Kendrick Lamar convidou uma fã para cantar, mas a n-word também pisou o palco

Deve uma espectadora branca recorrer a um termo racista que faz parte da letra de uma música? Não, e essa era uma regra não escrita nos concertos de Kendrick Lamar. Mas uma fã quebrou-a.

Kendrick Lamar, Compton, DAMN., Prêmio Pulitzer de Música, Músico
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Reuters/MARIO ANZUONI

É uma das canções mais populares de Kendrick Lamar e o rapper sabe-o, convidando frequentemente fãs a subirem ao palco e a cantá-la consigo. Foi por isso que, na segunda-feira, num concerto no estado norte-americano do Alabama, Kendrick Lamar convidou uma das milhares de pessoas que assistiam ao espectáculo para cantar a M.A.A.D City do álbum Good Kid, M.A.A.D City, editado em 2012. Mas a experiência correu mal. A fã, uma rapariga branca, repetiu a “n-word” durante a sua interpretação, o que indignou a multidão que assistia ao concerto e levou Kendrick a interromper a actuação.

O episódio aconteceu no Hangout Music Festival. Lamar convidou uma rapariga para o palco. A jovem, visivelmente entusiasmada com a oportunidade, apresentou-se como Delaney e começou a cantar. Seguindo a letra original da música, Delaney recorrey a um termo racista e ofensivo duas vezes.

"Man down
Where you from, nigga?"
"Fuck who you know, where you from, my nigga?"

O termo em causa é considerado especialmente ofensivo nos EUA, onde se refere originalmente aos escravos negros dos grandes proprietários agrícolas.

Os espectadores reagiram com desagrado, vaiando a fã que tinha subido ao palco.

Sem ter percebido o motivo da interrupção, a jovem perguntou a Lamar se não era "suficientemente cool" para actuar com o rapper. Kendrick explicou-lhe então, em palco, que Delaney deveria ter omitido “uma única palavra”. A jovem mostra-se confusa e pergunta “oh, desculpa, disse-a?”.

O músico acaba por perguntar à plateia se lhe deve dar uma segunda oportunidade. Apesar do coro negativo, o rapper decide deixar a fã cantar outra vez. “Não, por favor, deixem-me continuar”, pede à multidão. “Já percebi. Estou habituada a cantar como a escreveste.” Nervosa, a jovem acaba por retomar o microfone, mas falha no ritmo e acaba por ser interrompida e convidada a sair por Lamar, o primeiro rapper a receber um Pulitzer.

O incidente, viralizado através das redes sociais, é motivo de debate nos EUA, onde o uso do termo racista e ofensivo é especialmente condenado quando é proferido por não negros. Os defensores da espectadora no centro da polémica, contudo, sublinham que o termo faz parte da letra da canção, e que a responsabilidade recai por isso no autor.