Entrevista

“Cada militante socialista diz o que sente com isso. E usa adjectivos diferentes”

Tal como António Costa, Mariana Vieira da Silva insiste que é preciso separar "aquilo que é o que corre da justiça daquela que é a actividade do partido".

Bochecha, retrato, sobrancelha
Foto
Nuno Ferreira Santos

O PS precisava de uma clarificação sobre José Sócrates antes do congresso?
Desde 2015 que o PS tem definido com muita clareza a sua posição quanto ao caso que envolve na justiça o eng. José Sócrates. Reafirmando desde sempre a separação daquilo que é o que corre da justiça, daquela que é a actividade do partido. Acho que essa clarificação foi muito relevante no congresso de 2015, mas como creio que não é sobre o congresso de 2015 que me está a perguntar... Eu julgo que o que aconteceu foi uma notícia que era nova e que lançou, nos debates em que os senhores jornalistas fazem perguntas, tomadas de posição que não considero que tenham significado uma ruptura - ou uma mudança significativa na posição do PS: à justiça o que é da justiça, à política o que é da política. E obviamente, porque ninguém pode dizer que a situação não é incómoda, perante as notícias e perante a hipótese de um dia a justiça considerar provados os crimes de que é acusado, cada militante socialista diz o que sente com isso. E usa adjectivos diferentes...

Neste caso, adjectivos um bocadinho mais fortes e que levaram José Sócrates a sair do PS. Esta saída é um alívio ou é um peso?
A saída do PS, bem como a inscrição no PS, é uma decisão individual de cada um. E o PS limitou-se a aceitar essa saída como sendo um acto da liberdade de cada militante. 

O julgamento de José Sócrates deve começar muito próximo das legislativas. Esse julgamento é um peso para o líder do PS, independentemente de ele estar ou não inscrito no partido?
A separação entre a política e a justiça serve precisamente para que se procure distinguir as duas dimensões. Acho que não é bom para ninguém, nem para o país nem para o mundo político - e certamente não para o eng. José Sócrates -, essa ideia de que o julgamento é um julgamento que não é da esfera exclusivamente da justiça. E portanto, se a pergunta é se este tipo de julgamento tem impacto numas eleições, concerteza que tem. É possível que tenha tido em 2015, mas eu creio que passados estes anos as pessoas também conseguem distinguir os dois planos. E, acima de tudo, para o PS essa distinção é fundamental. 

A Mariana trabalhou nos governos de José Sócrates. No segundo esteve, aliás, no gabinete do secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro. Tendo em conta os adjectivos usados nos últimos tempos, também ficou surpreendida e chocada com o que vai sendo noticiado?
As notícias são... a acusação é uma acusação grave. E portanto, obviamente que ela provoca nas pessoas um impacto. Sei que estamos a ler umas vezes partes de uma acusação, outras vezes partes da defesa. E não me considero competente para tomar as decisões. Os sentimentos... é evidente que ninguém fica indiferente a uma acusação tão grave como aquela. Isso é uma surpresa para mim, mas creio que isso é um plano que não tem a ver com o do fim do processo judicial, que trará as suas conclusões.