, pelo meio da brincadeira, faz uma interessante reflexão sobre o mundo viral dos vídeos de hoje (“When you make a movie now, know you making no difference / It’s a tickle on the mind ‘fore me finish your sentence / So go pimp a like on Vine but don’t pay for the privilege”). E ainda há tempo para uma declaração de amor lindíssima com dedicatória (The Night Me And Your Mama Met), um Sexual Healing exclusivamente instrumental que faria sorrir Marvin Gaye… Embora sendo um trabalho que reflecte não só o acervo histórico da música negra com o que vem sendo feito contemporaneamente, não deixa de ser um objecto fora do seu tempo, traduzindo, por isso, um gesto artístico audaz que é de saudar. Ainda assim, não somos dos que pensam que todo o percurso desalinhado e experimentalista é, por si só, valioso (o crossover como valor sacrossanto do pós-modernismo cultural), motivo pelo qual ficamos a aguardar para perceber se a idiossincrasia de Gambino se irá traduzir, a final, numa visão e num “autorismo” de conjunto, ou se não se ficará apenas por um corpo inconsistente e desequilibrado de (bons) trabalhos avulsos.